Jim Huylebroek/NYT
Jim Huylebroek/NYT

Estados Unidos deixam bases afegãs e um legado de disputas de terras

Coalizão liderada pelo país confiscou propriedades para construir instalações militares que agora estão na posse do Exército afegão; camponeses lutam por indenização

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 06h00

Em tempo de colheita, enquanto seus vizinhos e parentes colhem suas safras, Jamal Khan, 80 anos, olha com desespero suas terras que eram a fonte de sobrevivência da família até as forças americanas chegarem, há uma década.

Um dia, pouco antes do anoitecer, veículos blindados entraram nos campos plantados de milho e tomaram conta de 12 hectares de terras de propriedades de muitas famílias, isolando a área com arame farpado. Ali construíram o Combat Outpost Honaker-Miracle, umas das mil instalações militares que os Estados Unidos e seus parceiros de coalizão ergueram por todo o Afeganistão.

“Nessa imensidão do mundo de Deus, eu tinha este pedaço de terra e a casa em que estou vivendo e nada mais”, disse Khan, que vive no distrito de Watapur, na província de Kunar, a leste do país. “Dissemos a eles que era terra particular e perguntamos como de repente se instalavam ali. Eles não responderam”.

Khan é um dos inúmeros afegãos cuja propriedade se tornou uma vítima da guerra liderada pelos Estados Unidos e a infraestrutura militar instalada decorrente dela. E que se defrontaram com a burocracia americana e afegã e a indiferença, o que provocou um ressentimento cada vez mais forte contra as forças de coalizão e o governo afegão.

Apesar da redução das forças americanas no Afeganistão, que de 100 mil soldados em 2011 hoje são menos de cinco mil, algumas das propriedades ocupadas não foram devolvidas. Pelo contrário, as bases e os terrenos foram transferidos para as forças de segurança afegãs.

Os americanos deixaram Watapur, mas Khan não teve suas terras de volta e conflitos similares ocorrem em grande parte do país. Em pelo menos uma dezena das 34 províncias do Afeganistão, as disputas de terra envolvem seus proprietários, que afirmam que simplesmente foram rechaçados, apurou o The New York Times.

Num país onde um processo justo e necessário é quase impossível diante da corrupção e da corrosão do Estado, a presença dos Estados Unidos veio se somar a uma longa história de disputas por terra que com frequência foram a causa básica dos conflitos locais.

O Taleban promove uma rápida solução das disputas pelos seus tribunais paralelos como uma força, e a discórdia envolvendo proprietários de terra reforça a mensagem dos insurgentes de que os afegãos não conseguem justiça da parte de um governo apoiado pelos Estados Unidos e que a presença militar americana veio aumentar a injustiça.

Khan ainda carrega consigo uma pilha de documentos, petições para o governo e cartas de confirmação do Exército dos Estados Unidos de que ele é o proprietário de direito de suas terras. Em diversas ocasiões, ele diz, delegações de Cabul chegaram para investigar o caso e pediram dinheiro para os camponeses para cobrir as despesas durante sua estadia.

Mas a lembrança mais dolorosa dessa invasão é sua coleção de pequenos recibos. Embora o Exército afegão hoje ocupe sua propriedade, Khan ainda têm de pagar os impostos devidos.

No decorrer dos anos, o tamanho das instalações americanas variou muito. Algumas bases são enormes abrigando até restaurantes de cadeias de fast-food. Em outros casos as forças ocuparam por um curto período as casas dos afegãos, destruindo ou modificando paredes para fins de defesa, que depois abandonaram.

Na província de Balkh, as forças de coalizão construíram uma base perto do aeroporto da capital da província. Amanullah Balkhi, proprietário de uma empresa local, disse que a instalação ocupou sete alqueires de terras de sua propriedade.

O ministério da Defesa disse a ele que o terreno é do governo, mas se provasse ser o proprietário, ele seria indenizado e receberia um aluguel. Balkhi deu início a uma batalha legal que dura seis anos e lhe custou US$ 2 milhões, que cobriu com a venda dos seus prédios de apartamentos, arrendando mais terra e assumindo uma dívida de US$ 500 mil.

“Tenho os títulos de propriedade e o governo e os tribunais atestaram que esta terra é minha. Mas os americanos ainda estão na posse dela e se negam a me devolver”, disse ele.

“Arruinei minha vida para ter meu direito, mas não consegui nada”.

Há 10 anos, dezenas de veículos da coalizão chegaram num pequeno vilarejo e examinaram o terreno de cerca de quatro hectares com vinhedos de propriedade de uma dezena de camponeses. Chegaram a experimentar as uvas antes de começarem a construir ali uma nova base.

“Eles não construíram uma estrada onde havia uma trilha por onde passávamos – construíram uma rodovia para eles atravessando as terras e os jardins das pessoas”, disse Fida Muhammad, um idoso de Panjwai e um dos proprietários das vinhas.

No início, falava-se que as forças de coalizão estavam oferecendo uma indenização, mas a região ficou tão descontrolada que uma simples aproximação da base em busca de dinheiro implicava riscos letais. Os camponeses temiam que os americanos os confundissem com integrantes do Taleban. E sabiam que se obtivessem uma indenização, o Taleban, que estava em todas as partes, ficaria sabendo e viria em busca do dinheiro.

“O sistema de irrigação foi arruinado – durante cinco anos os canais ficaram arruinados, a terra secou”, disse Muhammad. “Muitas famílias deixaram a área. Foram para a cidade para trabalhar por dia”.

Fida Muhammad, como um dos mais velhos do vilarejo, assumiu a liderança na tentativa de obter uma indenização e ter a terra de volta, em vão. "Quando os americanos administravam a base, as reclamações simplesmente se perdiam na burocracia”, disse ele. “Volte amanhã, volte no dia seguinte” é o que diziam repetidamente.

“Perdemos a esperança de encontrar alguém que pudesse nos devolver nossos direitos”, afirmou.

Muhammad disse ter feito 30 viagens com suas petições. “Só estamos nos cansando, perdendo mais dinheiro e não encontramos uma porta para bater e pedir justiça”. /NYT, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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