Estado Islâmico expulsa militares e toma cidade estratégica no Iraque

Ofensiva. Militantes do grupo sunita conquistam Ramadi, capital da Província de Anbar, e controlam base militar com depósito de armamentos pesados, incluindo tanques; governo de Bagdá autoriza milícias xiitas a entrar no combate para tentar retomar área

BAGDÁ, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2015 | 02h03

Centenas de policiais, soldados e combatentes tribais fugiram da cidade iraquiana de Ramadi ontem depois que o Estado Islâmico (EI) capturou um dos últimos bastiões do governo na área, segundo policiais e membros de tribos. A retirada foi um duro golpe nos esforços anunciados por autoridades iraquianas para defender a cidade, capital da Província de Anbar.

Após a tomada do centro de governo de Ramadi na sexta-feira, reforços militares haviam sido enviados para tentar conter o avanço dos extremistas. Enquanto isso, num sinal da gravidade da situação, o conselho provincial de Anbar aprovou ontem que milícias xiitas participem da batalha para retomar a cidade. Na Província dominada por sunitas, há profundas suspeitas sobre as milícias xiitas, bem como sobre o governo liderado por xiitas em Bagdá.

"Tomamos essa decisão porque não temos mais ninguém a quem recorrer. Perdemos literalmente tudo", disse Kahtan Abed, chefe de gabinete do presidente do conselho provincial, Sabah Karhout. Logo depois da votação, a televisão estatal reportou que o premiê iraquiano, Haider Abadi, havia ordenado que milícias xiitas anti-iranianas entrassem na luta.

Autoridades americanas veem as milícias com profundo ceticismo. Com a ajuda do Irã, os milicianos realizaram vários ataques contra soldados americanos quando forças dos EUA ainda combatiam no Iraque.

Uma autoridade disse que uma das milícias xiitas apoiadas pelos iranianos, Kitaeb Hezbollah, confirmou por mensagem de texto que os milicianos do grupo haviam se mobilizado.

Jawad al-Talibawi, um porta-voz da Asaib Ahl al-Haq, outra milícia alinhada com o Irã, disse que o grupo tem 1,5 mil homens prontos para lutar em Anbar.

As forças pró-governo recuaram da área de Malaab, em Ramadi, abandonando cerca de 60 veículos militares tomados posteriormente pelo EI, segundo o coronel Nasser al-Alwani da força policial local. Cerca de metade dos veículos abandonados foi enviada pelo governo apoiado pelos americanos no sábado para reforçar o bairro.

Outra preocupação do governo iraquiano foi a tomada do Centro de Comando Militar de Ramadi, base que caiu nas mãos do EI e abriga um arsenal estratégico de grande porte, incluindo tanques e artilharia pesada.

Combatentes do EI sitiaram as forças iraquianas em todas as estradas, obrigando os soldados e policiais a abandonar os veículos e fugir a pé. Um comboio militar da base aérea de al-Habbaniyah mais tarde resgatou as tropas em fuga.

Omar al-Alwani, um combatente tribal pró-governo de Ramadi, disse que nenhum soldado foi deixado para defender as estradas a leste da capital, Bagdá. Ele também fugiu de Malaab com o grupo de forças pró-governo, que ele estimou em mais de 500. Eles deixaram para trás armas que incluíam peças de artilharia, metralhadoras e caminhões equipados com metralhadoras, afirmou Alwani.

"O Daesh (sigla em árabe para o EI) tomou o posto policial e a grande mesquita" da área, disse ele, acrescentando que combatentes do EI rodearam o posto policial e mataram a tiros o policial mais graduado.

Ele e outros expressaram preocupação com as várias centenas de forças pró-governo que ainda estão cercadas por militantes no centro de operações militares da cidade. Segundo informes não confirmados, até 40 pessoas nessa unidade foram mortas no domingo em dois atentados suicidas. "Só Deus pode salvar essas pessoas agora. Não ficou ninguém para protegê-las", disse Alwani.

Usando carros-bomba e artilharia, o EI lançou um ataque de surpresa a Ramadi na quinta-feira, capturando a maioria dos bairros da cidade. Moradores e autoridades acusam os extremistas de realizar execuções e destruição sistemática de casas pertencentes a membros dos serviços de segurança.

Os ataques são um revés para os esforços apoiados pelos EUA para expulsar o EI do Iraque.

Antes do ataque da quinta-feira, o EI já havia tomado o controle de boa parte de Anbar durante uma onda de avanços por todo o país no ano passado. Mas a frustração com o governo do Iraque liderado por xiitas persuadiu alguns líderes tribais da Província a se alinharem ao grupo extremista sunita.

Rafia al-Fahdawi, um ancião da tribo Albu Fahed da província, expressou dúvidas de que um levante tribal similar poderia ser feito no momento contra o EI. No sábado, ele e dezenas de outros líderes tribais sunitas emitiram um apelo para milícias xiitas intervirem em Anbar.

"O Exército nos abandonou, A equipe SWAT nos abandonou. Não podemos depender dessas forças e precisamos de homens inspirados para lutar duro", disse ele, referindo-se às milícias. As milícias foram cruciais para derrotar o EI na cidade de Tikrit no mês passado. / THE WASHINGTON POST e REUTERS

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