Esquerda tenta vitória inédita em El Salvador

Candidato de ex-grupo guerrilheiro à presidência adota tom moderado para romper hegemonia da direita

William Booth, THE WASHINGTON POST, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

Depois de uma guerra civil que durou 12 anos e de uma paz atualmente ameaçada pela criminalidade, a esquerda salvadorenha pode, nas eleições de hoje, concluir uma jornada notável que teve início com a luta armada e pode terminar no palácio presidencial.O seu candidato nas eleições é Mauricio Funes, de 49 anos, ex-correspondente do canal em espanhol da CNN. Ele foi recrutado recentemente pela Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), grupo revolucionário convertido em partido político, e disputa a presidência voto a voto com Rodrigo Ávila, de 44 anos, ex-chefe da força nacional de polícia e candidato da Aliança Republicana Nacionalista (Arena), partido que venceu as quatro últimas eleições em El Salvador.Apesar de os membros da FMLN fazerem campanha tradicionalmente vestidos de vermelho, Funes prefere uma camisa panamá branca, calças jeans da moda e óculos de grife. E mesmo num partido cuja retórica está mais próxima do estilo dos irmãos Castro, de Cuba, Funes se considera a versão local do presidente americano, Barack Obama.A comparação é feita abertamente: Funes e a FMLN usam imagens de Obama nos seus anúncios (apesar das objeções do Departamento de Estado americano). A campanha publicitária da FMLN na televisão completa o vínculo ao empregar o slogan de Obama em inglês e espanhol: "Sí, se puede!"BOLIVARIANOSSe vencer hoje, Funes colocará outro Estado latino-americano na trilha da "maré rosa" que já chegou a Brasil, Chile, Venezuela, Equador, Bolívia, Uruguai e Nicarágua, onde partidos de esquerda venceram as eleições nos últimos anos. Mas a pergunta que ocupa as mentes dos eleitores, de acordo com entrevistas e pesquisas de opinião, refere-se ao tipo de esquerda que ele representa.Será a esquerda democrática, globalizada, empresarial e moderada que se mostra amigável aos EUA, como a brasileira? Ou a esquerda populista, linha-dura e nacionalista que antagoniza os Estados Unidos, como se vê na Venezuela?Funes disse representar a esquerda moderada, e afirmou que a Guerra Fria precisa acabar em El Salvador. "A comunidade empresarial não tem medo de nós e nós não temos medo dos empresários. Trabalharei para fortalecer nosso relacionamento com os Estados Unidos, fazendo deles nossos parceiros, e acho que juntos trabalharemos bem."Até 2 milhões de salvadorenhos residem nos Estados Unidos. Estima-se que as remessas de dinheiro feitas pelos salvadorenhos que moram no exterior totalizem US$ 8 bilhões anuais, o equivalente a cerca de 20% do PIB do país.O direitista Ávila diz que Funes é um fantoche que servirá aos seus verdadeiros mestres - a linha-dura da FMLN que quere fazer de El Salvador um satélite venezuelano, sob a influência do presidente Hugo Chávez. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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