Estilo de Chávez desestimula possíveis líderes e deixa 'revolução' sem quadros

Divisões. Presidente venezuelano, que antes de partir para a cirurgia em Havana nomeou Maduro seu sucessor e fez apelo a partidários bolivarianos por unidade, sempre tratou de evitar surgimento de nomes que pudessem ameaçar ou questionar sua liderança

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2013 | 02h03

Paranoico em relação às traições e centralizador, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, mantém o poder há 14 anos cuidando para que nenhum outro líder lhe faça sombra no comando de seu projeto bolivariano. Em meio aos expurgos e às condenações veladas ao ostracismo, o chavismo, que agrega diferentes grupos de militantes, busca uma figura que possa substituir o carismático líder enfermo.

Antes de partir para Cuba há mais de um mês, onde se submeteu à quarta cirurgia para combater um câncer na região pélvica, Chávez nomeou seu chanceler e vice-presidente, Nicolás Maduro, como herdeiro político. Mas membros da oposição asseguram que a escolha aprofundou divisões entre grupos antagônicos do movimento bolivariano - descontentando principalmente o grupo militar, controlado pelo presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, que também esperava esse papel.

"As divergências no interior do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) explicam a ênfase do discurso de Chávez, em 8 de dezembro, pedindo a seus partidário 'unidade, unidade e unidade'", disse ao Estado Anibal Rodríguez, analista da Universidade Central.

"Até agora, esse pedido tem sido atendido, com todos os chavistas apresentando um discurso uniforme, seja em relação à saúde de Chávez, seja em relação à estratégia adotada na semana passada para o contorcionismo legal que permitiu a continuidade do governo, com todos os chavistas usando até as mesmas palavras em declarações públicas."

Ao longo dos anos, porém, Chávez mesmo se encarregou de dividir facções internas para evitar o fortalecimento de seus líderes. Quando se tornavam muito populares ou muito influentes internamente, acabavam amargando o ostracismo.

"O processo de expurgo de figuras da primeira geração do chavismo começou com a saída de José Vicente Rangel (então vice-presidente desde 2002), em 2007, quando Chávez decidiu aprofundar o caráter socialista da revolução bolivariana", disse Rodríguez.

"Ao contrário da velha-guarda, os líderes da chamada nova geração, como o ex-vice-presidente e ex-dirigente estudantil, Elías Jaua, eram muito menos resistentes às decisões do presidente e sempre se restringiram a cumprir as ordens. A mensagem era a de que Chávez nunca abriu mão de talhar a revolução à sua imagem e semelhança."

"A autonomia nos círculos chavistas é limitada e a hierarquia, militar. Não por acaso, militares ocupam os postos-chave do governo", afirma, por seu lado, a acadêmica María Abreu, da Universidade Andrés Bello.

E, dos quartéis, Chávez exige lealdade absoluta. Em 2010, durante uma cerimônia militar, o presidente deixou claro o que esperava das tropas: "A disciplina é fundamental para o avanço da revolução e essa revolução tem um líder", discursou. "Não admitirei que minha liderança seja contestada, porque eu sou o povo."

Outra razão para os expurgos é o fato de os personagens de 14 anos de poder serem vistos pela população como as principais figuras do que a oposição qualifica de "boliburguesia" - os novos burgueses bolivarianos que estariam se aproveitando do poder para enriquecer. Em dezembro de 2010, Jesse Chacón, jovem tenente que tomou os estúdios da emissora Venezuelana de Televisão (VTV) durante a tentativa golpista de 1992, renunciou ao Ministério de Ciência e Tecnologia após a Justiça abrir um inquérito contra seu irmão, Arné Chacón, acusado de fraude bancária.

O caso do general Raúl Baduel talvez seja o melhor símbolo do estilo Chávez de liderança. Chefe da tropa que cercou o Palácio de Miraflores para garantir o retorno de Chávez após a fracassada tentativa de golpe de 2002, foi preso acusado de corrupção após ganhar popularidade.

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