Esquerdista busca votos no interior do México

Grande parte dos eleitores de López Obrador fica na capital, mais liberal que o restante do país

RODRIGO CAVALHEIRO , ENVIADO ESPECIAL / , CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2012 | 03h04

No mercado sobre trilhos que é o superlotado metrô da Cidade do México, ambulantes oferecem ruidosamente rapaduras, balas, livros, jornais e CDs de boleros. Nada disso vende tanto quanto um DVD pirata que compila - por R$ 1,50 - denúncias contra Enrique Peña Nieto, candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI) e favorito na eleição de domingo.

Os compradores são eleitores do ex-prefeito Manuel López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD), que vê sua pretensão de chegar à presidência ameaçada pela disparidade entre o apoio em seu quintal eleitoral e a rejeição fora do Distrito Federal.

Conforme a consultoria Covarrubias, Obrador teria 48% das intenções de voto na capital de 8,8 milhões de habitantes, 29 pontos à frente de Peña Nieto, que teria 16%, e mais que todos os candidatos somados. Ainda assim, perderia em todo o país por uma margem de 9 pontos. A candidata do PAN, Josefina Vásquez López, aparece com 16% na capital.

"Falta ao partido de López Obrador um tecido social que o sustente fora da capital. O problema é que os partidos de esquerda corromperam-se quando foram governo em outros", disse ao Estado o cientista político Sergio Aguayo.

López Obrador governou entre 2000 e 2005 e elegeu seu sucessor, Marcelo Ebrard. A sequência de governos de esquerda na capital mexicana levou à aprovação de projetos que favoreceram o aborto e o casamento homossexual. A reação em outros Estados, que nem mesmo tinham legislação sobre esses temas, foi marcar diferença com a capital e endurecer as leis a respeito.

Em 2006, López Obrador perdeu a eleição para Felipe Calderón, do PAN, por 0,56%, depois de chegar na última semana de campanha em vantagem na média das pesquisas. A reviravolta, considerada uma fraude por seu partido, levou López Obrador a declarar-se vencedor e fechar durante meses a principal avenida da capital mexicana. O episódio, que afetou a vida de milhares de motoristas - e fortaleceu sua imagem de radical entre milhões de outros no país -, é considerado um tiro no pé mesmo por analistas que apoiam López Obrador.

"Não acho que ele fez bem em fechar a rua. Mas acredito que, se não o fizesse, muitos da ala mais radical que o apoiavam recorreriam à violência", pondera René Jiménez Ornelas, pesquisador do Instituto de Investigações Sociais da Universidade Nacional do México (Unam).

Se as últimas pesquisas se confirmarem e Peña Nieto for eleito - o PRI tende a conseguir também maioria no Congresso - a segunda-feira será marcada também pela discussão sobre o futuro de "El Peje", como é conhecido López Obrador. Uma corrente dentro do partido defende que ele dispute novamente em 2018, citando o exemplo do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que chegou ao poder após três derrotas. Outra vertente defende sua substituição por um candidato de perfil mais moderado, que hoje seria Ebrard, seu sucessor na Cidade do México, cujo o nome chegou a ser cogitado para a disputa já nesta eleição.

"Ebrard seria o nome natural hoje, mas não é certo que ele aguente seis anos, pois já foi do PRI e carrega o DNA do partido ainda. É próximo de vários empresários", completa Jiménez.

A tendência é que no domingo a esquerda eleja novamente quem governará a Cidade do México. O ex-promotor Miguel Ángel Mancera, do PRD, tem 47% das intenções de votos, segundo o instituto Covarrubias.

Violência. Autoridades policiais encontraram ontem o corpo da prefeita de Tlacojalpan, no Estado de Veracruz. O cadáver de Marisol Mora Cuevas, do Partido Ação Nacional, tinha sinais de violência e foi coberto com propagandas de seu partido.

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