Jacques Gilbert/Arquivo pessoal
O capitão aposentado e prefeito de Apex, Carolina do Norte, Jacques Gilbert Jacques Gilbert/Arquivo pessoal

Estadão promove debate sobre a questão racial no Brasil e nos EUA; assista ao vivo

Feito em parceria com a Embaixada e os Consulados dos Estados Unidos, evento 'Diálogos Brasil-EUA: a questão racial em debate' reúne especialistas com experiência no mercado, academia, administração pública e terceiro setor

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 08h30
Atualizado 25 de fevereiro de 2021 | 17h23

O Estadão promove nesta quinta-feira, 25, em parceria com a Embaixada e os Consulados dos Estados Unidos, o evento digital "Diálogos Brasil-EUA: a questão racial em debate", um projeto para marcar o Black History Month (Mês da História Negra). O evento - que será transmitido a partir das 10h30 - reúne profissionais brasileiros e americanos com experiências diversas no mercado, academia, administração pública e terceiro setor, que debaterão sobre ações afirmativas e de inclusão de pessoas negras no mercado de trabalho.

O primeiro painel debateu como o s movimentos antirracistas que emergiram após as mortes de George Floyd - em Minneapolis - e João Alberto - em Porto Alegre - em 2020 podem ser o estopim para a ressignificação das políticas afirmativas raciais no Brasil e Estados Unidos. O painel teve como tema "Políticas afirmativas e cotas. O que está em questão?", reuniu Jacques Gilbert, prefeito da cidade de Apex, na Carolina do Norte. Gilbert atuou como policial por décadas, alcançando a patente de capitão, antes de se eleger prefeito. Ele é considerado um expoente nos debates sobre direitos civis nos Estados Unidos.

O segundo painel, marcado para as 14h30, terá como tema "Inclusão no mercado de trabalho. Estamos no caminho?". O debate terá participação de Shirley J. Wilcher, especialista em igualdade de oportunidades, ação afirmativa e política de diversidade. Atual diretora executiva da Associação Americana para Acesso, Equidade e Diversidade (AAAED), Shirley também é presidente e CEO do Fundo para Liderança, Equidade, Acesso e Diversidade (Fundo LEAD). Ela atuou no conselho de diretores da Wider Opportunities for Women e no Conselho Consultivo Editorial da Insight into Diversity.

Também estão confirmados no painel Ricardo Sales, consultor de diversidade e pesquisador na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), eleito em 2017 um dos brasileiros mais influentes no tema diversidade nas organizações pela Out&Equal, e Rachel Maia, profissional com 30 anos de experiência nos mercados de luxo e varejo, tendo passado por companhias como Cia’s Seven Eleven, Tiffany & Co Joalheria, Pandora e Lacoste Brasil, onde foi a CEO responsável pela expansão da marca no Brasil. Atualmente ocupa a cadeira de presidente do Conselho Consultivo da UNICEF Brasil.

Em entrevista ao Estadão, Gilbert defendeu uma mudança de cultura na polícia americana e criticou a "perspectiva de nós contra eles" estimulada no ambiente policial. "Ao lidar com pessoas, independentemente de classe social ou qualquer outra característica, policiais precisam entender que estão lidando com uma mãe, um pai, um filho. É dessa forma que eles deveriam abordar qualquer chamado", afirmou o prefeito, que também é fundador da  Blue Lights College, academia preparatória que oferece a policiais e aspirantes módulos sobre resolução de conflitos, diversidade cultural e policiamento de comunidades.

"Nossa ideia é treinar uma nova geração - essa é uma palavra-chave - de policiais que saibam abordar conflitos com compaixão", disse Gilbert.

Os debates serão transmitidos pelo YouTube da TV Estadão, além de Facebook, Twitter e Linkedin. E também podem ser acompanhados pelo site Congress.me - para participar e fazer perguntas pelo chat da plataforma, é necessário fazer inscrição.

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Manifestações antirracistas podem impulsionar políticas afirmativas e reduzir desigualdades

Especialistas veem reações às mortes de George Floyd e João Alberto como pontos de virada no pensamento sobre políticas raciais nos dois países

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 13h01

Os movimentos antirracistas que emergiram após as mortes de George Floyd - em Minneapolis - e João Alberto - em Porto Alegre - em 2020 podem ser o estopim para a ressignificação das políticas afirmativas raciais no Brasil e Estados Unidos, de acordo com os especialistas que participaram do "Diálogos Brasil-EUA: a questão racial em debate", evento promovido em parceria pelo Estadão e pela Embaixada e os consulados dos EUA.

O primeiro painel do evento, que teve como tema "Políticas afirmativas e cotas. O que está em questão?", reuniu Jacques Gilbert, prefeito da cidade de Apex, na Carolina do Norte, Helio Santos, fundador do Instituto Brasileiro da Diversidade, e José Vicente, fundador e reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares.

