Cristiano Dias / Estadão
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Esquerdista usa ‘fórmula Trump’ para se perfilar como favorito no México

Após tentar duas vezes a presidência, Manuel López Obrador chega à votação de hoje com ampla vantagem, de acordo com pesquisas eleitorais, em disputa na qual não há segundo turno; decepção com partidos tradicionais impulsiona sua candidatura

Cristiano Dias, ENVIADO ESPECIAL / CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - “Este arroz já está cozido.” Esta é a frase preferida do candidato esquerdista Andrés Manuel López Obrador para dizer que a eleição deste domingo, 1.º de julho, no México está decidida. Segundo todas as pesquisas, ele está a um passo de colocar a esquerda no poder da segunda maior economia da América Latina pela primeira vez. Para vencer, seguiu um caminho parecido com o de Donald Trump, nos EUA. O presidente americano, mesmo tendo evitado se meter na eleição, acabou sendo decisivo.

Obrador perdeu duas eleições presidenciais, em 2006 e 2012. Seus críticos diziam que ele era um radical de sangue chavista. Para esta eleição, apareceu diferente. A escritora Tatiana Clouthier, chefe de sua campanha, e o empresário Alfonso Romo refizeram sua imagem. Obrador deixou o Partido da Revolução Democrática (PRD), uma velha legenda de centro-esquerda, e fundou o Movimento da Regeneração Nacional (Morena). 

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López Obrador moderou seu discurso e fez um caminho parecido ao de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, no Brasil, Ollanta Humala, em 2011, no Peru, e Matteo Salvini, que deu uma nova cara à Liga, partido de extrema direita que este ano assumiu o poder na Itália. 

Com isso, Obrador parece ter evitado ser abatido por um fenômeno mundial: o desgaste dos partidos tradicionais. Seus principais adversários, Ricardo Anaya, do Partido da Ação Nacional (PAN), e José Antonio Meade, do governista Partido Revolucionário Institucional (PRI), aparecem cerca de 20 pontos porcentuais atrás, segundo a maioria das pesquisas. A eleição mexicana não tem segundo turno e define o presidente para um mandato de seis anos.

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Enquanto PAN e PRI, que governaram o país nos últimos 20 anos e são responsabilizados pelas piores aflições dos mexicanos, ficaram com o passivo político, Obrador conseguiu se colocar como um candidato de fora do establishment, como Trump, mesmo atuando há mais de 30 anos na vida pública.

Existem ainda outras semelhanças com o presidente americano. Durante a campanha, Obrador travou uma guerra contra o que chamou de “máfia do poder”, a elite política e econômica do México, uma linguagem muito parecida com a de Trump, que prometia “drenar o pântano” em que havia se transformado Washington. Se vencer hoje, Obrador terá o desafio de recuperar a autoestima do país. “Uma das principais características do México é que ele é afetado política e psicologicamente pelos EUA”, diz o cientista político americano Roderic Ai Camp. 

O próximo presidente herdará uma economia que cresce em câmera lenta, uma moeda que se desvaloriza rapidamente, inflação em alta e uma incômoda desigualdade. Segundo dados oficiais, 43,6% da população é pobre para os padrões locais. Nas ruas, porém, o que tira o mexicano do sério é a corrupção. E, neste assunto, o presidente Enrique Peña Nieto colaborou.

A primeira-dama, a atriz Angélica Rivera, comprou uma mansão de US$ 7 milhões de um empreiteiro do governo. Emilio Lozoya, que ajudou a conduzir a campanha de Peña Nieto, recebeu US$ 10,5 milhões da Odebrecht, que teriam sido usados na eleição de 2012. “Nunca imaginei que fosse votar em López Obrador. Mas, diante dos outros candidatos, não vejo saída”, disse María Dulce Rodríguez, vendedora de flores de Coyoacán, na zona sul da Cidade do México. 

Indignação parecida à de Uriel González, que carrega 50 quilos de coco em uma bicicleta para vender nas ruas da capital. “Se pudesse, nem votaria”, afirmou. “Mas gostaria que alguma coisa mudasse e talvez Obrador seja mesmo a melhor opção.”

O que ainda deixa muita gente desconfiada é o tom messiânico e personalista de Obrador. Promete cortar salários de assessores, ministros e até dele mesmo. Obrador garante também que não morará em Los Pinos, palácio presidencial, e transformará a área em parque público. A frota de aviões e de helicópteros do governo, ele pretende vender. “Vamos nos livrar do luxo”, diz.

Alguns críticos desenterram episódios grotescos do passado para não deixar a imagem de extremista morrer. Em 1995, por exemplo, ele liderou uma campanha para que a população de Tabasco, seu Estado natal, parasse de pagar a conta de luz, que era abusiva, segundo ele. Ou ameaças recentes, como a promessa de suspender a construção do novo aeroporto internacional da Cidade do México, que custará US$ 13,3 bilhões.

Sua campanha assegura que ele não quer dizer bem o que diz, uma versão mexicana do que fazem os aliados de Trump, que pedem para os americanos não interpretarem o presidente literalmente. Os responsáveis por sua campanha exploraram o lado pragmático de Obrador e seu alto índice de aprovação como prefeito da Cidade do México, entre 2000 e 2005. Também dão garantias de que manterá disciplina fiscal, a independência do Banco Central, de que não mexerá na carga tributária e, se possível, manterá o Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), renegociado com EUA e Canadá.

Em Washington, Obrador é detestado. “Não seria bom para os EUA nem para o México”, disse John Kelly, chefe de gabinete da Casa Branca, sobre a eventual vitória de Obrador. Curiosamente, Trump se manteve discreto. O presidente, que deu pitaco nas eleições alemãs, foi vago na única vez que comentou o assunto. “Dizem que há bons candidatos, e outros nem tanto.”

“É possível que Trump enxergue em Obrador uma alma gêmea que está fazendo o que ele fez nos EUA: combatendo o establishment e a classe política corrupta, colocando os interesses de seu país em primeiro lugar”, disse Juan Carlos Hidalgo, analista do Instituto Cato. “Isso poderia dar pouca margem a surpresas na relação com os EUA.” 

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