Estado de Sítio faz Buenos Aires lembrar ditadura

Desde a última ditadura militar (1976-83) as ruas da capital argentina não haviam presenciado uma repressão policial de tal magnitude como a ocorrida hoje. A deputada centro-esquerdista Alicia Castro disse ao Estado que, embora tenham ocorrido repressões maiores no interior do país desde 1983, com a volta da democracia, estes acontecimentos são inéditos em Buenos Aires.Ao longo de toda esta quinta-feira, a polícia espancou milhares de manifestantes que haviam se reunido espontaneamente na Praça de Maio, na frente da Casa Rosada, para pedir a renúncia do presidente Fernando de la Rúa. A Praça de Maio é o cenário da maioria dos eventos históricos do país, e também dos principais protestos populares.Executivos, estudantes, crianças e aposentados foram reprimidos pela polícia, que atacou com cavalos, gás lacrimogêneo e balas de borracha. Extra-oficialmente, divulgou-se que dois jovens teriam falecido em pleno centro da cidade por causa das pancadas da polícia. Cento e oitenta pessoas estariam feridas, além de 50 policiais. Houve princípios de incêndios nas sucursais de três bancos.O centro da cidade transformou-se em um campo de batalha, onde o sangue se misturou aos escombros das construções utilizados como armas, pneus em chamas no meio de uma densa nuvem de gás lacrimogênio e pólvora.A repressão começou na noite da quarta-feira, quando uma multidão de pelo menos 30 mil pessoas aglomerou-se na praça, na frente da Casa Rosada, a sede do governo, para pedir a renúncia do ministro da Economia, Domingo Cavallo, e também do presidente De la Rúa. Nesta manhã, os manifestantes permaneciam firmes, e seu número foi crescendo. No fim do dia, milhares de pessoas tentavam avançar em direção à Praça de Maio pelas avenidas que a ela confluem, enfrentando a resistência policial. A expectativa no início da noite era de que, quando a escuridão chegasse, o centro poderia se tornar mais uma vez em um campo de batalha.SítioA repressão policial foi o primeiro sinal de que o Estado de Sítio estava em vigência. Embora decretado na noite anterior, o governo não explicou a modalidade do Estado de Sítio.Segundo a deputada Castro, o decreto é "defeituoso em si", já que ao contrário de qualquer outro Estado de Sítio clássico, não especifica as liberdades pessoais que permanecem e as que são suspensas. "Além disso, ele é inconstitucional, já que ele precisa ter a aprovação do Parlamento. No caso de agressão externa, do Senado, e no caso de convulsão interna, da Câmara de Deputados. Que De la Rúa o tenha aplicado sem esta aprovação é mais um sinal do autoritarismo do governo", disse.Castro apresentou um pedido de habeas-corpus preventivo na Justiça, declarando a inconstitucionalidade do Estado de Sítio. "Estes homens do governo são os verdadeiros saqueadores, que saquearam os salários dos trabalhadores, as universidades e a saúde pública", sustentou.Leia o especial

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