EFE/ Martin Alipaz
EFE/ Martin Alipaz

'Este não será o governo de Evo Morales'

Presidente eleito da Bolívia diz que será ele quem tomará as decisões e fará seu país avançar

Entrevista com

Luis Arce, presidente eleito da Bolívia

Gabriel Romano / EFE, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2020 | 23h36

LA PAZ  - Um governo apoiado por um "renovado" Movimento ao Socialismo (MAS) e com a intenção de "governar para todos" são as bases propostas por Luis Arce, que no domingo foi eleito presidente da Bolívia, em entrevista concedida à agência EFE. Arce disse que não rejeita a história de Evo Morales como “mentor” e “líder histórico” de seu partido, mas garante que no futuro governo quem mandará é ele, o presidente eleito. 

Você já conversou com Evo Morales (que está na Argentina)?

Claro, conversamos com ele. Evo ficou feliz. Temos uma agenda muito diferente.

Qual será o estilo de governo?

No nosso governo, incluiremos mais jovens. É o MAS 2.0, um MAS renovado. Devemos continuar algumas coisas boas que fizemos, mas é claro, temos de modificar outras.

Em um de seus primeiros discursos, o sr. falou em redirecionar o "processo de mudança". O que isso significa?

Tem de haver mais comunicação com as organizações sociais, reuniões regulares e permanentes. É preciso dar espaço a setores que antes não tinham acesso, como profissionais e jovens. Se possível, deixar que profissionalismo e juventude andem juntos.

Depois dos resultados da eleição, o MAS ainda acha que Evo é insubstituível?

Temos de diferenciar. Uma coisa é a liderança do ex-presidente, porque sempre reconheceremos o líder histórico que ele foi, o mentor desse processo de mudança que a Bolívia vive desde 2006. Mas a questão das eleições é outra coisa. Elas tiveram como base as organizações sociais, a militância do MAS e o povo boliviano, que queria uma transformação.

A pergunta que todos fazem é se Evo vai governar. O que o sr. diz sobre isso?

Isso é o que os partidos de direita inventaram para tirar nossos votos, para tentar capitalizar em cima de algumas pessoas que não gostam do Evo, seja por ódio, racismo ou o que for. Nós vamos governar. Este não será o governo de Evo. Será o meu governo. E no meu governo faremos a Bolívia avançar.

Como mostrar que o MAS não está envolvido em casos de violência?

Quando foi que o MAS entrou no governo por meio da violência? Nunca. Entramos pelo voto, por meio de eleições, com democracia. Quem entra com violência e ataca o povo boliviano é a direita, os partidos de direita.

Como você trabalharia para uma reconciliação?

O que temos dito desde o primeiro dia é que vamos governar para todos. Nosso governo será de todos. Não somos nós os violentos. Não pagamos para dar um golpe de Estado. Mesmo assim, entendemos que nossos adversários são bolivianos e chega de brigar por questões e interesses estritamente pessoais ou de grupo. Vamos construir todas as pontes que forem necessárias para que eles vejam que existe a possibilidade de governar para todos.

Quem lhe telefonou para parabenizar?

Recebi ligações de muita gente. Do presidente Alberto Fernández (da Argentina), Andrés Manuel López Obrador (México), Daniel Ortega (Nicarágua), Sebastián Piñera (Chile), Mario Abdo Benítez (Paraguai) e vários outros.

A política externa da Bolívia deve ser redirecionada?

Vamos restabelecer todas relações que foram cortadas. O governo interino agiu muito ideologicamente, privando o povo boliviano do acesso à medicina cubana, à medicina russa, aos avanços na China. Por uma questão puramente ideológica, a população tem sido exposta de forma desnecessária e prejudicial. Abriremos a porta a todos os países. A única exigência é que nos respeitem e respeitem nossa soberania, nada mais. Todos os países, não importa o tamanho, a única exigência é que nos respeitem como iguais. Se for assim, não há problema.

A chanceler interina, Karen Longaric, disse que o novo governo não tem competência para lidar com as dificuldades relacionadas com o México, que acolheu ex-ministros de Evo.

A chanceler comete uma ilegalidade ao não aplicar a lei internacional para asilados. Ela deveria ter emitido salvo-condutos. Pelas regras internacionais, ela cometeu erros, simplesmente por uma questão ideológica. Eu lamento.

O que acontecerá com seus ex-colegas que estão na embaixada mexicana?

Vamos dar salvo-conduto, conforme solicitado. Eles definirão o que querem fazer. Não posso lhes dizer o que fazer. Como solicitaram um salvo-conduto, em aplicação das normas internacionais, vamos lhes dar.

Você vai trocar embaixadores com México e Espanha?

Claro que sim. Precisamos restabelecer essas relações. Temos de nos relacionar com todos os países que quiserem ter um relacionamento conosco. Também falei com o premiê da Espanha, Pedro Sánchez. Um bom sinal seria trocar embaixadores com a Espanha, o que também vale para o México. Foi um abuso o que o atual governo fez com a embaixadora mexicana (María Teresa Mercado), que para mim fez um excelente trabalho na Bolívia. Além disso, vou pedir que o governo mexicano nos envie o mesmo embaixador que estava aqui antes do golpe.

Quais serão suas principais medidas econômicas?

Apresentaremos um plano de industrialização com substituição de importações. Faremos um programa de segurança com soberania alimentar. Pretendemos promover o turismo interno, intensificar o processo de industrialização de lítio, ferro, exportar energia elétrica, continuar com a industrialização por meio da produção de gás. E continuaremos com nossa estratégia de manter os recursos naturais nas mãos do Estado.

 

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