REUTERS/Ali Hashisho
REUTERS/Ali Hashisho

Estados Unidos adiam retirada de tropas da Síria

Em linha oposta ao que Trump afirmou dias antes do bombardeio a 3 alvos sírios, embaixadora americana na ONU afirma que os 2 mil militares ficarão no terreno para conter uso de armas químicas, derrotar o Estado Islâmico e controlar presença iraniana

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2018 | 05h00

WASHINGTON - Declarações dadas no domingo por autoridades dos Estados Unidos e da França indicam que tropas americanas deverão permanecer na Síria além do prazo de seis meses sugerido pelo presidente Donald Trump para seu retorno.

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“Nosso trabalho na Síria não terminou”, disse a embaixadora de Washington na Organização das Nações Unidas (ONU), Nikki Haley, em entrevista à Fox News. Em Paris, o presidente Emmanuel Macron, disse ter “convencido” Trump a abandonar a ideia de retirar os soldados. “Eu asseguro, nós o convencemos de que é preciso permanecer por enquanto”, declarou o líder francês à emissora BFMTV.

No sábado, os EUA, França e Inglaterra lançaram 105 mísseis contra três instalações de produção e armazenamento de armas químicas na Síria. Em entrevistas no dia seguinte, representantes do Pentágono afirmaram que o principal objetivo dos EUA na Síria era derrotar o Estado Islâmico. Ontem, Haley ampliou o leque para incluir a proibição do uso de armas químicas e a contenção da presença do Irã na Síria.

Ao lado de Moscou, Teerã é o maior aliado externo de Assad e participa da guerra civil com milícias e integrantes da Guarda Revolucionária iraniana. A crescente presença do país xiita na Síria é vista com apreensão por Israel, principal parceiro dos EUA no Oriente Médio e contrário à saída de tropas americanas do país. O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que um novo ataque do Ocidente à Síria levaria “caos” ao mundo.

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Haley mencionou que o cumprimento de três metas é necessário antes da saída dos 2 mil militares americanos da Síria: garantir que as armas químicas não sejam usadas, que o Estado Islâmico seja derrotado e que iranianos não ampliem sua presença no terreno. 

“O Irã é uma ameaça aos interesses americanos”, afirmou. “Nós não vamos voltar para casa até que saibamos que alcançamos esses objetivos.” Mas a embaixadora ressaltou que um novo ataque à Síria só ocorrerá se Assad voltar a usar armas químicas. Segundo ela, o bombardeiro provocou um “golpe” no programa de armas químicas de Assad e o fez recuar anos. Trump causou controvérsia ao usar no sábado o termo “missão cumprida” para elogiar a operação. A expressão foi usada em intervenções militares contestadas, como a invasão do Iraque.

Ofensiva diplomática

Enquanto mantêm a presença militar, os EUA deverão intensificar os esforços na busca de uma saída diplomática para a crise síria e aumentar a pressão sobre a Rússia, com a imposição de novas sanções ao país. As penalidades serão anunciadas nesta segunda-feira e terão como alvo empresas russas relacionadas à produção de armas químicas por Assad.

Os EUA também estão interessados nas negociações de paz de Genebra e na busca de uma solução política para a Síria, afirmou Haley. Criado em 2015, o processo está paralisado em razão da decisão de Assad de não participar das conversas. O mecanismo prevê a transição de poder na Síria, com a convocação de eleições e aprovação de uma nova Constituição.

O problema é que grande parte da oposição síria foi dizimada na guerra civil e não está claro quem poderia ser uma alternativa a Assad. A Rússia, e Turquia e a Síria têm participado de conversas paralelas, que até agora não produziram resultados.

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A ofensiva na Síria contraria a retórica adotada por Trump durante a campanha eleitoral, quando ele criticou de maneira reiterada as intervenções militares no Oriente Médio patrocinadas por George W. Bush. Segundo ele, os EUA deveriam retirar tropas da região e focar em seus problemas domésticos. Mas o presidente também prometeu acabar com o Estado Islâmico e tem celebrado o recuo do grupo terrorista na Síria.

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