Frederico Afitti/EFE
Frederico Afitti/EFE

Estagnação econômica e violência desgastam esquerda no Uruguai

Apesar de ser considerado um país seguro para os padrões sul-americanos, número de homicídios subiu, economia parou e desemprego foi a 9,5%

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2019 | 08h00

MONTEVIDÉU - Os uruguaios vão às urnas amanhã para escolher o sucessor do presidente Tabaré Vázquez. As pesquisas indicam que o opositor Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, de centro-direita, caminha para derrotar Daniel Martínez e encerrar um longo domínio da Frente Ampla, partido de esquerda que governou o Uruguai nos últimos 15 anos. Estagnação econômica e insegurança são razões apontadas para o desgaste da esquerda. 

No primeiro turno, Lacalle Pou terminou atrás de Martínez, mas conseguiu apoio de todos os candidatos adversários – liberais e social-democratas – e passou a ser o favorito para vencer a eleição no segundo turno. As últimas sondagens dão ao opositor cerca de 51% dos votos, enquanto o governista tem aproximadamente 44%.

No topo das preocupações dos uruguaios está a insegurança. O país é considerado seguro no violento contexto latino-americano, mas registrou um aumento de 45% dos casos de homicídio, entre 2017 e 2018. A taxa passou de 5,7 assassinatos entre cada 100 mil habitantes, em 2005, para 8,4 assassinatos entre cada 100 mil habitantes, em 2015.

Além disso, a economia parou de crescer e o desemprego foi a 9,5%, em meio a queixas a respeito do alto custo das tarifas públicas, do preço do combustível e da pressão tributária. “O Uruguai não aguenta mais impostos”, repetiu durante a campanha Lacalle Pou, que prometeu não aumentar a carga tributária e criar US$ 900 milhões de poupança para baixar o déficit fiscal.

Do outro lado, Martínez fala em renovação, para tentar virar o jogo, mas recorreu à velha guarda da Frente Ampla para montar seu gabinete. Ele já anunciou que o ex-presidente José Mujica, de 84 anos, será seu ministro da Agricultura, e o atual ministro da Economia, Danilo Astori, de 79 anos, ocupará o cargo de chanceler – decisões que não foram bem recebidas por aliados.

Para o cientista político Diego Luján, da Universidade da República, a eleição se tornou um referendo sobre os governos de esquerda. “Quando um partido fica tanto tempo no poder, podendo levar sua agenda adiante sem necessidade de acordos, a situação política acaba sendo responsabilidade desse partido”, afirmou.

Em 2014, Lacalle Pou, em sua primeira tentativa de ser presidente, foi derrotado por Tabaré, que ainda tinha conquistas políticas para exibir. Segundo Luján, a situação agora é diferente. “Há poucas conquistas neste terceiro governo da Frente Ampla”, disse.

Nos últimos 15 anos, os governos de esquerda aprovaram legislações emblemáticas, como a lei do aborto (2012), o casamento entre pessoas do mesmo sexo (2013) e a legalização da maconha (2013). Mas, do mesmo jeito que a Frente Ampla foi identificada com os avanços, também arcou com os retrocessos. 

Estabilidade

Nos próximos dias, o Uruguai deve ocupar uma posição cada vez mais incomum na América do Sul. Enquanto em muitos países a política foi dominada pela violência, confrontos e antagonismos radicais, os uruguaios têm demonstrado uma estabilidade incomum. 

“O melhor do Uruguai é sua política: as raízes de suas instituições e partidos, sua cultura cívica. A democracia deve ser nossa principal exportação”, disse o cientista político Adolfo Garcé. Segundo ele, ao contrário do que acontece em outros países, no Uruguai, ninguém duvida que os votos sejam bem contados e o resultado seja aceito por ambas as partes. 

Garcé diz que o civismo uruguaio é resultado do aprendizado deixado pelas guerras civis que devastaram o país no século 19, quando o Partido Colorado enfrentava revoluções armadas do Partido Nacional, que defendia a ampliação da participação política, o voto secreto e o respeito pelas minorias. 

“Hoje, o Partido Nacional e o Colorado não se matam mais em campos de batalha, mas são aliados contra a esquerda”, afirma Garcé. 

Para Mariana Pomies, diretora da consultoria Cifra, a aliança dos outros partidos contra a esquerda deve ser suficiente para garantir a alternância de poder no Uruguai. “Lacalle Pou deve obter uma vitória clara, com cerca de 170 mil votos a mais que Martínez. O sentimento entre os eleitores coincide com o das pesquisas”, disse Mariana ao canal Teledoce. / AFP e REUTERS

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