Abdullah Sahil/AP
Abdullah Sahil/AP

Estado Islâmico representa uma ameaça crescente ao novo governo Taleban no Afeganistão

Crescente insurgência está deteriorando as condições de segurança no país e alarmando cada vez mais a comunidade internacional

Victor J. Blue, Thomas Gibbons-Neff e Christina Goldbaum, The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 20h00

JALALABAD, Afeganistão — A luta de Aref Mohammad contra o Estado Islâmico acabou antecipadamente neste outono, quando sua unidade de combatentes taleban foi emboscada pelo grupo terrorista no leste do Afeganistão. Um projétil estilhaçou seu fêmur, deixando-o incapaz até de andar.

Mas para o Taleban a que ele servia, que agora governa o Afeganistão, a guerra contra o Estado Islâmico estava apenas começando. 

“Se soubéssemos onde eles estão, os perseguiríamos e os destruiríamos”, afirmou Mohammad, de 19 anos, no leito hospitalar que ocupa em Jalalabad, capital da província afegã de Nangarhar, no leste do país, onde o Estado Islâmico está presente desde 2015.

Nos dois meses que se passaram desde que o Taleban tomou o controle do país, o grupo afiliado do Estado Islâmico no Afeganistão — conhecido como Estado Islâmico-Khorasan, ou ISIS-K — tem intensificado seus ataques por todo o país, pressionando o novo e não testado governo e aumentando a inquietação do Ocidente sobre a ressurgência de um grupo capaz de se tornar uma ameaça internacional. 

Os ataques têm mirado principalmente unidades taleban com a de Mohammad e as minorias xiitas do Afeganistão. Ataques suicidas em Cabul, a capital, e cidades importantes, incluindo Kunduz, no norte, e Kandahar, no sul, a cidade mais querida do Taleban, deixaram pelo menos 90 mortos e feriram centenas de pessoas num lapso de poucas semanas. E na terça-feira, combatentes do Estado Islâmico realizaram um ataque coordenado, com homens armados e pelo menos um suicida, contra um importante hospital militar da capital, matando pelo menos 25 pessoas. 

Isso tem colocado o Taleban em uma posição precária: depois de passar 20 anos lutando como um movimento insurgente, o grupo encontra agora dificuldade para prover segurança e cumprir seu marcante compromisso de manter a lei e a ordem. Isso tem se provado especialmente difícil para o Taleban, enquanto o grupo tenta defender a si mesmo e os civis contra ataques quase diários em cidades lotadas, com um exército treinado para combates rurais de guerrilha. 

O aumento nos ataques alimentou crescentes incertezas entre autoridades ocidentais, com algumas prevendo que o Estado Islâmico — com frequência considerado uma ameaça regional — poderia obter a capacidade de atacar alvos internacionais daqui a seis ou 12 meses.

Colin Kahl, subsecretário para políticas de defesa dos EUA, afirmou a congressistas na semana passada que a capacidade do Taleban para perseguir o grupo “é incerta”.  

Os sentimentos de Kahl sublinham a principal preocupação das agências ocidentais de inteligência: há poucas maneiras de medir a eficiência do Taleban contra o ISIS-K. Não há mais acesso a dados de inteligência confiáveis, já que limitados voos de drone fornecem informações fragmentadas, dada a distância que as aeronaves têm de percorrer até chegar no Afeganistão, de acordo com autoridades americanas, e a rede de informantes estabelecida anteriormente se desintegrou. 

O Taleban, que se recusou a cooperar com os EUA no enfrentamento ao Estado Islâmico, em vez disso está combatendo uma guerra em seus próprios termos, com táticas e estratégias que parecem muito mais localizadas do que uma campanha de um governo contra uma organização terrorista. 

“O Taleban se acostumou a lutar como um grupo insurgente, fiando-se em uma gama de ataques assimétricos que mirava forças afegãs e americanas”, afirmou Colin P. Clarke, analista de contraterrorismo do Soufan Group, uma empresa de consultoria em segurança com base em Nova York. “Mas parece evidente que o Taleban não pensou absolutamente na maneira como essa equação muda quando se combate insurgentes, que é efetivamente o papel que eles estão desempenhando agora contra o Estado Islâmico.” 

Mas um lugar onde o Taleban mudou sua estratégia de combate ao Estado Islâmico — chegando a trabalhar junto com os americanos e o governo anterior para conter o grupo terrorista no leste — foi no campo diplomático. 

Enquanto busca reconhecimento internacional, o Taleban tem usado o ressurgimento do grupo terrorista como uma moeda de troca por mais ajuda financeira, de acordo com autoridades catarianas, lembrando outros países de que o Estado Islâmico poderoso representa uma ameaça também para eles. 

Reconhecendo a ameaça potencial na fronteira que compartilha com o Afeganistão, o Paquistão tem alimentado o Taleban com informações de inteligência a respeito do Estado Islâmico, de acordo com autoridades americanas. 

