Kayana Szymczak/The New York Times
Kayana Szymczak/The New York Times

Estados Unidos buscam diversidade em cotas não raciais

‘Índice de adversidades’ considera fatores como bairro, escola e educação dos pais do candidato

Anemona Hartocollis e Amy Harmon/ THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2019 | 05h00

A decisão de dar aos estudantes que fazem o teste para ingresso na universidade uma classificação numérica que reflete os desafios enfrentados na vida é o sinal mais revelador de que as universidades dos EUA estão buscando uma maneira de diversificar suas classes sem considerar raça ou etnia de alunos. 

Esta escala de adversidade dá às autoridades das escolas uma maneira de saber sobre o bairro e escolas frequentadas pelos candidatos, fatores que ajudam ou prejudicam o desempenho acadêmico. As notas, que não levam em conta a raça do aluno, farão parte de um ranqueamento enviado às faculdades, além dos resultados dos testes.

Com este plano o College Board, que administra o teste de admissão chamado de SAT (sigla em inglês para Teste de Aptidão Escolar), se une a um movimento que tem se ampliado em todos os níveis de ensino e defende a utilização de alternativas que não envolvam raça para uma ação afirmativa. Das escolas públicas de Chicago às universidades de elite em Ann Harbor, Michigan, e Tallahassee, Flórida, instituições tentam localizar e nivelar as desvantagens observadas entre os estudantes.

A nova ferramenta do SAT, um exame padronizado realizado por 2 milhões de estudantes a cada ano, dá ao movimento que defende a neutralidade de raça talvez o seu maior impulso, sintetizando dificuldades em uma escala de 1 a 10. O sistema prevê que o país chegará a uma etapa em que o sistema de ensino superior privilegiará fatores como pobreza, bairros assolados por crimes e escolas em dificuldades.

“Considerando que os estudantes negros matriculado são mais desfavorecidos em média, imagina-se que a utilização dessa escala leve a um aumento na diversidade racial”, diz Michael Bastedo, professor de educação na universidade de Michigan.

Mas o plano também tem provocado protestos de quem alega que não incluir a raça no score de adversidade é ignorar um aspecto chave do desfavorecimento social. “Vejo este plano como um instrumento potencial para resolver um problema totalmente diferente: a diversidade socioeconômica, que é separada da diversidade racial”, disse Raj Chetty economista da Universidade de Harvard.

Os esforços para a adoção de medidas semelhantes não se limitam à admissão à universidade. Há uma década, Chicago, cidade com o terceiro maior sistema de ensino público do país e uma longa história de segregação, considerava o fator raça no momento de determinar as admissões a suas faculdades mais competitivas. Em setembro de 2009, um juiz federal anulou um decreto, abandonando o uso da raça como um fator nas políticas de admissão às universidades e escolas de elite, o que levou a uma reformulação radical do processo de admissão.

As faculdades de elite em Chicago hoje admitem 30% dos seus alunos com base em classificações e notas de teste e adotam fatores socioeconômicos para os restantes. A região utiliza uma fórmula complexa que analisa o censo demográfico para ter em conta seis fatores: renda familiar, porcentagem de famílias monoparentais, nível de educação dos pais, porcentagem de casas ocupadas pelo proprietário, porcentagem de famílias em que o inglês não é primeira língua e notas nas escolas do bairro dos alunos abrangidos pelo censo de determinada região.

O instrumento adotado para o SAT é uma versão expandida disto, utilizando 31 fatores relacionados à comunidade e escola do estudante. O novo plano é apresentado num momento em que contestações à ações afirmativas têm sido apresentadas em tribunais e em investigações federais. 

O processo de admissão à Universidade de Harvard foi submetido a julgamento no ano passado, diante de acusações de que ela reduzia as notas de asiático-americanos com base em critérios subjetivos, difíceis de quantificar. Harvard alegou que não discrimina e afirmou que considerar somente fatores socioeconômicos não traria para ela o número de estudantes minoritários suficientes. 

Eric Mallof, vice-presidente da Trinity University, faculdade de artes com 2, 5 mil alunos, em San Antonio, disse que usou a ferramenta como parte de um programa piloto. Essa ferramenta ganhou importância, diz ele, em razão às batalhas nos tribunais envolvendo ações afirmativas com base em raça. “Sabendo da gravidade do que pode estar vindo, é bom saber que temos esse instrumento no bolso se as circunstâncias mudarem”, disse ele.

O programa piloto incluiu 15 escolas, e depois se ampliou para 50. E no final do ano deve chegar a 150 . Algumas escolas participaram voluntariamente, outras foram recrutada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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