Esquerda não terá maioria para reformas

Se vencer no 2º turno, como apontam as pesquisas, bancada no Congresso será insuficiente para Bachelet cumprir suas promessas de campanha

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL / SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2013 | 02h01

O movimento da ex-presidente Michelle Bachelet ampliou sua presença na Câmara e no Senado na eleição de ontem, mas em número insuficiente para aprovar todas as reformas que pretende. Uma mudança no sistema tributário é possível com a maioria simples conseguida pela centro-esquerda, mas, para tornar grátis o ensino público e reformar a Constituição, caso ela vença a eleição, Bachelet precisará de votos dos adversários.

As primeiras projeções davam à esquerda 21 dos 40 senadores e 62 dos 120 deputados. Para mudar o sistema educacional, seriam necessários 68 deputados (que a esquerda poderia alcançar com apoio de independentes) e 23 senadores. Para criar uma nova Carta, que permitiria a reeleição, são necessários 80 deputados e 26 senadores (algo impossível sem o apoio da direita).

Em uma eleição marcada pelos 40 anos do golpe militar que derrubou o presidente socialista Salvador Allende, os dois principais projetos, de Bachelet e da conservadora Evelyn Matthei, foram assumidos e defendidos pelas candidatas, sem eufemismos, como de esquerda e direita.

Ambas divergem sobre o tamanho do Estado para diminuir a desigualdade e discordam sobre temas como saúde e criminalidade, principais preocupações dos chilenos, e a educação, razão principal dos protestos estudantis que desde 2011 exigem ensino universal gratuito.

"Bachelet tem um projeto ousado, muito difícil de ser cumprido, o que pode causar uma grande decepção. Algo parecido com o que aconteceu com Sebastián Piñera", afirma o analista político Patricio Navia. "É viável, mas arriscado."

A ex-presidente promete um ensino gratuito universal no período de seis anos, uma reforma tributária que acrescente 3 pontos porcentuais ao PIB, para bancar as mudanças na educação, projeto que sofre oposição dentro de seu próprio grupo, os democratas-cristãos, os mais conservadores entre seus aliados.

Durante a campanha presidencial, Matthei argumentou que essas reformas são inviáveis porque comprometeriam os investimentos. "Matthei tem alguma razão sobre as empresas chilenas, que teriam menos liquidez com o aumento de impostos de 20% para 25%. No entanto, de nenhuma maneira os investimentos externos seriam afetados, pois as novas taxas não incidiriam sobre eles", afirma o economista Luis Eduardo Escobar, do grupo Imaginaccion. "Ainda assim, há muita margem para aumento de imposto no Chile. Estamos bem abaixo dos nossos vizinhos."

Contraste. Em Santiago, mais do que em nenhum lugar, o contraste social que monopolizou os debates durante a campanha é mais evidente em Cerro 18, o que há de mais parecido com uma favela na capital chilena. Ao pé do morro, já no começo da Cordilheira dos Andes, está o bairro de Lo Barnechea, um dos mais ricos da cidade.

Como no Cerro 18, dominado pelo narcotráfico, não há nenhum posto de saúde, hospital ou escola. Seus moradores descem para votar nos colégios da parte rica. "Espero que com Bachelet mude algo. A saúde é um desastre. Tive câncer na bexiga e esperei dois anos por uma operação. Isso não é possível. Tive de vender um carro para poder bancar a cirurgia, pois o serviço público não existe", afirmou o pintor Luiz Orellana, que ganha cerca de US$ 500 por semana trabalhando para os "burgueses".

Questionado sobre a concentração da campanha presidencial nas melhorias sociais, um dos votantes de Lo Banechea, vestido com camisa polo e calças de grife, foi incisivo. "Não existe isso de igualdade, é uma besteira. Nem no Chile, nem no Brasil, nem em lugar nenhum." Ele preferiu não se identificar.

"Será o governo mais difícil desde Salvador Allende", afirmou ao Estado o analista e ex-ministro de Bachelet, Francisco Vidal, confiante em uma vitória socialista no segundo turno. Autoridades eleitorais informara ontem que 6,6 milhões de eleitores votaram - entre 12 milhões de habilitados. O comparecimento foi o pior da história em nível presidencial, embora tenha sido a primeira eleição em que o voto não era obrigatório.

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