Basir, diretor do braço de inteligência do Taleban em Jalalabad, que se identifica somente com um nome, é um dos líderes taleban que tenta se adaptar para combater uma guerra na qual já ocupou o outro lado, na época do Taleban insurgente. Agora ele é responsável por defender e garantir a segurança a uma cidade que abriga centenas de milhares de pessoas.  

Nos anos recentes, Jalalabad tem sido alvo fácil para o Estado Islâmico, que acionou células de combatentes para agir na cidade a partir dos distritos que a cercam, cometendo assassinatos e ataques a bomba como bem entendeu. 

Mas o grupo tirou vantagem das semanas durante as quais o novo governo estava se constituindo e ampliou drasticamente seu alcance. 

Entre 18 de setembro e 28 de outubro, o Estado Islâmico cometeu pelo menos 54 ataques no Afeganistão — incluindo atentados suicidas, assassinatos e emboscadas contra postos de controle, de acordo com análise da ExTrac, uma firma privada que monitora violência de militantes em zonas de conflito. Foi um dos período de maior atividade e violência do Estado Islâmico no Afeganistão. 

A maioria desses ataques mirou as forças de segurança taleban — uma diferença marcante em relação aos primeiros sete meses do ano, quando o Estado Islâmico mirou principalmente civis, incluindo ativistas e jornalistas. 

Na reação ao Estado Islâmico, Basir afirmou que seus homens adotaram métodos similares aos do governo que depôs, valendo-se até mesmo de equipamentos usados pelo serviço de inteligência anterior para interceptar comunicações e sinais de rádio — ferramentas fornecidas pelo Ocidente ao longo das últimas duas décadas, para o esforço de vigilância contra o Taleban.  

Mas Basir insistiu que o Taleban tem algo que faltou ao governo anterior e aos americanos: o amplo apoio da população local, que tem sido um trunfo para o tipo de inteligência humana capaz de alertar autoridades a respeito de ataques e localizações de combatentes, o que sempre foi difícil de se obter no passado. 

Esse nível de confiança e cooperação poderia se esvair, afirmam analistas de segurança, já que há um temor crescente de que o Taleban possa vir a usar a ameaça do ISIS-K como desculpa para colocar em prática ações violentas, impunes e patrocinadas pelo Estado, contra certos segmentos da população, como membros do governo anterior.  

“Também há algo de arrogância e excesso de confiança, porque o Taleban pensa que o apelo no país do ISKP é limitado e que o grupo é tão execrável que nunca seria capaz de reunir apoio amplo. Então, o Taleban acha que pode se dar ao luxo de ignorar sua ameaça”, afirmou Ibraheem Bahiss, consultor do International Crisis Group e analista independente.

Em 2015, o Estado Islâmico-Khorasan foi estabelecido oficialmente no leste do Afeganistão por ex-membros do Taleban paquistanês. A ideologia do grupo ressoou localmente em parte porque muitos vilarejos da região são habitados por muçulmanos que seguem o salafismo, o mesmo ramo do islamismo sunita seguido pelo Estado Islâmico. Minoria entre os taleban, que em sua maioria seguem a escola do hanafismo, os combatentes salafistas estavam ávidos para se juntar ao novo grupo terrorista.   

O poder do Estado Islâmico de atrair jovens é especialmente pronunciado em Jalalabad, onde mesquitas salafistas têm aflorado em números crescentes nos últimos anos, provendo amplos campos de recrutamento para o grupo terrorista. 

O Taleban deu uma mostra de abertura aos salafistas, aceitando um juramento de fieldade de alguns clérigos salafistas este mês. Mas ainda há inquietações generalizadas dentro de a comunidade, especialmente em Jalalabad.

Numa escola religiosa salafista da cidade, o Taleban reprimiu a ideologia, forçando o fundador da instituição a fugir. Os taleban permitiram que os rapazes continuassem seus estudos corânicos, mas baniram obras salafistas do currículo. 

Para Faraidoon Momand, ex-integrante do governo afegão e mediador político em Jalalabad, a deterioração da economia do país também está estimulando a adesão ao Estado Islâmico. 

“Em qualquer sociedade, se a economia vai mal, as pessoas farão o que for preciso para sobreviver”, afirmou Momand.

Enquanto entardecia em Jalalabad, em um dia recente de outubro, uma unidade de combatentes taleban, membros da agência de inteligência, circulava pela cidade em uma picape Toyota modificada, com uma metralhadora instalada na caçamba, em meio à multidão de gente voltando do trabalho ou fazendo compras.  

Os taleban estacionavam em alguns cruzamentos principais e postos de controle, saltando do veículo para auxiliar na triagem dos carros e das onipresentes riquixás que se aglomeram e buzinam enquanto lotam as ruas. Eles enfiavam as cabeças nos veículos, iluminavam seu interior com lanternas e questionavam as pessoas antes de deixá-las passar. 

“Temos um tribunal para todo o tipo de criminoso”, afirmou Abdullah Ghorzang, um comandante taleban. “Mas não temos nenhum tribunal para o ISIS-K. Eles serão mortos onde quer que sejam presos.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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