Estamos entrando no jogo de Fidel Castro

Existem cinco teorias sobre a súbita reaparição do líder cubano na mídia, mas seja lá qual for a verdade, a imprensa está fazendo exatamente o que ele quer

, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2010 | 00h00

Eis uma pergunta que vem sendo feita por todos aqueles que acompanham as notícias vindas de Cuba: o que Fidel Castro está tramando? Desde que fez sua primeira aparição pública depois de quatro anos, no mês passado, o ditador oficialmente aposentado de Cuba, que acabou de completar 84 anos, não parou de se mostrar em público e de aparecer em manchetes.

Proclamando-se totalmente recuperado da doença intestinal que o forçou a transferir a presidência para seu irmão, Raúl Castro, em 2006, Fidel já apareceu dezenas de vezes em público desde o dia 7 de julho, quando foi fotografado visitando o Centro Nacional de Investigações Científicas.

O que está ocorrendo? Ele estaria tentando corroer o governo de seu irmão Raúl ou a intenção é ajudá-lo? Há pelo menos cinco importantes teorias sobre o que está motivando esse repentino retorno à cena de Fidel Castro.

Teoria n.º1: a finalidade de sua volta é enviar uma mensagem vigorosa para os cubanos, incluindo seu irmão, para não se desviarem do comunismo radical, no momento em que as dificuldades econômicas do país levam muita gente na ilha a pensar em reformas econômicas orientadas para o mercado. "Castro está tentando reafirmar dois dos principais pilares da revolução: o antiamericanismo e o internacionalismo", escreveu Jaime Suchlicki, diretor do Instituto de Estudos Cubanos de Miami, em um estudo intitulado O que Fidel Castro está tramando?

Teoria n.º2: Fidel está procurando apoiar Raúl, enviando uma mensagem vigorosa para os radicais do Partido Comunista Cubano de que apoia as reformas econômicas limitadas decididas por seu irmão. "Aparecendo muito, como se observa, Fidel Castro estaria dizendo aos ortodoxos do partido: "Olhem, estou lúcido, estou no comando, sei o que se passa no mundo, apoio Raúl e não quero que ninguém faça alguma coisa contra ele"", foi o que me disse o dissidente cubano Guillermo Fariñas, em uma entrevista por telefone de Santa Clara, em Cuba.

Teoria n.º3: Fidel está tentando arrebatar a atenção da mídia internacional para ofuscar as notícias sobre a morte do prisioneiro político Orlando Zapata Tamayo, no início do ano, e os consequentes protestos de dissidentes. Até sua reaparição, as noticias na imprensa internacional sobre Cuba se concentravam na morte de Zapata Tamayo e no movimento dissidente cubano. Agora, estão centradas na figura do líder cubano.

Teoria n.º 4: Fidel Castro está tentando atrair para si o foco da mídia internacional para desviar a atenção do mundo do recente acordo firmado por Cuba com a Igreja Católica para a libertação de 52 presos políticos e a posterior liberação, ou melhor, a deportação forçada, de 21 deles.

Ditadura hereditária. Além de procurar minar a propaganda vitoriosa dos dissidentes, Fidel estaria querendo impedir que os cubanos na ilha pensem que a libertação desses prisioneiros é um sinal de fraqueza do governo. Na cabeça dos irmãos Castro, isso poderia insuflar os oposicionistas pacíficos a intensificar seus protestos contra o governo. "Como bom político que é, Fidel Castro deseja que, quando se referirem a Cuba no exterior, as pessoas falem dele e não dos prisioneiros políticos", disse Fariñas.

Teoria n.º5: é uma questão de ego. Fidel, o perfeito leninista narcisista, pode não estar suportando mais o papel de editorialista de assuntos internacionais invisível ao qual se limitou nos últimos quatro anos. Agora que sua saúde melhorou, ele acha que só pode ajudar voltando ao palco principal.

Minha opinião? Todas as cinco teorias têm um fundo de verdade, mas acho que a resposta seria uma combinação das três últimas. Não foi coincidência o fato de a primeira aparição pública de Fidel, no Centro Nacional de Investigações Científicas, ter ocorrido em 7 de julho, mesmo dia em que a Igreja anunciou que o governo havia concordado com a libertação de 52 prisioneiros políticos.

Também não foi coincidência o fato de sua primeira aparição na TV cubana ter sido em 12 de julho, poucas horas antes de o primeiro grupo de prisioneiros políticos chegar à Espanha e começar a falar para o mundo sobre os horrores das prisões cubanas.

Fidel Castro procura arrebatar a atenção da mídia internacional, desviando-a do que suas vítimas estão dizendo sobre sua ditadura militar hereditária. E todos nós estamos caindo nessa armadilha, concentrando nossos olhares no líder cubano. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER E COMENTARISTA POLÍTICO

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