Estado entrevistou parlamentar anti-Síria morto no Líbano

Walid Eido foi ouvido pelo jornal O Estado de S.Paulo em agosto de 2006, sobre a ameaça das conquistas do Hezbollah ao governo libanês

Agencia Estado

19 Junho 2007 | 11h05

Milhares de pessoas compareceram nesta quinta-feira, 14, ao funeral do parlamentar libanês anti-Síria Walid Eido, assassinado ontem, tornando o evento palco perfeito para manifestações contra Damasco. A bomba instalada no carro do político matou outras nove pessoas. O Líbano decretou luto pelas baixas. Eido foi a sétima personalidade anti-Síria assassinada desde fevereiro de 2005, quando o ex-premiê Rafik Al Hariri foi morto na explosão de um caminhão-bomba. O assassinato do premiê desencadeou grandes protestos contra a Síria, vista como a principal suspeita pelo crime. O governo de Damasco negou qualquer envolvimento, mas foi forçado a tirar suas tropas do Líbano, encerrando 29 anos de ocupação. Em 6 de agosto de 2006, o jornal O Estado de S.Paulo ouviu Eido e seu partido em uma matéria sobre o conflito com o Hezbollah. Confira abaixo a íntegra da notícia: Ascensão do Hezbollah preocupa partido majoritário Membros do 14 de Março, o grupo majoritário no Parlamento libanês, liderado pelo primeiro-ministro Fuad Siniora, estão preocupados com a perspectiva de o Hezbollah sair do atual conflito clamando vitória. O cenário de um Hezbollah fortalecido politicamente, ganhando as eleições e sendo a principal força de uma nova coalizão já apareceu no radar de políticos do Partido do Futuro - da família Hariri -, o principal do bloco governante. "Com certeza o Hezbollah tentará chegar ao poder depois do fim da guerra", diz o deputado Walid Eido, do Futuro. Na quinta-feira, no encontro do 14 de Março que teve a presença do primeiro-ministro Siniora, esse foi um dos assuntos tratados. "Todos os partidos estão unidos nesta época de guerra", diz Moawad Abdallah, o chefe do departamento de comunicação do Parlamento. Nenhum político cristão ou sunita defende abertamente o desarmamento do grupo xiita Hezbollah antes de um cessar-fogo, o que é curioso dada a extensão das perdas humanas e materiais até agora. "Essa posição é extremamente hipócrita porque muitos deles usam palavras bastante pesadas em conversas privadas para se referir às decisões do grupo. Os canais de televisão só mostram as entrevistas de refugiados que apóiam a guerra, embora muitos estejam revoltados com o Hezbollah", diz Issa Goraieb, editorialista do L´Orient Le Jour, jornal libanês publicado em francês. O grupo xiita tem mostrado capacidade de enfrentar as tropas israelenses no combate corpo a corpo perto da fronteira e de lançar foguetes contra o território vizinho. Essa tática, no entanto, não tem impedido a destruição do país. Para o Hezbollah, entregar as armas é impensável porque seria a derrota. Para políticos de outros partidos, essa possibilidade poderia ser o fim das hostilidades. Apesar disso, eles descartam até mesmo mencionar o assunto publicamente. Alguns temem a acusação de traidor e outros, as conseqüências. "Qualquer ataque ao grupo neste momento causaria uma guerra civil. Por pior que seja a destruição provocada pela guerra, essa destruição não é nada perto do que seria o resultado de uma guerra civil", diz Eido. Oficialmente, políticos contrários ao Hezbollah falam no inimigo comum e histórico, Israel. Diante da morte de civis, expressam pesar e apoio à resistência, palavra geralmente usada para se referir à luta do Hezbollah contra as tropas israelenses. Quando fazem restrições ao grupo xiita, vão até certo limite. Criticam o fato de o Hezbollah ter capturado, sem consultar o governo, dois soldados israelenses no dia 12 de julho, o que deu início à guerra. Até agora, nenhuma pesquisa de opinião confiável tentou medir o humor dos libaneses. É difícil calcular o porcentual dos que aprovam o comportamento do grupo. Mas, à medida que os ataques israelenses atingem áreas cristãs, fora do alvo preferencial, que são os xiitas, a tendência é que cresça o ódio a Israel e o apoio à resistência em outros grupos religiosos que compõem o Líbano, o que fortalece politicamente o Hezbollah. A proposta de paz apresentada pelo primeiro-ministro Siniora na conferência de Roma fala no desarmamento do grupo xiita somente após o fim do conflito, a devolução de território por parte de Israel, a libertação de prisioneiros libaneses e a entrega do mapa das minas terrestres deixadas por Israel no sul do Líbano. Se isso de fato acontecer, políticos como Eido apostam que o Hezbollah cantará vitória, pois terá terminado o conflito com suas armas nas mãos. "O grupo dirá que foi o ganhador de qualquer jeito. É assim no mundo árabe. Muitos acreditarão, inclusive entre as pessoas que não gostam do Hezbollah. E, em certa medida, faz sentido. Nunca nenhuma força árabe agüentou tanto tempo um ataque israelense", diz Goraieb, o editorialista do L´Orient Le Jour.

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