Brendan McDermid/Reuters
Brendan McDermid/Reuters

Estados Unidos superam a marca de 100 mil mortos pelo coronavírus

País tem o maior número de óbitos em todo o mundo; cerca de 1,7 milhão de americanos já foram infectados

Beatriz Bulla, CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2020 | 19h23
Atualizado 28 de maio de 2020 | 09h51

WASHINGTON - Quando a primeira morte por covid-19 foi registrada nos Estados Unidos, no final de fevereiro, o país não imaginava que três meses depois 100 mil pessoas teriam perdido a vida pela pandemia. Na época, o presidente Donald Trump afirmava que o vírus era um problema na China, mas não dos americanos, e que a situação estava sob controle. A incapacidade de organizar um sistema de testagem da população nos primeiros dois meses do ano, a negação da crise pelo presidente e a demora em implementar um programa de isolamento social são apontados como as causas que fizeram o país mais rico do mundo e responsável por centros de pesquisa de ponta chegar a 100.047 mortes nesta quarta-feira, 27.

Apesar das notícias de transmissão interna do vírus no país, a vida continuava normal nos EUA até o final de semana de 15 de março. Em pleno início de ano eleitoral, os comícios com arquibancadas lotadas de pessoas foram organizados tanto por democratas quanto por republicanos. As viagens internacionais continuavam normalmente – com exceção dos voos vindos da China, suspensos no início do ano – e as grandes aglomerações e eventos esportivos também.

Os 15 dias que separaram a primeira morte oficialmente contabilizada nos EUA, no Estado de Washington, da adoção de uma quarentena foram determinantes para o desfecho catastrófico. Um estudo publicado por pesquisadores da Universidade de Columbia estima que 36 mil pessoas não teriam morrido se as medidas de isolamento social tivessem começado no dia 8 de março, uma semana antes do que de fato aconteceu. Em 16 de março, Trump pela primeira vez anunciou em pronunciamento na Casa Branca as medidas federais de distanciamento social. Até então, o presidente negava que a epidemia fosse um problema.

Se o fechamento das atividades, universidades e comércio e determinação para que as pessoas ficasse em casa tivesse começado no primeiro dia de março, a estimativa dos pesquisadores de Columbia é de que 83% das mortes que ocorreram até maio no país teria sido evitada. O modelo considera a redução de velocidade das transmissões a partir da implementação das medidas de distanciamento social.

"Nada está paralisado, a vida e a economia continuam", disse Trump em 9 de março. Um dia antes, na porta do resort de Mar-a-lago, onde recebia o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, o americano afirmou que continuaria com os eventos de campanha, que reúnem multidões.

Naquela época, milhares de americanos já estavam infectados, segundo pesquisa do Network Science Institute da Universidade de Northeastern, em Boston. A estimativa dos pesquisadores é de que a cidade de Nova York já tivesse 10,7 mil pessoas infectadas com o coronavírus no início de março, apesar de ter apenas um caso confirmado. Em um mês, a cidade de Nova York, de alta densidade populacional e destino de viajantes do mundo todo, passou de um caso para quase 40 mil e virou epicentro da doença.

No final de março, questionado pela revista Science sobre qual havia sido o erro dos americanos em colocar em prática a preparação contra pandemias, o epidemiologista e integrante da Força Tarefa da Casa Branca para conter o vírus, Anthony Fauci, mencionou o problema com os testes. "Obviamente a testagem é um problema claro que precisará ser avaliado. Por que nós não fomos capazes em mobilizar isso em uma escala ampla?", questionou Fauci. Se o país tivesse adotado a testagem desde o surgimento do primeiro caso, em 21 de janeiro, a avaliação de epidemiologistas é de que abordagens locais com quarentenas cirúrgicas poderiam evitar a disseminação do vírus internamente.

Os EUA tiveram quase dois meses para se preparar para a pandemia, desde o aviso no início de janeiro às autoridades internas sobre o surto na China. Mas, no início do mês de março, os americanos conseguiam fazer menos de seis testes de coronavírus a cada um milhão de habitantes, enquanto a Coreia do Sul fazia quase 2 mil. Para Luciana Borio, ex-diretora para preparação médica e de biodefesa do Conselho de Segurança Nacional, que assessora a Casa Branca e ex-cientista chefe do FDA, agência reguladora de drogas e alimentos nos EUA, o país falhou em não engajar o setor privado desde o início na produção e distribuição de testes. O setor público, segundo ela, não tem a capilaridade e agilidade necessárias para garantir a testagem da população rapidamente.

Ainda segundo ela, durante os últimos três anos o sistema de biodefesa americano deixou de dar atenção à preparação contra epidemias, construído desde o governo George W. Bush, e passou a mirar as atenções aos temas de armas biológicas. "Houve uma mudança de direção. Perdemos tempo nesses três anos", afirma. 

A falta de testes e, portanto, diagnóstico suficiente é vista como um dos fatores que ajuda na propagação da doença – principalmente através dos contaminados assintomáticos. Ao entrevistarem 50 fontes do governo e do setor privado sobre o assunto, o jornal The New York Times informou que a dificuldade de implementar os testes em larga escala passou por  falhas técnicas, obstáculos regulatórios, burocracias comuns e falta de liderança em vários níveis.

Com as medidas de isolamento e ampliação da capacidade de testagem da população, todos os Estados americanos iniciaram planos de reabertura gradual do comércio e retomada das atividades nas últimas duas semanas. O número de novas infecções e hospitalizações pelo vírus caiu nacionalmente, apesar de se manter ainda preocupante em centros urbanos como Chicago e Los Angeles. Assim como foi com o plano de isolamento, a reabertura tem sido bastante diferente entre os Estados americanos, com lugares que têm salões de barbearia funcionando há mais de duas semanas, como a Georgia, enquanto o Distrito de Columbia ainda não iniciou os primeiros passos da retomada. Até agora, 17 Estados viram o número de casos aumentar desde o processo de abertura das atividades e as autoridades de saúde temem uma nova onda de infecções. 

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