Jens Butner/AFP
Jens Butner/AFP

Estabilidade deve selar reeleição de Merkel

Bom momento econômico e guinada ao centro do espectro político fortalecem chanceler alemã, que pode formar coalizão sem a esquerda

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2017 | 05h00

Há um lugar no Ocidente em que o “desejo de mudança” na política está longe de ser majoritário: a Alemanha. A três semanas das eleições legislativas que vão definir o primeiro-ministro, a chanceler Angela Merkel, no poder desde novembro de 2005, tem 17 pontos de vantagem sobre o social-democrata Martin Schulz, e existe a chance de ela formar governo sem o Partido Social-Democrata (SPD), com o qual governa há quatro anos. 

Atual chanceler pelo Partido Democrata-Cristão (CDU), Merkel é a favorita segundo as intenções de voto e se prepara para igualar o feito de Helmut Kohl, o mais longevo chefe de governo da história contemporânea do país, com 16 anos de poder. 

Schulz, ex-presidente do Parlamento Europeu, chegou a estar em empate técnico com a chanceler nos primeiros dias de sua liderança à frente do Partido Social-Democrata. Hoje, porém, pesquisas de opinião indicam que a líder do CDU teria entre 37% e 40% dos votos, uma ampla vantagem diante de seu rival de centro-esquerda, que teria entre 23% e 25% das preferências.

Caso os prognósticos se confirmem, Merkel poderá escolher entre o apoio do Partido Liberal-Democrata (FPD) e os Verdes, que reúnem entre 8% e 10% das intenções de votos, o que faria com que, na prática, Merkel descarte a atual coalizão com o SPD e escolha um novo aliado.

Parte da força política da chanceler, que resiste ao desgaste do poder e ainda vende o slogan de uma Alemanha “em que é bom viver”, foi seu recente reposicionamento político em direção ao centro, que roubou espaço e argumentos dos social-democratas. 

Com esse posicionamento a líder alemã também isolou a extrema direita, que fará sua entrada no Parlamento com o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), xenofóbico, nacionalista e anti-União Europeia. 

Para o jornal conservador alemão Die Welt, a explicação do provável sucesso eleitoral de Angela Merkel é que o país não experimenta nenhum desejo de mudança. “Os alemães vão bem demais para que uma real insatisfação em relação ao governo se desenvolva”, afirmou a publicação em editorial publicado na semana passada.

Para analistas políticos alemães ouvidos pelo Estado, a campanha eleitoral vazia, sem verdadeiro debate sobre temas como a precariedade no emprego vivida por 7,6 milhões de trabalhadores, ou ainda a questão migratória, também facilita a tarefa da chanceler, que não precisa nem mesmo defender o balanço de seu governo.

"O verdadeiro tema da campanha é a estabilidade em um mundo incerto, com os desafios europeus e mundiais”, diz Heinrich Oberreuter, cientista político da Universidade de Passau. “Merkel representa essa estabilidade política e econômica.”

Com a vantagem nas pesquisas, o grande suspense eleitoral é com que partido formará a coalizão – o que influencia nos rumos de seu futuro governo, assim como grandes questões estratégicas, como a reforma da União Europeia.

“A questão é se haverá uma maioria do seu partido e dos liberais, ou uma nova grande coalizão com os social-democratas”, explica o cientista político Stefan Seidendorf, diretor-adjunto do Instituto Franco-Alemão de Ludwigsburg. “Quem vota em Merkel acha que a Alemanha vai bem nos últimos cinco ou oito anos. O desemprego está em baixa, a renda e os impostos estão sob controle. Além disso, quem mais enfrenta dificuldades com frequência não vai votar.”

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