Stringer/Reuters
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Estado Islâmico perde cada vez mais soldados e recorre a meninos-bomba em suas missões

Segundo especialistas, é mais fácil para os menores de idade se infiltrarem nos locais onde há alvos do grupo jihadista, e para os soldados os manipularem

O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2016 | 08h51

BEIRUTE - Um garoto caía em lágrimas enquanto policiais o prendiam após ele ser visto andando nervoso por uma rua da cidade iraquiana de Kirkuk. Embaixo da camisa do Barcelona que o menino usava, a polícia encontrou um cinto com explosivos.

Apesar de os agentes terem conseguido impedir a ação do menor e evitado uma tragédia, inúmeros jovens homens-bomba têm conduzido ataques nos últimos meses, enquanto soldados do grupo jihadista Estado Islâmico (EI) recrutam cada vez mais crianças para missões suicidas.

Um atentado provocado por um suicida em um casamento na Turquia, que matou mais de 50 pessoas no domingo, foi realizado por uma criança. Em março, um homem-bomba que aparentava ter 15 ou 16 anos realizou um ataque em uma partida de futebol que era disputada por garotos na região de Asriya, no Iraque, matando 43 pessoas.

Apesar de os membros do EI não revelarem a idade de seus combatentes, os rostos de muitos mostram que eles ainda não são adultos. Analistas dizem que essa é uma das consequências da campanha de doutrinação do grupo extremista.

“Isso é um produto do investimento do Estado Islâmico em crianças”, afirmou Hassan Hassan, coautor do livro ISIS: Inside the Army of Terror (EI: Por Dentro do Exército do Terror, em tradução livre). "A segunda geração do grupo já está surgindo. Quando eles precisam dos menores, podem chamá-los.”

Em seus primeiros dias, o Estado Islâmico promovia eventos de estilo familiar, como jogos e competições para ver quem conseguia comer mais sorvete, por exemplo. Conforme foi ganhando território, passou a abrir campos de treinamento e escolas. Livros didáticos encontrados em áreas antes controladas pelos jihadistas mostram a versão extrema do Islã que é ensinada.

“Se as pessoas levam seus filhos menores de idade ao se unirem ao EI, é melhor para o grupo”, disse Hassan. “Os cérebros deles são como lousas em branco nas quais se pode escrever.”

Os métodos dos extremistas ecoam os utilizados pela Al-Qaeda no Iraque, que também incluía o uso de crianças como homens-bomba, que recebiam o nome de “Pássaros do Paraíso”. O Taliban usa a mesma estratégia no Afeganistão e no Paquistão para conseguir acesso aos seus alvos sem levantar suspeitas.

No Iraque, a liberdade de movimento pode ser limitada para os mais jovens, especialmente para aqueles que viajam de áreas próximas ao território controlado pelo Estado Islâmico. “É mais fácil para as crianças se infiltrarem”, destacou o general Sarhad Qadir, comandante da polícia de Kirkuk. Ele conta que o menino preso na cidade pode ter sido drogado.

“Ele estava assustado e chorando, e não agia normalmente”, disse Qadir, acrescentando que o menor parecia atordoado. No momento, a criança está sendo interrogada e “não está 100%” bem mentalmente. O menino disse que vinha da cidade de Mossul, controlada pelo Estado Islâmico.

Os jihadistas parecem estar aumentando o uso de menores de idade em suas missões mais brutais. “Quem suspeitaria de uma criança?”, disse o governador de Kirkuk, Najmiddin Karim. “Infelizmente, eles sofrem lavagem cerebral.”

Hassan destaca que centenas de crianças estão crescendo sem educação e em meio à violência. / The Washington Post

Veja abaixo: Guerra na Síria: o resgate do menino Omran

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