Richard Drew/AP
Richard Drew/AP

Estátua da Liberdade celebra libertação dos escravos, não imigrantes, diz novo museu

Novo Museu da Estátua da Liberdade em Nova York revisita aspecto esquecido da história do símbolo da cidade

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2019 | 20h08

NOVA YORK - O novo Museu da Estátua da Liberdade em Nova York revelou alguns segredos: a tocha original da estátua, que foi substituída nos anos 80, uma réplica não oxidada da face da Lady Liberty e registros de imigrantes descrevendo a visão do monumento de 93 metros. 

O museu também revisita um aspecto há muito esquecido da história da estátua: a Lady Liberty foi originalmente projetada para celebrar o fim da escravidão, e não a chegada dos imigrantes aos EUA. A Ilha Ellis, estação de inspeção pela qual passaram milhões de imigrantes, só foi aberta seis anos após a estátua ser inaugurada em 1886.  A placa com o famoso poema de Emma Lazarus só foi adicionada em 1903. 

"Um dos primeiros significados (da estátua) tem a ver com a abolição, mas isso não pegou", disse Edward Berenson, um professor de história da New York University em entrevista ao Washington Post. Ele também é autor do livro The Statue of Liberty: A Transatlantic Story (A Estátua da Liberdade: Uma História Transatlântica, na tradução livre). 

O monumento, que recebe cerca de 4,5 milhões de visitantes por ano, foi inicialmente pensado por um homem chamado Édouard de Laboulaye. Na França, ele era um especialista sobre a Constituição dos EUA e, no fim da Guerra Civil Americana, presidiu um comitê que levantou dinheiro e o distribuiu para os escravos recém-libertados, segundo Yasmin Sabina Khan, autora de Enlightening the World: The Creation of the Statue of Liberty (Iluminando o mundo: a criação da Estátua da Liberdade, na tradução Livre).

Laboulaye amava os EUA - com frequência fazia discursos enaltecendo o país registrados por um correspondente do New York Times em 1867: "Um banquete da liberdade que move as almas dos homens para seu interior mais profundo". Ele passou a amar o país ainda mais quando a escravidão foi abolida. 

Em junho de 1865, Laboulaye organizou uma reunião de abolicionistas franceses em sua residência de verão em Versailles, segundo Berenson. "Eles conversaram sobre a ideia de criar algo como presente comemorativo que reconhecesse a importância da libertação dos escravos", disse o professor. 

Laboulaye fez uma parceria com o escultor Frédéric-Auguste Bartholdi, que passou a trabalhar em um modelo. Um primeiro esboço, de 1870, mostra a Lady Liberty com seu braço direito na posição conhecida, com o braço erguido e iluminando o mundo com a tocha. Mas em sua mão esquerda ela segura correntes quebradas, uma homenagem ao fim da escravidão (um modelo de terracota ainda sobrevive no Museu da Cidade de Nova York). 

Uma teoria aponta que seu rosto foi adaptado de uma estátua que Bartholdi propôs para o Canal de Suez, significando que seu rosto poderia se assemelhar ao de uma mulher egípcia. 

No modelo final, Lady Liberty tem na mão esquerda a Declaração da Independência dos Estados Unidos com a inscrição de 4 de julho de 1776, em algarismos romanos. As correntes quebradas ainda estão lá, mas sob seus pés, "não tão visíveis", disse Berenson. 

Bartholdi terminou de construir a estátua em Paris em 1884. Dois anos depois, ele supervisionou sua reconstrução em Nova York. A Liberdade Iluminando o Mundo foi "revelada" em 28 de outubro de 1886, mas isso não envolveu um destaque grande nos jornais. Houve fogos de artifício, uma parada militar e Bartholdi subindo ao topo para hastear uma bandeira francesa do rosto de sua musa. Até então, “o significado original da abolição da escravidão tinha se perdido”, disse Berenson. / W. POST 

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