REUTERS/Matthew Childs
REUTERS/Matthew Childs

Estátua de um negociante de escravos cai enquanto Reino Unido confronta sua história de racismo

Imagem de bronze foi jogada no porto de Bristol durante protestos contra o passado colonial e em solidariedade ao movimento dos EUA

Mark Landler / The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2020 | 03h00

LONDRES - Com uma mistura de fúria represada e súbito júbilo, os manifestantes que derrubaram no domingo, 7, uma estátua de bronze de Edward Colston, um negociante de escravos do século 17, em Bristol, Inglaterra, evocaram as multidões furiosas que derrubaram estátuas de Saddam Hussein, de Stalin e até do rei George III.

Mas, quando esses manifestantes jogaram o monumento a Colston no porto de Bristol, eles também obrigaram o Reino Unido a pensar em como confrontar sua história racista em um momento em que muitas dessas mesmas perguntas são feitas nos Estados Unidos. Assim, um paralelo mais exato com os acontecimentos de domingo não deve ser com a derrubada das estátuas de Saddam ou Stalin, e sim com a remoção de estátuas de generais da Confederação das praças de cidades do sul dos EUA.

Agora, os manifestantes estão se voltando contra estátuas de Cecil Rhodes, símbolo ainda mais potente do passado britânico colonial e racista. “Nos três anos mais recentes, tivemos um debate a respeito das estátuas no Reino Unido", disse Afua Hirsch, colunista do Guardian que escreve e comenta a respeito de questões raciais. “Parece que agora o debate acabou: as pessoas estão simplesmente agindo. É algo inspirado pelo movimento que vemos nos EUA.”

A queda da estátua encerrou uma semana turbulenta e às vezes violenta de protestos em Londres e outras partes do Reino Unido. Começaram como demonstração de solidariedade aos americanos protestando contra a violência policial depois que um oficial branco matou o negro George Floyd em Minneapolis ao manter-se ajoelhado sobre o pescoço dele por quase nove minutos.

O caos se tornou um teste para o primeiro-ministro Boris Johnson, cuja resposta instintiva foi prometer um rápido retorno à lei e à ordem.

Reação dura

Johnson alegou que os protestos, ainda que geralmente pacíficos, tinham sido “subvertidos pela bandidagem". Sua secretária do Interior, Priti Patel, disse que “cenas de arruaça são completamente inaceitáveis", e prometeu dobrar a sentença de pessoas condenadas por atacar policiais e outros funcionários de emergência durante as manifestações. Ela também lamentou que as pessoas estivessem se manifestando nas ruas quando deveriam estar em casa, mantendo o distanciamento social para deter a disseminação do coronavírus.

De acordo com observadores, longe de acalmar a instabilidade, a linguagem dura do governo teria alimentado as frustrações, particularmente entre os negros e outros grupos étnicos no Reino Unido que já se manifestaram antes, como em 2011, depois que a polícia matou a tiros o negro Mark Duggan, de 29 anos, episódio que resultou em protestos violentos em todo o país.

Como ocorre nos EUA, o coronavírus afetou desproporcionalmente os negros. A quarentena de três meses, da qual o Reino Unido começa agora a emergir, sufocou a economia e deixou muitos dos manifestantes de licença, diante de um futuro incerto.

Armamento policial 

Diferentemente dos EUA, a polícia britânica não é equipada com armamento pesado nem equipamento militar. Muitos policiais nem mesmo andam armados. Após anos de cortes orçamentários decorrentes das políticas de austeridade de governos conservadores, a polícia em Londres chama mais atenção por sua raridade do que por sua força bruta.

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

Ainda assim, há um histórico bem documentado de negros mortos sob custódia da polícia no Reino Unido, de acordo com Hirsch. Os policiais raramente são julgados, segundo ele. Os negros têm três vezes mais chance de morrer nas mãos da polícia do que os brancos, de acordo com os especialistas; são também desproporcionalmente numerosos na população carcerária britânica.

Parte dessa desconfiança foi vista em Londres no domingo. Ainda que a maioria dos manifestantes tenha se limitado a gritos pacíficos como “Não consigo respirar” - ecoando algumas das últimas palavras de Floyd - alguns arremessaram garrafas e sinalizadores contra a polícia, que tentava mantê-los afastados da residência do primeiro-ministro na Downing Street.

Os manifestantes picharam o monumento Cenotáfio, em homenagem aos mortos da 1.ª Guerra, enquanto um deles subiu no pedestal e tentou sem sucesso atear fogo à bandeira britânica. Outro manifestante depredou uma estátua de Winston Churchill, riscando seu nome e escrevendo “era racista” logo abaixo.

Na segunda-feira 8, a Scotland Yard disse que 35 policiais foram feridos nos confrontos. Um foi ferido na cabeça e outro, no ombro, por causa de uma garrafa arremessada. A polícia deteve 36 pessoas antes de as multidões serem dispersadas.

Em comparação, em Bristol, a polícia assistiu impassível enquanto manifestantes começaram a jogar cordas em torno da estátua de Edward Colston. Os manifestantes arrancaram a estátua e dançaram sobre ela antes de rolá-la pela rua até o porto, empurrando-a para dentro da água.

O prefeito e o chefe de polícia de Bristol lamentaram a forma com que a estátua foi removida, mas não derramaram nenhuma lágrima pelo rechaço à memória de Colston. 

Substituição de estátua

Negociante que dá nome a escolas e hospitais em Bristol, Colston lucrou muito com a escravidão, transportando pelo menos 80 mil pessoas da África Ocidental para o Caribe. Quase 20 mil morreram durante as viagens.

Há anos que os críticos fazem campanha pela remoção da estátua de bronze, erguida em 1895. Agora que ela se foi, o plano é substituí-la pela estátua de Paul Stephenson, trabalhador negro que comandou um boicote à companhia de ônibus de Bristol em 1963 para obrigá-la a encerrar a discriminação na contratação de trabalhadores.

"Ainda que fique desapontado em ver a população danificando uma estátua, entendo por que fizeram isso", disse à BBC Andy Bennett, superintendente de polícia de Somerset and Avon. “É muito simbólica.”

O prefeito de Bristol, Marvin Rees, disse que a estátua era uma “afronta” à cidade. Rees, filho de pai jamaicano e mãe britânica, disse que a cidade provavelmente recuperaria a estátua do fundo do porto para instalá-la em um museu. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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