‘Estado Islâmico não se encaixa na fotografia do Afeganistão’

General afasta risco de militantes de grupo radical islâmico agirem em território afegão após saída da Otan, em dezembro

Entrevista com

Carsten Jacobson

Cláudia Trevisan , Enviada especial

20 de setembro de 2014 | 20h47

CABUL - As forças de segurança do Afeganistão têm combatido a crescente insurgência do Taleban e de outros grupos armados, mas o número de baixas cresceu na medida em que tropas estrangeiras reduziram sua presença no país, disse em entrevista ao Estado o vice-comandante da coalizão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o general alemão Carsten Jacobson.

Treinadas e equipadas pelos países envolvidos na guerra iniciada em 2001, as forças de segurança do Afeganistão assumiram a responsabilidade pelo planejamento e execução de operações de combate em 2013, mas continuaram a ter o apoio internacional. Integrada por quase 50 países, a missão da Otan será concluída em 31 de dezembro, quando a guerra do Afeganistão chega oficialmente ao fim. A seguir, trechos da entrevista concedida em Cabul:

O que a redução de tropas significou em termos territoriais?

Tínhamos um enorme número de bases com responsabilidade territorial e isso foi gradualmente entregue às forças de segurança do Afeganistão. Nós fechamos 300 bases, transferimos 500 aos afegãos e ainda temos forças em 30 delas. Chegamos a ter 140 mil soldados. Agora são 30 mil e vamos continuar a diminuir até chegarmos a 12,5 mil no dia 1.º de janeiro. Vamos passar a um papel de aconselhamento e treinamento de uma força independente em um país soberano. O foco estará nas instalações que queremos proteger - as instalações do governo em Cabul, os comandos na capital e os mais elevados centros de comando. 

As forças afegãs estão prontas para o combate?

No início do ano, os insurgentes declararam a intenção de tomar o controle de distritos e províncias, porque sabiam que estávamos reduzindo nossa presença. Se olharmos para a situação agora, nenhuma província e nenhum distrito é controlado pela insurgência. Se olharmos as operações terrestres, 100% delas foram conduzidas pelas forças afegãs. Os afegãos fizeram um trabalho milagroso na eleição, que era um alvo claro dos insurgentes. Mas, em razão do menor apoio da coalizão, o número de baixas foi considerável. 

Quais são as principais fragilidades das forças afegãs?

Construímos uma força considerável de mais de 300 mil homens e mulheres em uniforme. Você pode construir uma grande força e equipá-la em um período relativamente curto, mas não dar experiência e liderança. A estimativa é que são necessários sete anos para treinar o comandante de uma companhia. Para liderar um batalhão, são precisos 15 anos. Não tivemos esses 15 anos. Também é preciso treinar especialistas em diferentes áreas, como engenharia, logística e sistemas. É um longo processo. O país tem um elevado nível de analfabetismo e baixa qualidade de educação em geral. É preciso construir uma geração, o que não é uma tarefa militar, é uma tarefa para a sociedade, com apoio da comunidade internacional.

Depois de 13 anos, é possível dizer que a guerra foi ganha?

O país tem mais de 30 anos de conflitos que não são uma campanha militar contínua. A União Soviética invadiu o Afeganistão e deu início a esse período de guerra em 1979. O que se seguiu foi uma sangrenta ocupação com crescente resistência, que derrotou os soviéticos no fim da Guerra Fria. Depois houve a guerra civil entre comandantes regionais que saíram da campanha militar contra a União Soviética, seguida de uma campanha de orientação religiosa com o Taleban, que dominou o país com um sistema islâmico extremista. Esse período foi superado pela ofensiva de 2001 com a ajuda estrangeira. Mais tarde tivemos uma insurgência, que cresce e não mais enfrentará forças internacionais. Vimos o impacto desses diferentes conflitos sobre a população civil. O mais significativo provavelmente é a falta de educação. Essa é uma das áreas que mais sofreram e o futuro do Afeganistão depende de crianças indo às escolas agora. Esses são os que vão ocupar postos na administração e transformar o Afeganistão em uma sociedade que funcione. 

O Estado Islâmico pode ganhar influência no Afeganistão?

O Estado Islâmico se declara um Estado, mas é uma ideologia que controla um território sem fronteiras claras. Temos o fenômeno global do extremismo islâmico e isso existe entre os insurgentes (afegãos). Mas eu não vejo o Estado Islâmico se encaixar na fotografia do Afeganistão. Há extremismo islâmico dentro da insurgência, há extremismo islâmico fora do Estado Islâmico, há uma atração pelo que o Estado Islâmico está fazendo, mas os que são atraídos tendem a ir onde o Estado Islâmico está e lutar lá, em vez de exportar a luta de lá.

Qual a logística da retirada das tropas e dos equipamentos trazidos para o Afeganistão?

Nós equipamos uma força afegã de mais de 300 mil soldados e isso fica com o Afeganistão. Do que nós trouxemos, há equipamento que fica aqui, há o que será transferido para os afegãos e o que será destruído, porque não vale a pena dar aos afegãos nem transportar para casa em razão do custo. Além disso será preciso manter a logística para coisas que precisam ser trazidas para o país em grande quantidade, como combustível, que exige uma combinação de transporte militar e prestadores de serviço civis. O Exército e a polícia afegãos precisarão de combustível, de munição, de suprimentos médicos e terão de manter seus veículos. 

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