'Esse é um conflito em que todos perdem'

Para especialista sueco, na crise ucraniana, Moscou está apenas respondendo ao que vê como uma ameaça

RENATA TRANCHES , O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 02h01

Em 1998, Jan Oberg, fundador da Transnational Foundation for Peace and Future Research, em Lund (Suécia), escreveu 46 argumentos contra a expansão da Otan, que poderia levar a uma crise como a que vemos hoje na Ucrânia. Em entrevista ao Estado, ele explicou que a aliança não se justifica e a Rússia a vê como uma ameaça em sua vizinhança.

O sr. acertou a previsão?

Quando eu era um jovem estudante, um oficial da Otan me explicou que a aliança existia em resposta ao Pacto de Varsóvia e à União Soviética. Mas essas duas coisas desapareceram e a Otan, ao contrário, foi expandida. Hoje, ela está presente em todos os lugares, incluindo países vizinhos da Rússia. A Ucrânia não é um membro da Otan e nem é elegível. Mas hoje há pessoas atuando para mudar o sistema político em Kiev. Se algo desse tipo estivesse ocorrendo, por exemplo, no México ou no Canadá, os EUA estariam furiosos.

Quem é o responsável pelo conflito?

O principal responsável por termos um grande conflito como esse na Ucrânia são as potências do Ocidente e não a Rússia. Moscou está simplesmente respondendo a essa ação provocativa de expansão da Otan perto de suas fronteiras.

Podemos chamar essa crise de uma nova Guerra Fria?

Sim, é uma nova Guerra Fria. Mas há diferença significativa se comparada com a primeira no que diz respeito ao armamento. É um desequilíbrio de forças. Nos tempos da velha Guerra Fria, a União Soviética era muito forte. Hoje, os gastos militares russos são de menos de 10% dos da Otan. Temos aqui um conflito assimétrico. Na antiga Guerra Fria, havia uma certa simetria.

Quem está vencendo?

Esse é um conflito em que todos perdem. Até mesmo Vladimir Putin está perdendo muito. Ele mandou tropas e blindados para a Ucrânia. Isso é ruim para o mundo. Ele teve de fazer isso porque está sob uma grande pressão para responder às demandas nacionalistas em Moscou. Se ele não fizer algo para mostrar seu apoio aos russos étnicos na Ucrânia, que estão sendo atacados com a ajuda dos americanos, pode enfrentar problemas em casa.

E os países europeus e os EUA? O Ocidente começou esse conflito e não tem feito nada construtivo para diminuí-lo. Apenas continua agravando as tensões, usando uma linguagem muito autoritária, culpando Putin por tudo. Se a Otan for à frente e a Rússia se sentir ameaçada e colocar mais armas e soldados na Ucrânia, podemos ter um cenário com militares russos e europeus lutando frente a frente. Isso é o que sempre tentamos evitar desde a Guerra Fria.

Como o senhor vê o papel da ONU nesse conflito?

Deveríamos ter depositado um pouco mais de confiança na ONU e não nos EUA e na Europa. Ela poderia ter chamado suas forças de paz, mediado as negociações. Enquanto as pessoas ficarem se matando e a Otan prometendo instalar novas bases na região, isso poderá sair de controle para um cenário que nenhum de nós gostaria de ver.

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