Os três debatedores apontaram que o movimento "Black Lives Matter" ("Vidas Negras Importam", no Brasil), iniciado nos Estados Unidos, conseguiu reunir negros e brancos em torno de um mesmo objetivo de oposição ao racismo e na luta pela igualdade, o que pode levar a uma valorização das políticas afirmativas, como de cotas.

Jacques Gilbert lamentou a morte de George Floyd, mas admitiu que seu impacto dentro e fora dos EUA marcam um momento importante, em que a sociedade conseguiu se mobilizar contra um problema que era recorrente, mesmo sendo injusto e errado. 

"(As pessoas viram) A maneira como estavam ignorando o problema, como pessoas estavam sendo tratadas... Infelizmente alguém teve que perder a vida. (...) Foi o início de algo que imagino ser uma mudança verdadeira nos EUA", disse.

A morte de Floyd também teve impacto no Brasil, segundo o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente. O reitor relembrou que os eventos se espalharam por todo o mundo, reunindo inclusive atletas e celebridades. Vicente apontou que, no Brasil, o caso João Alberto - morto por seguranças em um supermercado no Rio Grande do Sul - pode ser considerado como "o caso George Floyd brasileiro".

"(Todo o movimento) Resultou em uma compreensão mais clara e definida dos formadores de opinião e da sociedade que esse país não serve nem para os negro e nem para os brancos. É um país que desrespeita, agride e hostiliza as pessoas. Que não permite que negros e brancos possam explorar o melhor de seu potencial e que mantém um desequilíbrio brutal que separa as pessoas e não permite o mínimo que se pressupõe de uma democracia, que é competir por direitos iguais", analisou.

O poder transformador e mobilizador dos casos mais emblemáticos também foi destacado pelo economista Helio Santos, que apontou que a mudança na sociedade brasileira cobra um preço muito mais alto em vidas do que alguns poucos casos. "Nosso diálogo hoje vai durar cerca de 60 minutos. Nesse período, 3 jovens (negros) na faixa de 15 a 29 anos morrerão a bala. São 63 por dia. Cerca de 23 mil por ano", disse. "Eu penso que essa sangria começa a mudar algo. Finalmente entendemos o seguinte: Se etnia e raça foram utilizadas para excluir, devem ser utilizadas como critério para incluir".

Desigualdades desiguais

Durante o debate, os especialistas brasileiros também apontaram aspectos que diferenciam o racismo identificado nos dois países. Ambos afirmaram ver um fosso  de desigualdade maior no Brasil, amplificado por razões que vão desde a colonização até ao tamanho da população negra no País.

"São 500 e poucos anos de História do nosso país, 400 anos de escravidão, 130 anos da abolição da escravatura e a primeira construção legal de ações afirmativas para incluir negros em ambientes importantes, sobretudo na educação e serviço público está completando 10 anos no ano que vem. Só isso já seria suficiente para a gente perceber o tamanho do fosso", disse José Vicente. 

"A Howard University, onde se formou a vice-presidente Kamala Harris, foi fundada em 1867, para que os negros pudessem se formar em medicina e teologia. Então quando os negros brasileiros ainda estavam escravizados, os negros americanos estavam recebendo seus primeiros diplomas", afirmou. E completou: "Isso é uma medida afirmativa de mais de 100 anos atrás. Ela (a instituição) e outras 130 universidades foram ações afirmativas do governo americano."

Mesmo mencionando diferenças como a quantidade de pessoas escravizadas trazidas ao Brasil, o tamanho da população negra do País e as diferenças coloniais de ibéricos e anglo-saxões, Helio Santos recordou a importância dos diálogos entre os dois países: "O legado de Martin Luther King, que motiva esse encontro, tem como essencia a igualdade racial."

Assista ao debate completo:

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'Futuro da democracia nos EUA vai depender de abraçarmos a diversidade', diz Shirley Wilcher

Para especialista americana, é imperativo ajudar a preparar e treinar as próximas gerações de modo que os não brancos se tornem líderes

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 17h09

Os Estados Unidos passarão a ser, a partir de 2023 ou 2024, um país de maioria não branca, de acordo com dados do Censo americano. As informações são citadas pela especialista em igualdade e diversidade Shirley J. Wilcher, para quem é imperativo ajudar a preparar e treinar as próximas gerações de modo que os não brancos se tornem líderes. Entre o que está em jogo, Wilcher elenca a futuro da democracia nos EUA. 

"Agora em 2011, 50,7% de todos os bebês nascidos nos Estados Unidos eram negros, latinos ou asiáticos. Isso já pode ser observado em qualquer jardim de infância. Então, nosso país vai abraçar essa diversidade ou fugir dela? Essa é uma questão muito importante", afirmou.

