Steve Elliott via The New York Times
Steve Elliott via The New York Times

'Estamos sendo invadidos?' Barcos americanos no Alasca enfrentam agressão da Rússia

Operações militares russas dentro da zona econômica dos EUA na costa do Alasca em agosto foram as mais recentes de uma série de encontros no Pacífico Norte e no Ártico

Mike Baker / The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2020 | 15h57

A tripulação do Bristol Leader estava traçando sua longa linha de pesca de bacalhau bem dentro do território de pesca dos Estados Unidos no Mar de Bering quando uma voz estalou no rádio e começou a emitir comandos: o navio estava em perigo e precisava se mover.

Os avisos, vindos em uma mistura de russo e inglês, tornaram-se mais urgentes. Havia um submarino próximo, disse a voz. Mísseis estavam sendo disparados. Deixe a área, recomendou.

Outros navios de pesca dos EUA que estavam espalhados pela região estavam recebendo mensagens semelhantes. O capitão Steve Elliott ficou perplexo na embarcação Vesteraalen enquanto três navios de guerra russos passavam dando suas próprias ordens.

No navio Blue North, comandos de um avião russo levaram o capitão David Anderson a entrar em contato com a Guarda Costeira dos EUA, perguntando como proteger sua tripulação de 27 pessoas. 

“Foi assustador, para dizer o mínimo”, disse o capitão Anderson. “A resposta da Guarda Costeira foi: apenas faça o que eles dizem.”

Os russos, que realizavam um exercício militar conhecido como Ocean Shield que envolvia cerca de 50 navios de guerra e 40 aeronaves operando em todo o Mar de Bering, foram inflexíveis e seus avisos ficaram mais intensos. Autoridades americanas disseram que um submarino russo lançou um míssil de cruzeiro do Mar de Bering naquele dia.

As operações militares russas em agosto dentro da zona econômica dos Estados Unidos na costa do Alasca foram as mais recentes de uma série de encontros no Pacífico Norte e no Ártico, que continuam a atrair novo tráfego comercial e militar.

Presença russa no Ártico 

Este ano, os militares russos conduziram um novo navio quebra-gelo de propulsão nuclear direto para o Pólo Norte, lançaram pára-quedistas em um arquipélago alto do Ártico para realizar uma batalha simulada e repetidamente lançaram bombardeios próximos do espaço aéreo dos EUA.

À medida que os mares aquecidos pela mudança climática abrem novas oportunidades para a exploração de petróleo e rotas comerciais, a Guarda Costeira dos EUA agora se vê monitorando uma série de novas atividades: navios de cruzeiro prometendo uma viagem por águas que poucos viram, navios de pesquisa tentando entender a paisagem em mudança, petroleiros carregando gás e navios de carga testando novas passagens com as quais os marinheiros dos séculos anteriores só podiam sonhar.

As operações da Rússia no Ártico significam uma presença militar crescente na porta norte da América. O contra-almirante Matthew T. Bell Jr., comandante do distrito da Guarda Costeira que supervisiona o Alasca, disse que não foi uma surpresa ver as forças russas operando no Mar de Bering durante o verão. "A surpresa foi o quão agressivo eles se tornaram."  

No ar, os jatos dos EUA no Alasca normalmente lutam para interceptar cerca de meia dúzia de aeronaves russas que se aproximam por ano. Mas este ano o número subiu para 14 - próximo de estabelecer um recorde desde a era da Guerra Fria. No caso mais recente, no mês passado, os EUA responderam à abordagem de dois bombardeiros russos e dois caças russos que chegaram a 55 quilômetros da costa do Alasca.

Os russos reformaram e restauraram dezenas de postos militares na região ártica e fazem planos para controlar as rotas de navegação emergentes que trariam tráfego pelo Estreito de Bering entre o Alasca e a Rússia.

Neste verão (norte), os militares russos operaram no Mar de Bering, maior área de pescaria dos EUA, onde os pescadores encontram o caranguejo-rei vermelho e jogam redes cheias com 200 toneladas de pollock em seus conveses. A área é o caminho dos EUA para as águas do Ártico, onde empresas de extração trabalharam durante anos para capturar os bilhões de dólares em recursos de petróleo e gás aprisionados no fundo do mar.

As águas territoriais dos EUA se estendem por 12 milhas náuticas (22km da costa do país), mas os navios comerciais operam ainda mais longe dentro da zona econômica exclusiva, um território que se estende por cerca de 200 milhas (370km) da costa no qual o país pode pescar ou usar recursos naturais sem competição estrangeira, mas não pode proibir a passagem de navios internacionais.

Os líderes militares russos elogiaram os exercícios no Mar de Bering como diferentes de todos os que já haviam sido feitos na região. Eles disseram que o objetivo do esforço era preparar forças para garantir o desenvolvimento econômico na região do Ártico, e as autoridades americanas reconheceram que os russos têm o direito de transitar pelas águas.

Disputas sobre atividades em zonas econômicas exclusivas em todo o mundo não são incomuns, especialmente na lucrativa região do Ártico, onde várias nações contestaram a extensão de seus direitos de dominar as atividades econômicas marítimas.

Os jatos no Alasca embarcaram várias vezes neste ano para interceptar aeronaves russas que se deslocavam em direção ao espaço aéreo dos EUA. Mas jatos decolando de bases no interior podem levar mais de 90 minutos para chegar à costa do Alasca, disse o major-general Scott Clancy, oficial canadense que é diretor de operações do Norad.

O general Clancy disse que os encontros foram profissionais. No episódio no mês passado, as quatro aeronaves russas vagaram na área por cerca de 90 minutos e nunca cruzaram o espaço aéreo dos EUA. Mas o general Clancy disse que estava claro que os russos estavam testando as capacidades do Norad e demonstrando as suas próprias, aumentando a frequência e também a complexidade de suas abordagens.

“Este adversário - este competidor, a Rússia - avançou em todas as frentes”, disse ele. “Nós nos encontramos em outra era de competição de grandes potências. A Rússia obviamente quer ser um competidor nisso."

“Estamos em um ponto crucial na linha do tempo do Ártico”, disse ele em uma convenção recente da Federação dos Nativos do Alasca, da qual muitos membros residem em aldeias remotas espalhadas pela região norte. O general Krumm disse que os EUA precisariam investir em operações, equipamentos e treinamento para se preparar para o ambiente em mudança.

O Alasca, disse ele, tem sido historicamente visto como uma base para projetar o poder americano em outras partes do mundo, mas a missão está mudando. “O que temos de fazer agora é estar preparado para lutar aqui e defender aqui”, disse ele. 

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