Juan Mabromata / AFP
Juan Mabromata / AFP

Está solteiro e é kirchnerista? Tinder K te ajuda a encontrar um parceiro peronista

Grupos fechados do Facebook tentam unir pessoas com ideologias políticas parecidas e têm somente as seguintes exigências: ser solteiro, peronista e kirchnerista

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2019 | 11h53

BUENOS AIRES - Quando se fala de amor, dizem que os opostos se atraem, mas não parece ser o caso de muitos argentinos que estão no Tinder K, grupos fechados do Facebook com a seguinte exigência: ser solteiro, peronista kirchnerista.

Os membros do Tinder K, que já somam mais de 11 mil pessoas, deram início aos grupos após um fim dos 12 anos de governos kirchneristas (2003 a 2015), depois da vitória nas últimas eleições do presidente liberal Mauricio Macri. Com isso, também se aprofundou a “grieta”, como a Argentina chama a divisão política entre macristas e kirchneristas.

O fenômeno não é novo: nos Estados Unidos, existem aplicativos para os seguidores do presidente Donald Trump (como o #donalddaters e o TrumpSingles) e para os partidários do Partido Democrata (como o #Liberalhearts).

Aos poucos a ideia vem chegando à América Latina. Uma advogada brasileira anunciou a criação do PTTinder, com o objetivo de unir homens e mulheres apoiadores do PT e apoiar o ex-presidente Lula, preso desde 7 de abril de 2018.

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Nichos políticos

Apesar do movimento, especialistas alertam que esses “nichos políticos” que aparecem nas redes sociais podem ser perigosos.

“A troca de ideias é essencial para uma democracia e os aplicativos de encontros com preconceito ideológico limitam as chances de encontrar um parceiro que não valide seu pensamento”, diz Chelsea Reynolds, da Universidade de Comunicação de Fullerton, na Califórnia.

“Há duas décadas, era possível namorar alguém na universidade mesmo que as visões políticas não fossem as mesmas, (...) hoje é quase impossível”, acrescenta.

De acordo com especialistas, este é um fenômeno provocado pelas redes sociais que colocam as pessoas em “casulos” de acordo com suas crenças e ideologias.

“Toda tecnologia tenta criar nichos com denominadores comuns nas ideologias”, explica Carlos Fara, consultor político argentino e especialista em opinião pública e campanhas eleitorais. “Esses nichos encorajam as posições mais extremistas.”

O amor K

“Não poderia ter um companheiro que não tivesse a mesma convicção política que eu, a Cámpora” (grupo político marcado pela orientação peronista e kirchnerista), afirma Estefanía, de 35 anos. “Nós (os argentinos) somos atravessados pela política”, ressalta. “A família não se escolhe, mas o companheiro tem que pensar politicamente igual."

Estefanía faz parte de três grupos do Tinder K no Facebook, mas há um em especial do qual participa ativamente. Foi assim que conheceu seu namorado que mora em Buenos Aires. “Faz dois anos”, conta a mulher que vive na Província de Chubut.

O segredo para entrar nos grupos é ser solteiro. Há festas com fins beneficentes, jogos virtuais e debates públicos sobre assuntos sociais. É assim que se formaram “vários casais”. “Em 2018, um deles se casou”, disse.

Resistir aos anos do macrismo

Os grupos - que não têm fins lucrativos - também são uma forma de “resistir aos quatro anos do macrismo”.

A menos que haja um “tsunami” eleitoral, a Argentina voltará a ser peronista quando Alberto Fernández (provavelmente) se tornar presidente, ao lado da vice Cristina Kirchner, nas eleições de 27 de outubro.

Macri vive um fim de mandato angustiante com inflação em alta (30% até agosto) e aumento da pobreza, que alcançou 35,4% no primeiro semestre de 2019.

A maioria dos membros do Tinder K se inspira no modelo de casal Néstor e Cristina, que foram casados por 35 anos até a morte do ex-presidente em 2010.

“O amor deles é referência. Vejo fotos e vídeos de como se olhavam, de como ele a admirava”, afirma Estefanía.

Sem garantia de sucesso

Mas ser kirchnerista não é garantia de sucesso. Na verdade, os diferentes Tinder K já disputam espaço entre si. O mais antigo, criado um mês depois do triunfo de Macri em 2015, se define como o que tem “a maior quantidade de integrantes” (mais de 6 mil). 

Para Omar San, a ideia era clara quando ele criou o grupo. “Os ânimos estavam muito na linha River Plate contra Boca Juniors. Tinha que fazer alguma coisa”, conta ele em alusão aos clubes rivais no futebol.

De qualquer forma, San defende: “Encontramos um companheiro kirchnerista para você, mas não garantimos que isso funcione depois”. / AFP

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