Martial Trezzini/Keystone via AP
Martial Trezzini/Keystone via AP

‘Estamos dispostos a virar a página’

Ex-senadora, capturada pela guerrilha enquanto concorria à presidência, afirma que a paz no país é ‘alcançar um oásis’

Entrevista com

Ingrid Betancourt, ex-refém das Farc

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA

24 de setembro de 2016 | 17h00

Ela foi o símbolo das vítimas da guerra civil de 52 anos na Colômbia. Seu sequestro ganhou notoriedade internacional e mobilizou governos em todo o mundo. Agora, a colombiana Ingrid Betancourt insiste que chegou a hora de “virar a página”, começando pelo acordo de paz que será assinado amanhã entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), principal guerrilha do país - e responsável pelo sequestro de Ingrid. 

Em entrevista exclusiva ao Estado, a ex-candidata à presidência colombiana avalia os principais desafios do futuro, mas comemora o acordo e aponta que a “sociedade terá Justiça”.

Ingrid, que vive entre Londres e Paris, esteve em Genebra nesta semana para encontros no Conselho de Direitos Humanos da ONU. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como a sra. se sentiu diante desse acordo?

Não foi uma surpresa, já que nos últimos meses já me preparava para isso. Mas, claro, uma vez consolidado, foi uma enorme emoção. No fundo, esse é o acordo que devolve à Colômbia a capacidade de sonhar. É a esperança que volta. 

Por que essa negociação não fracassou, diferentemente das anteriores?

Foi uma conjuntura muito específica e uma sequência de eventos. Primeiro, tivemos o fortalecimento das Forças Armadas na Colômbia. Não apenas militar, mas moralmente. Ela mudou o trato com a população. (Os militares) deixaram de ser inimigos de parte da população para ser seus protetores. Ao mesmo tempo, nas Farc, vimos sérias derrotas, com mortes de líderes. 

A sra. foi uma das vítimas dessa guerra. Qual é o desafio desse acordo em garantir a Justiça para quem sofreu?

Nunca haverá Justiça individual para nós. Existem três fatores nesse desafio de Justiça nesse acordo. O primeiro é o da Justiça moral. A obrigação de dizer a verdade, como no caso do governo ao limpar as mãos de sua responsabilidade no meu caso. Há também a Justiça social, ou seja, a sociedade entender o sofrimento das vítimas. Isso não será atingido facilmente. Na Colômbia, as vítimas são ainda vistas como culpadas pelo que ocorreu com elas. A legitimidade da dor é ainda difícil. Há uma indiferença em relação às vítimas. O terceiro aspecto é a recuperação física. Para uma vítima, a guerra acaba com uma vida. 

Mas, então, o acordo significa que a impunidade venceu?

Não. Nesse acordo, não há justiça individual. Mas não há impunidade. São dois aspectos diferentes. Eu, como vítima, faço esse sacrifício, pois entendo que é muito importante um acordo de paz para os colombianos. Todos estamos dispostos a virar a página, com a condição de que haja a paz. Mesmo sem essa Justiça individual, os chefes que cometeram crimes de guerra vão pagar por isso. Pode-se debater se as penas serão severas ou não. Mas não haverá impunidade. 

Qual será o maior desafio para que o acordo prospere?

As regras vão mudar para a sociedade e ela terá de se adaptar. Forças militares, que eram as inimigas da guerrilha, hoje terão de garantir a segurança daquelas pessoas. Trata-se de uma mudança de mentalidade e de como a sociedade vai se relacionar com eles. O Estado terá de construir alternativas para os guerrilheiros, que vão querer entrar na sociedade. 

Como?

Oferecendo trabalho, educação e uma remuneração que seja igual ou superior à que eles tinham na guerra. Isso envolverá mecanismos de estímulo e empresários dando exemplos. 

Qual será o maior desafio para a guerrilha?

Não cair nos mesmos erros da sociedade que ela criticava, ou seja, a corrupção. Uma das justificativas da guerrilha era de que lutava contra a corrupção dos grupos no poder. Agora, essa guerrilha vai precisar ser a força transformadora e uma força política que seja exemplo de limpeza. Nos últimos 20 anos, a onda na América Latina de governos da esquerda democrática foi muito importante. Ela foi fundamental para o amadurecimento democrático na região. Hoje, essas sociedades estão cobrando justamente esses governos pela corrupção. É uma transformação profunda. 

O Brasil teve um papel importante na questão das Farc?

Sim, foi uma relação importante. Talvez não como a da Venezuela, que era óbvia. Mas os vizinhos da Colômbia, por não quererem que o conflito entrasse em seus territórios, trataram de não ser afetados. Mas, ao se declarar neutros, foram permissivos com os guerrilheiros. Em diversas ocasiões, a diplomacia colombiana foi obrigada a tratar desse assunto com os vizinhos. Mas isso é parte do passado.

E quais são seus planos? Pensa em voltar à Colômbia para se candidatar a algum cargo?

Eu queria um tempo para pensar. Esses acontecimentos estão muito ligados à minha vida pessoal. Isso vai exigir que eu reflita, inclusive com meus filhos. Mas eu não queria fechar as portas. Quando deixei a Colômbia, depois de ser liberada, disse que não voltaria à política. Hoje, não quero dizer não. 

O acordo de paz foi uma segunda libertação?

Não diria uma segunda libertação. Mas foi chegar ao sossego. Chegar ao oásis. 

A paz leva a sra. a reavaliar algum momento do cativeiro?

O passado não se reescreve. Talvez eu pense alguma coisa de forma diferente. Mas o importante é que vai haver Justiça para a sociedade.

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