"Queremos poder ajudar a preparar e treinar as próximas gerações de líderes. Garantir que todos possam ser líderes. O futuro da nossa democracia nos EUA vai depender de abraçarmos a diversidade em todas as suas facetas, tanto no mercado de trabalho, quanto na educação, na saúde, na moradia e tudo mais", acrescentou.

Wilcher – diretora executiva da Associação Americana para Acesso, Equidade e Diversidade (AAAED) e presidente e CEO do Fundo para Liderança, Equidade, Acesso e Diversidade (Fundo LEAD) – participou do evento digital Diálogos Brasil-EUA: a questão racial em debate, um projeto para marcar o Black History Month (Mês da História Negra), promovido nesta quinta-feira, 25, pelo Estadão em parceria com a Embaixada e os Consulados dos Estados Unidos.

O painel com o tema "Inclusão no mercado de trabalho. Estamos no caminho?" contou ainda com a participação de Rachel Maia, presidente do Conselho Consultivo da UNICEF Brasil, e Ricardo Sales, consultor de diversidade e pesquisador na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). O encontro foi mediado pelo repórter do Estadão Gonçalo Junior.

Os painelistas afirmaram que o ano de 2020 foi um ponto de inflexão no qual a pauta da diversidade e igualdade ganhou protagonismo no meio empresarial, em grande parte devido à onda de protestos após o assassinato de George Floyd e devido ao fato de que as populações negras foram desproporcionalmente mais atingidas pela pandemia em números de casos e de mortes.

"Que a gente aproveite esse ano de inflexão para acelerar as transformações de que a gente precisa", defendeu Salles. Ele apontou que, embora o meio empresarial tenha feito grandes investimentos para avançar na questão, os esforços foram feitos nas matrizes e, muitas vezes, não chegaram às filiais no Brasil. 

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

"Somos uma sociedade marcadamente racista e discriminatória", disse. "Várias empresas têm mais de 50% dos funcionários negros. Mas onde estão essas pessoas? Muitas vezes, na base dos trabalhos, não nos postos onde as decisões são tomadas. Quando a gente olha para as 500 maiores empresas, segundo o Instituto Ethos, só há 4,7% de negros nas posições de lideranças. Se a gente olha com uma análise interseccional (que sobrepõe várias relações de discriminação, como a de gênero), esse número chega a 0,4%", afirmou.

Sales também refutou um argumento frequentemente difundido pelas empresas que não estão dispostas a se esforçar em função da igualdade – o de que não haveria pessoas negras qualificados no mercado. "Hoje, nas universidades públicas brasileiras, os negros são maioria. Isso desde o ano de 2019. Então dizer que não existem negros e negras capacitados é passar recibo de desinformado", argumentou.

O pesquisador ainda discorreu sobre a questão da negação do problema racial no Brasil. "As pessoas no Brasil tem uma tendência a dizer que não temos um problema social, nós temos um problema de classe. É uma falácia", afirmou, reiterando que o País possui os dois problemas que, como eles estão relacionados, acabam se potencializando.

"Se fosse apenas uma questão de classe e não de raça, uma pessoa negra que ascende socialmente deixaria magicamente de sofrer preconceito. Isso não só não acontece, como muitas vezes ele (o racismo) é potencializado. Porque a pessoa negra que ascende socialmente vai passar a frequentar os restaurantes da elite, morar em um bairro mais elitizado, chegar no avião e virar à esquerda para ir para a classe executiva e está sujeita a situações de racismo de uma forma muito mais intensa", explicou.

Sobre a implementação de mudanças no meio empresarial, Maia afirmou que vê três tipos de companhias: aquelas que correm riscos para tentar precipitar as mudanças, as que "andam lateralmente" e as que fecham as portas e se comportam como sempre se comportaram. 

"É urgente que as empresas entendam que a forma que se atraia talentos até ontem não é mais a mesma forma que se vai atrair novos talentos para se compor a sua pluralidade", explicou. "Se deixarmos da forma natural, é claro que vai ser lento (o progresso). Mas tem um povo negro sedento (por mudanças)", disse. 

Na visão de Wilcher, é necessário usar todos os meios – sejam de organização de movimentos, de litígio na Justiça e de ações do governo – para avançar a pauta. Ela afirmou que é comum encontrar resistência quando há progresso e citou o fato de que muitas universidades americanas questionaram juridicamente a implementação de ações afirmativas no ensino superior. "Vimos, inclusive, decretos presidenciais que impediam programas de diversidade", mencionou, sobre a gestão do ex-presidente americano Donald Trump.

A especialista também aventou a possibilidade de as mudanças demográficas dos EUA estarem por trás de algumas das atividades violentas recentes de supremacistas. "As pessoas têm medo de perder essa maioria", destacou.

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