''Estamos sob enorme pressão''

Crises em países do norte da África e restrições a imigrantes põem Acnur e agências humanitárias em dificuldade, diz português

Lisandra Paraguassu, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2011 | 00h00

ENTREVISTA - ANTÓNIO GUTERRES, Comissário da ONU para refugiados

O alto comissário das Nações Unidas para Refugiados, o português António Guterres, admite que 2011 tem sido um ano difícil para os refugiados no mundo. Milhões de pessoas foram deslocadas por conflitos políticos, como os desencadeados pela primavera árabe e a disputa pós-eleitoral na Costa do Marfim, e econômicos, como a crise alimentar no Chifre da África.

Ele chega ao Brasil na semana que vem para uma visita de reconhecimento, de agradecimento e, como sempre, para pedir mais ajuda para as pessoas deslocadas, pois "a generosidade não é proporcional aos recursos". No primeiro contato com o governo da presidente Dilma Rousseff, Guterres quer ampliar a ação brasileira na recepção de refugiados. Ele deve chegar amanhã a Brasília, onde fica até quarta-feira. A seguir, principais trechos da entrevista.

O Acnur está tendo condições de trabalhar adequadamente com as crises nos países árabes e a fome no Chifre da África?

Esse tem sido um ano particularmente difícil. Tivemos primeiro a crise na Costa do Marfim, com mais de 180 mil refugiados que foram para países vizinhos. Depois, a crise na Líbia, em que mais de 1 milhão de pessoas cruzaram a fronteira do Egito e da Tunísia. Temos ainda na Síria e no Iêmen situações muito complexas. Mas a situação do Chifre da África é a mais grave crise humana de todas as que tivemos. São 12 milhões de pessoas atingidas pela fome, particularmente na Somália, um país em que a situação de conflito torna muito mais difícil a ajuda humanitária. Tudo isso colocou o Acnur e outras agências humanitárias sob uma enorme pressão.

80% dos refugiados ou deslocados estão hoje abrigados em países em desenvolvimento. Não há uma dificuldade de países desenvolvidos para recebê-los?

É verdade que 80% dos refugiados estão no mundo em desenvolvimento e é verdade também que a generosidade não é proporcional aos recursos. Na crise da Costa do Marfim, a Libéria e o Gana abriram suas fronteiras. Agora, na Somália, o Quênia, a Etiópia e o Djibuti abriram suas fronteiras. Nem sempre essa atitude existe no mundo desenvolvido. Nós temos assistido a um aumento das reações negativas em relação à imigração e aos estrangeiros de um modo geral. Em certos países há, até mesmo, um recrudescimento da xenofobia e do racismo - por vezes com consequências trágicas, veja o que aconteceu na Noruega. Essa é para nós uma enorme fonte de preocupação.

O sr. diria que essa tem sido uma posição comum contra imigrantes nesses países?

Não é generalizado, ainda existem países desenvolvidos que mantêm uma política muito generosa em matéria de asilo, mas temos assistido com preocupação, nos últimos anos, a um aumento de políticas migratórias restritivas. A esse respeito eu gostaria de louvar o Brasil, que tem uma das legislações mais aperfeiçoadas do mundo em matéria de asilo, uma política extremamente generosa, quer na recepção, quer na reinserção de refugiados provenientes de zonas críticas. O Brasil serve de exemplo, particularmente quando assistimos a essas tendências preocupantes de aumento de xenofobia e racismo que nós gostaríamos de ver extintos de uma vez por todas.

A que o sr. atribui o crescimento da xenofobia nos países desenvolvidos?

Isso varia de país para país, mas olhando para o quadro europeu acho que há a combinação de dois aspectos: em primeiro lugar, um claro envelhecimento da população, o que torna mais propício o desenvolvimento do medo e de outros fatores emocionais, sobretudo em um quadro de insegurança global. E também a crise econômica, o aumento do desemprego, que tem sempre um efeito negativo na opinião pública em relação aos imigrantes.

O envolvimento do Brasil com o Acnur tem aumentado, mas existem apenas 4,5 mil refugiados no País. O que mais o Brasil pode fazer?

O Brasil não só recebeu refugiados como passou a doar para o Acnur. Muitos daqueles que estão hoje no governo no Brasil foram refugiados no passado. Por isso compreendem bem essa situação. Um quadro que representa as responsabilidades do país.

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