Esquerdista consolida a 'brutocracia'na Nicarágua

A "brutocracia" sandinista de Daniel Ortega passou os últimos anos desmantelando sistematicamente a democracia na Nicarágua. Agora o regime está conferindo um novo significado ao termo "ativismo judicial". Na terça-feira, dois juízes da Suprema Corte nomeados por Ortega lideraram uma manifestação violenta diante de um hotel de Manágua onde congressistas da oposição tentavam se reunir. Os legisladores tentam anular um decreto de Ortega que prorrogou ilegalmente o mandato dos juízes. Enquanto os juízes Rafael Solis e Armengol Cuadra chefiavam a turba do lado de fora do Hotel Holiday Inn, fotos da Associated Press mostravam militantes mascarados disparando projéteis e foguetes caseiros.

Análise: Jackson Diehl, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2010 | 00h00

Por mais absurdo que pareça, farsas desse tipo se tornaram cada vez mais comuns desde o retorno de Ortega à presidência da Nicarágua três anos atrás. O ex-ditador marxista é extremamente impopular; recebeu apenas 38% dos votos na última eleição. Mas, com a ajuda do seu partido sandinista, conseguiu manipular o Congresso e os tribunais para recuperar o poder. Desde então, Ortega valeu-se de fraudes e da força para fortalecer sua posição. Meses atrás, os juízes cujos mandatos ele prorrogou ilegalmente emitiram uma decisão acabando com a proibição da reeleição, o que permitiria a Ortega permanecer no cargo indefinidamente.

Nos anos 1980, a consolidação do poder de Ortega foi considerada uma grande ameaça pelo governo de Ronald Reagan, que patrocinou uma insurgência armada contra os sandinistas mesmo após uma proibição do Congresso. Agora as extravagâncias do truculento presidente passam despercebidas em Washington, onde Barack Obama tem se mostrado indiferente à difusão do autoritarismo esquerdista da Venezuela ao Equador, Bolívia e América Central.

Enquanto isto, os nicaraguenses dizem que está cada vez mais difícil apontar diferenças entre o governo Ortega de 2010 e a ditadura de décadas atrás. E não se referem aos revolucionários marxistas que tomaram o poder em 1977, mas ao ditador Anastasio Somoza, a quem Ortega combateu - e com quem ele se parece cada vez mais. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É EDITORIALISTA DO "WASHIONGTON POST"

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