Yuri Cortez/AFP
Yuri Cortez/AFP

Estilista, franco-atiradora e 'disposta a dar a vida' pelo chavismo

Sem seu uniforme, é maquiadora e estilista, faz trabalho social em sua comunidade e compõe um grupo de motoristas. Nas horas vagas, ela gosta de tricotar

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2021 | 10h00

CARACAS - Com o rosto cheio de lama e uniforme de camuflagem, Ismaira Figueroa mantém posição em uma montanha, fuzil nas mãos, durante exercícios militares que simulam uma invasão a Caracas.

Esta franco-atiradora da Milícia - corpo civil ligado às Forças Armadas - se declara pronta para defender de qualquer "exército invasor" a Venezuela e a chamada revolução bolivariana, que hoje é liderada pelo presidente Nicolás Maduro e tem nos militares uma fortaleza.

"Sinto que nasci para isso e se tiver de morrer por isso... estou pronta", disse esta mulher de 43 anos, mãe solteira de quatro filhos, entre eles uma menina de 3 anos. "Morrer pela minha pátria, pelos meus filhos, pela minha mãe, pelos meus irmãos (...), estou disposta a dar a vida."

Sem seu uniforme, é maquiadora e estilista, faz trabalho social em sua comunidade e compõe um grupo de motoristas. Nas horas vagas, ela gosta de tricotar.

Em sua casa, no bairro La Palomera de Caracas, exibe a foto do presidente Hugo Chávez, morto em 2013, que ela idolatra.

"Não somos um inimigo pequeno", defende Ismaira, que hoje é segundo sargento. "A Milícia é o senhor que vende verduras ou a senhora que passeia com o cachorro... é uma professora, um taxista, uma enfermeira."

Há cerca de 4,5 milhões de milicianos no país de 30 milhões de habitantes, segundo Maduro. 

'Não tirei a vida de ninguém'

Ismaira conta que quando entrou para a Milícia em 2010, não pensava em ser franco-atiradora. O comandante de sua unidade a convenceu. "É um mundo majoritariamente masculino", diz ela, perfeitamente maquiada na entrevista com a agência France Presse.

"Os homens não gostam muito que alguém esteja dentro de sua área. Quando você é um atirador que acerta melhor...desperta certo zelo. Antes de disparar o gatilho (...), você limpa sua mente e se concentra apenas na respiração", relata. "Você volta a relaxar e deixa o tiro te surpreender."

Ismaira não está autorizada a falar das operações em que participou. Até agora, só pressionou o gatilho nas práticas. "Não tirei a vida de ninguém", garante, mas diz que está preparada para isso.

Maduro acusa os Estados Unidos e a Colômbia, seus principais críticos internacionais, de liderar planos para assassiná-lo, e convocou a Milícia para ficar em "alerta máximo".

Antes de ser ser miliciana, Ismaira pertenceu aos círculos bolivarianos, grupos impulsionados por Chávez - que não são mais tão comuns -, acusados de violentos ataques a opositores, o que ela nega.

Quando questionada se concorreria a uma prefeitura ou a uma cadeira de vereadora, ela nega: "Um cargo político, jamais".

Sua aspiração é continuar crescendo na Milícia, onde ganha menos de US$ 4 por mês. Ela não reclama, celebra os "benefícios sociais" que o governo entrega e culpa as sanções internacionais, que incluem um embargo do petróleo, pelos baixos salários e pela crise venezuelana./AFP 

 

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