Está na hora de a ''revolução'' virar ''evolução''

Quando estive no Cairo, durante o levante egípcio, quis mudar de hotel e telefonei à rede Marriott para saber se havia quartos disponíveis. A egípcia de voz jovem que me atendeu perguntou: "O sr. tem acesso a tarifas especiais para empresas?" Respondi: "Não sei. Trabalho para o New York Times". Houve um silêncio do outro lado da linha e, depois, ela disse: "Posso lhe perguntar uma coisa? O sr. ficará bem? Estou preocupada".

Thomas Friedman, The New Tork Times, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2011 | 00h00

Tomei nota mentalmente da conversação, pois a moça soava como o tipo da jovem que estaria na Praça Tahrir. Agora começamos a ver o que a preocupava - no Egito e em outros países.

Vamos começar pela estrutura do Estado árabe. Lembram da onda democratizante na Europa em 1989? Lá, praticamente todos os países eram como a Alemanha, uma nação homogênea, à exceção da Iugoslávia. O mundo árabe é o oposto. Ali, praticamente todos os países são como a Iugoslávia - à exceção de Egito, Tunísia e Marrocos.

O que significa que, na Europa, quando a mão de ferro do comunismo sumiu, os principais países em grande parte homogêneos conseguiram avançar de maneira relativamente rápida e estável para uma maior autodeterminação - salvo a Iugoslávia, país multiétnico e multirreligioso que explodiu em várias partes.

No mundo árabe, quase todos os países são montagens semelhantes à Iugoslávia, com grupos étnicos e tribais, desenhados por potências coloniais - com exceção de Egito, Tunísia e Marrocos. Portanto, quando os problemas ocultos começam a aflorar nessas nações, o que eles podem provocar não são sociedades civis, mas guerras civis.

Assim, é possível dizer que as revoluções árabes em nome da democracia, até certo ponto pacíficas, tenham se encerrado. Na Tunísia e no Egito, a sociedade uniu-se como uma família e derrubou o "paizão" maligno - o ditador. Agora, devemos esperar "evoluções" árabes ou teremos guerras civis árabes.

Os países com maior possibilidade de evoluir são o Marrocos e a Jordânia, onde há reis respeitados que, se assim escolherem, podem liderar transições gradativas a uma monarquia constitucional. Síria, Líbia, Iêmen e Bahrein, países fraturados por divisões tribais, étnicas e religiosas, teriam sido ideais para a evolução gradual para a democracia, mas agora provavelmente é tarde demais. O instinto inicial dos seus líderes foi esmagar os manifestantes, com enorme derramamento de sangue. Nesses países, conflitos civis podem facilmente acabar com as esperanças democráticas.

O que pode impedir que isso aconteça? Uma liderança extraordinária que reitere a necessidade de enterrar o passado e não se deixe enterrar por ele. O mundo árabe precisa desesperadamente de suas versões de Nelson Mandela e F.W. de Klerk, da África do Sul - gigantes de comunidades opostas que se elevem acima dos ódios tribais e forjem um novo acordo social. O público árabe nos surpreendeu de maneira heroica. Agora é preciso que alguns líderes nos surpreendam com sua bravura e visão, qualidades que faltam há muito tempo.

Outra opção é o ingresso de uma potência externa - como fizeram os EUA no Iraque e a União Europeia na Europa Oriental - para arbitrar ou preparar a transição democrática. Mas não vejo ninguém se candidatar a esse cargo.

Na ausência de tais alternativas, o que há é o que vemos: autocratas da Síria, Iêmen, Líbia e Bahrein atirando nos rebeldes segundo a lógica tribal "governar ou morrer". Enquanto isso, a Arábia Saudita, que é 90% sunita e 10% xiita, deixou claro que se oporá a uma evolução para a monarquia constitucional no vizinho Bahrein, onde uma minoria sunita governa uma maioria xiita. Riad não tem tradição de pluralismo.

A evolução é difícil no Egito. O Exército que supervisiona o processo acaba de pôr na cadeia um conhecido blogueiro liberal, Maikel Nabil, por "insultar os militares".

Eu ainda acredito que esse movimento árabe pela democracia era inevitável, necessário, fruto de uma profunda e autêntica busca por liberdade, dignidade e justiça. Mas sem uma liderança extraordinária, a transição será muito mais árdua do que na Europa Oriental.

Rezemos pelas Alemanhas. Esperemos por novas Áfricas do Sul. Preparemo-nos para novas "Iugoslávias". / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA E ESCRITOR

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