Raul Arboleda / AFP
Raul Arboleda / AFP

Esquerda colombiana tem chance real pela primeira vez com ex-guerrilheiro

Propostas de ex-prefeito de Bogotá preocupam parte de um país tradicionalmente conservador

O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2018 | 05h00

BOGOTÁ - Gustavo Petro, ex-guerrilheiro que governou Bogotá entre 2012 e 2015, luta para se tornar hoje o primeiro presidente de esquerda da Colômbia. O economista de 58 anos está atrás do candidato de direita, Iván Duque, em todas pesquisas sobre a disputa, mas sua presença no segundo turno tem preocupado muita gente num país tradicionalmente conservador. 

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As propostas de Petro de mudar o modelo econômico da nação, taxar proprietários de terras improdutivas e abandonar o petróleo e o carvão, optando por energia limpa, têm assustado investidores. Alguns temem que as medidas que ele propõe possam transformar a Colômbia em outra Venezuela.

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Conhecido por seus discursos inflamados no Senado contra a corrupção e os grupos paramilitares de direita, Petro diz que seu despertar político começou em 1973, quando ocorreu o golpe militar que pôs fim ao governo do presidente socialista do Chile, Salvador Allende. A Colômbia descambou para a violência na mesma época, quando grupos guerrilheiros iniciaram uma onda de sequestros e ataques contra civis. Foi então que Gustavo Petro, filho de um professor, prometeu combater a oligarquia feudal e se uniu ao grupo guerrilheiro M-19. 

Embora nunca tenha sido um combatente, o fato de se ligar ao hoje extinto grupo rebelde M-19, que invadiu a Suprema Corte do país em 1985, um ataque que deixou mais de 100 mortos, tem servido para alimentar as críticas dos oponentes. Petro foi detido naquele ano por posse de armas e passou 18 meses na prisão, onde, disse, foi torturado. 

Embora seja muito difícil para Petro conseguir que mudanças radicais sejam aprovadas pelo Congresso – seu movimento Colombia Humana conquistou somente seis assentos nas legislativas em março – ele diz que tentará fazer alianças com partidos de centro, esquerda e outros minoritários. Conhecido por seu estilo obstinado de administrar e legislar por meio de decretos, Petro é criticado por viver em um condomínio fechado e usar sapatos de US$ 500.

Sua eleição para prefeito de Bogotá em 2011, o segundo maior posto na Colômbia depois da presidência, foi vista como prova de que a política era o caminho a ser seguido pelos movimentos de insurgência como Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que se desmobilizaram no ano passado e formaram um partido político.

Petro obteve 4,8 milhões de votos no primeiro turno. “Gustavo Petro representa um projeto claramente populista”, disse Andrés Molano, diretor do Instituto de Ciências Políticas Hernan Echavarria Olozaga. “Ele se apresenta como um outsider – um inimigo das elites e elaborou um discurso messiânico e antiliberal que promete uma revolução, tanto econômica como política.” Uma vitória de Petro poderia consolidar o frágil processo de paz que encerrou cinco décadas de guerra com as Farc, mas irritou muitos ao oferecer para seus comandantes uma voz política e não uma cela.

Petro promete que a quarta maior economia da América Latina incluirá todos da sociedade, criando um sistema bancário público que vai garantir crédito barato para empresas de pequeno e médio porte e ampliando o ensino gratuito. A proposta poderá ser difícil. A economia continua frágil, uma nova onda de gangues criminosas envolvidas com o tráfico de drogas ocupou áreas outrora controladas pelas Farc e milhares de venezuelanos chegaram ao país em busca de comida e trabalho. / REUTERS 

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