AP Photo/Paulo Duarte
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Artigo: Estadista, europeísta e amigo do Brasil

Apaixonado e apaixonante, Soares nunca deixou de ser jovem na forma como combatia por seus ideais e um futuro melhor

João Cravinho* / Especial , O Estado de S. Paulo

11 Janeiro 2017 | 05h00

A morte de Mário Soares representa um marco na história do meu país. Sempre desconfiei daquela opinião que diz que os líderes de hoje em nada se comparam aos grandes estadistas do passado. E depois nos aparece pela frente uma figura como Mário Soares que nos obriga a pensar: há homens que fazem uma enorme diferença para a vida do seu país. No século 20 português é ele e Salazar que se destacam, com larga vantagem moral e material para o legado deixado por Soares.

Apaixonado e apaixonante, Soares nunca deixou de ser jovem na forma como combatia por seus ideais. Ele gostava de contar como seu primeiro confronto direto com a realpolitik se deu em maio de 1945, quando, acompanhado por vários colegas universitários, marchou até a Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa com uma exigência: derrotada a Alemanha de Hitler, era agora a vez de derrubar a ditadura de Salazar. Foi com estupefação que ouviram o embaixador dizer que isso não constava dos planos de Washington.

Décadas mais tarde, depois de fundar o Partido Socialista, e dominar o cenário político da nova democracia portuguesa, Soares foi acusado de cinismo político e de “colocar o socialismo na gaveta”, ao encabeçar um governo que teve de tomar duras medidas para evitar a bancarrota. Mas aquilo que sobressai das sete décadas da vida política de Mário Soares é que em relação às grandes questões ele nunca se enganou quanto ao lado certo da história.

O apego à liberdade no combate à ditadura levou-o à prisão, deportação e exílio; e foi esse mesmo valor que o levou a se opor, com firmeza e com êxito, à tentativa comunista de instaurar outra ditadura depois da revolução de 1974. E foi Soares, mais do que qualquer outro, que percebeu com clarividência a necessidade da integração nas Comunidades Europeias, para evitar a irrelevância geopolítica e contrariar a atávica pobreza do país. 

Soares conheceu o Brasil e os políticos brasileiros como poucos portugueses. Nos anos 50 viajou longamente pelo País num Fusca e, ao longo da vida, cultivou amizades com brasileiros. Foi amigo de Tancredo Neves, de Fernando Henrique Cardoso, com quem publicou um livro de diálogos, e de Lula, cuja combatividade e carisma admirava. Tinha um afeto especial por Leonel Brizola, seu camarada na Internacional Socialista, com quem chegou a passear nas ruas de Lisboa anunciando aos pedestres: “Este é o próximo presidente do Brasil”. 

Nestes anos mais recentes, Mário Soares surpreendeu alguns adotando posições cada vez mais contundentes. Segundo o guião, os antigos estadistas devem ser recatados, conservadores e prudentes, mas o eterno jovem Soares nunca se interessou por esse guião.

Fez campanha contra a invasão do Iraque em 2003, alardeava seu desprezo pela terceira via de Tony Blair e outros, e entendeu que quando forças políticas e econômicas afirmavam que “não há alternativa” estavam na realidade cerceando a democracia e quanto a isso podiam contar com a feroz e implacável oposição de Mário Soares. 

Tive o grande privilégio de conhecer e trabalhar com Mário Soares em várias ocasiões nas últimas décadas. São muitas as recordações e, como compreenderão todos os que conviveram com Soares, algumas delas não são publicáveis. Partilho aqui uma que naquele momento me surpreendeu. Mário Soares havia perdido sua última grande batalha política, tendo sido fragorosamente derrotado nas eleições presidenciais de 2006. Encontrei-me com ele algumas semanas mais tarde por outras razões, mas era da campanha presidencial que Soares queria falar.

Durante 15 ou 20 minutos ouvi a sua análise, até que ele chegou à frase com que encerrou o assunto: “Mas isso agora não interessa nada. O que importa é o que podemos fazer para o futuro”. E aí percebi que acabara de ouvir apenas um prelúdio para que ele pudesse virar suas atenções, com toda a energia e a juventude que sempre o caracterizou, para o assunto da nossa reunião. Soares morreu aos 92 anos, quando já não tinha forças de lutar pelo futuro. Imagino que terá sido essa a causa do seu falecimento, pois, para Soares, a vida não tinha sentido se não fosse para lutar por um futuro melhor. 

*É EMBAIXADOR DA UNIÃO EUROPEIA NO BRASIL

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