Esse velho e conhecido discurso

Fala de Obama na terça-feira sobre o Estado da União é praticamente igual à dos antecessores: uma lista de desejos

DOYLE MCMANUS, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

Se cada desejo de um presidente, expressado no seu Discurso sobre o Estado da União, se tornasse realidade, estaríamos vivendo num país muito diferente.

Assim, graças a Richard Nixon, não precisaríamos mais importar petróleo estrangeiro. Graças a Ronald Reagan, teríamos um governo federal menos influente na economia e um orçamento equilibrado. George W. Bush teria resolvido o dilema da imigração ilegal anos atrás.

E graças a Barack Obama vamos ter um boom econômico, criar setores verdes e um sistema de ensino que até a China invejará.

Mas os discursos sobre o Estado da União são exatamente isto: listas de desejos. Nenhum presidente consegue tudo o que deseja, mesmo quando seu próprio partido controla o Congresso. Basta perguntar a Obama.

Houve uma consistência formidável nesta mensagem do presidente, expondo sua agenda anual para o Congresso. Basicamente, Obama tem proferido o mesmo discurso há três anos consecutivos. A principal diferença é que, desta vez, como sua sorte política mudou, ele foi obrigado a reduzir suas ambições.

Em 2009, quando do discurso inaugural ao Congresso, Obama prometeu que seu programa de estímulo de US$ 787 bilhões provocaria uma reviravolta na economia, apelou aos legisladores para aprovarem o projeto de lei de reforma da saúde, depois tratou de questões ligadas à energia e educação. Em 2010, no primeiro discurso oficial sobre o Estado da União, ele lamentou que o pacote de estímulo não surtira efeito mais rápido, mas disse esperar que a lei de reforma da saúde fosse aprovada pelo Congresso para, então, ele se dedicar às questões energética e educacional.

Na noite de terça-feira, Obama declarou que o estímulo finalmente estava tendo resultado; prometeu defender sua lei de reforma da saúde frente aos republicanos que querem revogá-la; e buscar uma maneira de levar adiante, com um orçamento menor, projetos nas duas áreas que considera cruciais para o futuro econômico do país: energia e educação.

E quanto à questão fiscal, peça central do seu discurso: um congelamento das despesas domésticas? Se isso soou familiar é porque esta é uma versão ultrapassada de uma proposta apresentada no discurso do ano passado que, como muitas outras, não se tornou realidade.

Fala-se muito em Washington que Obama tornou-se um centrista, mas a julgar pelo discurso de terça-feira, ele não mudou. As metas do presidente são as mesmas, mas não as realidades políticas que o forçaram a reformulá-las um pouco. Muitos dos seus planos para atingir esses objetivos são as mesmos.

Bipartidarismo. Como os democratas não são mais maioria na Câmara, não surpreendeu o fato de que o discurso de terça-feira incluiu um apelo lírico ao bipartidarismo. O chamado à união por Obama foi deliberadamente uma repetição do seu hino de louvor a "uma única América", em 2004, que atraiu para ele a atenção nacional.

"Somos parte da família americana", disse ele na terça-feira. "Acreditamos num país onde todas as raças, crenças e opiniões podem ser encontradas...partilhamos esperanças e uma crença comum. "É isso que nos diferencia como nação", disse ele.

Mas, além dos apelos ao bipartidarismo, um tema recorrente deixou claros os fortes contrastes entre os dois partidos - um tema sobre o qual Obama pretende fazer pressão nos próximos meses para conseguir os votos republicanos.

O presidente formulou uma crítica direta aos planos republicanos de cortes profundos nos gastos federais. "Reduzir o déficit cortando nossos investimentos em inovação e educação é como aliviar o peso de um avião superlotado removendo seu motor", ele afirmou.

O assessor econômico do presidente, Gene Sperling, também falou a respeito, mas de maneira ainda mais dura, num encontro com jornalistas na Casa Branca: "Cortar gastos de maneira tão drástica no geral não é, em si, uma estratégia econômica", disse.

A mensagem que Obama quer enviar é esta: ele tem uma estratégia positiva para o crescimento e a competitividade no longo prazo e está otimista de que os EUA se mostrarão à altura da situação. "Este é o nosso momento Sputnik", afirmou.

E os republicanos? Para o presidente, são um punhado de burocratas de viseira querendo cortar verbas".

Prudentemente, Obama absteve-se de fornecer detalhes sobre como os gastos federais podem ser cortados, mas assessores seus afirmaram que ele deve propor alguns cortes no orçamento que vai apresentar em três semanas. Se os republicanos desejarem cortes mais profundos em programas que os americanos aprovam, é problema deles, disseram os assessores.

Os discursos sobre o Estado da União raramente são memoráveis, e este não foi exceção. Mas o objetivo foi que ele se inscrevesse como parte de uma campanha muito mais longa, que tomou forma na última sessão do Congresso da qual participaram parlamentares de saída, com seu repentino acordo bipartidário no campos dos impostos, que ganhou força com o discurso de Obama em Tucson e agora continuará nos próximos meses, quando o presidente desafiar os republicanos a apresentarem alternativas concretas para suas propostas.

Se essa campanha, mantida durante os próximos meses, conseguir transformar Obama de presidente de um único mandato, passível de ser derrotado, num candidato favorito a uma reeleição, ela será memorável. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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