Omar Haj Kadour/AFP
Omar Haj Kadour/AFP

Estado Islâmico retoma força no Iraque e na Síria

Cinco meses após anúncio de sua expulsão de seu último reduto, grupo refaz redes financeiras e obtém novos recrutas

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2019 | 20h38

DAMASCO - Cinco meses após forças apoiadas pelos EUA expulsarem o Estado Islâmico (EI) de seu último reduto na Síria, o grupo terrorista vem se fortalecendo, lançando ataques guerrilheiros em território iraquiano e sírio, refazendo suas redes financeiras e arrebanhando novos recrutas em campos de refugiados administrados por países aliados, revelaram fontes militares  sírias e americanas. 

Embora o presidente Donald Trump tenha anunciado a derrota total do EI este ano, funcionários de Defesa na região veem de um modo diferente, insistindo  que o que resta do grupo terrorista está ali para ficar. Um relatório da Divisão de Inspeção Geral do Departamento de Defesa  que uma recente redução das forças americanas na Síria – de 2 mil para menos da metade disso – reduziu o apoio às forças sírias aliadas que combatem o EI. No momento, as forças americanas e internacionais limitam-se a conter o EI e impedir que ele se aproxime de áreas urbanas.

Apesar de haver poucas preocupações de que o Estado Islâmico vá recuperar seu antigo território físico, um califado que já teve o tamanho do Reino Unido e controlou as vidas de mais de 12 milhões de pessoas, o grupo terrorista ainda mantém 18 mil combatentes no Iraque e na Síria.

Essas forças adormecidas e seus grupos estratégicos atacam com atiradores de elite, sequestram e assassinam membros das forças de segurança e líderes comunitários.

O EI também dispõe de recursos calculados em US$ 400 milhões, escondidos no Iraque, na Síria ou contrabandeados para países vizinhos por segurança. Acredita-se ainda que ele tenha investido em atividades comerciais, incluindo fazendas de criação de peixes, comércio de carros e plantação de maconha. O grupo também usa extorsão para financiar operações clandestinas: fazendeiros do norte do Iraque que se recusam a pagar “pedágio” têm suas plantações queimadas.

Nos últimos meses, o EI tem feito incursões em um campo de refugiados que vem crescendo no nordeste da Síria. Não existem planos para a destinação das 70 mil pessoas que vivem ali, incluindo milhares de parentes de combatentes do EI, segundo oficiais de inteligência americanos referindo-se ao campo de Al Hol. Administrado por aliados curdos da Síria, com poucos recursos e segurança precária, o campo está se tornando um centro ideológico do EI e uma enorme incubadora de futuros terroristas. As forças curdo-sírias, financiadas pelos EUA, também mantêm prisioneiros mais de 10 mil combatentes do EI, dos quais 2 mil estrangeiros, distribuídos por prisões improvisadas.

Em Al Hol, “a incapacidade dos curdos sírios de proverem pouco mais que o mínimo de segurança está fornecendo condições incontestadas para o alastramento da ideologia do EI”, segundo o relatório da Divisão de Inspeção-Geral. 

Uma avaliação recente da ONU chegou a uma conclusão semelhante, dizendo que famílias vivendo em Al Hol “podem tornar-se ameaças se não forem atendidas apropriadamente”.

“Por mais enfraquecido que o EI possa estar, ele ainda é um movimento global e somos globalmente vulneráveis”, disse Suzanne Raine, ex-chefe do Centro Britânico de Análises Conjuntas sobre Terrorismo. 

Um indicador significativo da ressurgência do EI é o aumento do número de ataques aéreos dos EUA no Iraque e na Síria nos últimos meses. Em junho, aviões americanos lançaram 135 bombas e mísseis, mais que o dobro do lançado em maio, segundo dados da Força Aérea.

Funcionários da defesa na região dizem que o EI está hoje entrincheirado principalmente em áreas rurais, atacando em pequenos grupos de cerca de uma dezena de combatentes e tirando vantagem da porosa fronteira entre Iraque e Síria, além da fronteira informal entre o Curdistão iraquiano e o restante do país, onde as forças de segurança estão rarefeitas e a responsabilidade pela segurança pública às vezes é empurrada de um lado para outro.

Para os iraquianos das províncias do norte e do oeste, onde o EI era mais ativo no passado, a sensação de ameaça nunca desapareceu: os ataques estão diminuindo, mas não cessando.

Nos primeiros seis meses do ano, houve 139 ataques nessas províncias, com 274 mortos. Um episódio particularmente brutal, do tipo não visto desde que o EI controlava territórios no norte do Iraque, ocorreu no começo deste mês: homens armados proclamando obediência ao EI decapitaram em público um policial numa vila ao sul de Samarra, a duas horas de Bagdá. 

Violência

O policial decapitado, Alaa Ameen Mohammad Al-Majmai, foi sequestrado à noite, com seu irmão Sajid, por cinco homens armados e interrogado até madrugada. Então, eles deixaram Sajd ir embora e decapitaram Alaa Ameen.

No começo do mês, o sargento dos fuzileiros navais americanos Scott A. Koppenhafer, de 35 anos, foi morto no norte do Iraque durante uma operação com forças locais. Koppenhafer é o primeiro militar americano morto em combate no Iraque neste ano. 

Em julho, analistas da Comissão de Contraterrorismo do Conselho de Segurança da ONU disseram que líderes do EI, apesar da derrota militar na Síria e no Iraque, “estão se adaptando, consolidando-se e criando condições para uma eventual ressurgência” nesses países. 

O relatório americano sobre as atividades do EI de abril a junho concluiu que o grupo estava “ressurgindo na Síria” e havia “solidificado sua capacidade de insurgência no Iraque”.

Apesar desses relatórios, Trump continua afirmando que derrotou completamente o Estado Islâmico, contrariando reiteradas advertências de seus próprios funcionários de inteligência e contraterrorismo de que o EI continua sendo uma força letal. 

“Fizemos um belo trabalho”, disse o presidente no mês passado. “Logo estaremos fora e vamos deixar os países da região cuidarem dos próprios problemas ... afinal, estamos a 11 mil quilômetros de distância.”

Os EUA mantêm 5,2 mil soldados no Iraque e menos de mil na Síria. 

Após a queda de Baghuz, o último bastião do EI na Síria perto da fronteira iraquiana, o que resta dos combatentes do grupo dispersos na região está começando o que oficiais dos EUA dizem que será uma prolongada insurgência. 

“Com a retirada dos EUA, estão surgindo condições para que o EI retome bolsões de território e domine as populações locais”, disse Colin P. Clarke, do Soufan Center, uma organização de pesquisas de segurança global e coautor de um novo estudo da RAND Corp. sobre o financiamento do Estado Islâmico. / THE NEW YORK TIMES

 TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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