REUTERS/Enrique Marcarian
REUTERS/Enrique Marcarian

Estilo de Macri alterna concessões e agressividade

Presidente eleito da Argentina mantém ministro kirchnerista e cobra do Brasil mais dureza contra Caracas em 1ª semana de protagonismo

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2015 | 02h00

Há seis meses, o fiscal de pedágio Fabián Valentino recebeu Mauricio Macri em sua casa de classe média em Luján, região metropolitana de Buenos Aires. O ato era parte da campanha para aproximar o candidato conservador do eleitor de centro, avesso ao radicalismo associado a Cristina Kirchner. Outra meta era distanciá-lo da imagem de herdeiro milionário que governaria para os ricos e acabaria com programas sociais.

Valentino acompanhou pela TV e pelos jornais a primeira semana do político ao lado do qual tomou mate na varanda e expôs suas duas maiores preocupações: segurança da família e a educação de Morena e Santino, os filhos de 9 e 6 anos.

“Desde a campanha, ele está numa posição mais conciliadora. Não parece ser o forte dele atacar ninguém”, disse na sexta-feira Valentino, enquanto sua mulher aproveitava o feriado na Argentina para limpar a casa e as crianças brincavam no pátio em que a filha de Macri, Antonia, de 4 anos, foi apresentada a uma tartaruga e um papagaio que quase bicou o futuro presidente.

Aliados asseguram que a campanha publicitária tentava refletir uma mudança real. O político de raiz liberal teria amenizado sua visão durante os oito anos de governo como prefeito de Buenos Aires e aceito o Estado como protetor em alguns casos. Na disputa eleitoral, o kirchnerismo recuperou gravações dele condenando universidades em excesso, defendendo o pagamento aos fundos abutres e criticando a nacionalização da Aerolineas Argentinas e da petrolífera YPF.

“Macri trata de não confrontar o inimigo que sai. Ele fez toda sua campanha sobre um estilo de buscar harmonia e de não conflito, contrapondo-se à ruptura característica do kirchnerismo”, avalia o sociólogo e consultor Ricardo Rouvier.

Macri deu exemplos de como pretende manter próximos os inimigos internos, que ainda têm maioria no Senado e a maior bancada na Câmara. O principal foi manter um ministro de sua antecessora no cargo, a grande surpresa do gabinete. Lino Barañao fica na Ciência e Tecnologia, depois de pedir permissão a Cristina.

Sua equipe também pareceu orientada a evitar polêmicas. A maior foi o anúncio da troca do nome do Centro Cultural Néstor Kirchner. Foram gastos na mais nova atração turística da cidade R$ 1,2 bilhão em reforma do prédio, construção de auditórios, salas de exposição e ambientes interativos de propaganda kirchnerista. Um dia depois de dizer que rebatizá-lo era uma meta, o futuro secretário nacional de meios públicos, Hernán Lombardi, adotou tom mais moderado. Afirmou que a decisão dependeria do Congresso e não era crucial. “Temos de analisar isso com a visão de que no futuro nada nos divida.”

Segundo a consultora política Analia del Franco, as decisões de alto impacto, provavelmente na economia, só serão anunciadas depois da posse. “Eles tentam passar a imagem de gestores”, diz Analia.

Na ofensiva. A cautela de Macri se restringe à política interna. Sua promessa mais contundente foi pedir a suspensão de Caracas do Mercosul “por manter presos políticos e perseguir opositores”. A iniciativa o colocou em choque com os países bolivarianos antes mesmo de assumir. O número 2 do chavismo, Diosdado Cabello, o chamou de fascista.

Usando a publicidade que ganharam seus planos numa eleição em que só se tornou favorito após o primeiro turno, pressionou vizinhos a se manifestar sobre a crise venezuelana. Na terça-feira, disse esperar em entrevista na TV que o Brasil mudasse de posição sobre uma punição a Caracas. Na sexta-feira, dois dias depois da morte de um dirigente opositor venezuelano num comício, o Itamaraty pediu investigação e punição para que a votação transcorra com tranquilidade.

“É uma decisão correta do Brasil, motivada pela situação preocupante na Venezuela. (A aproximação das posições) é uma lógica coincidência”, disse ao Estado o ex-embaixador no Brasil e Washington Diego Guelar, coordenador de relações internacionais no Proposta Republicana, partido de Macri.

Uma de suas nomeações mais elogiadas foi a da chanceler Susana Malcorra, que o acompanhará na Cúpula do Mercosul do dia 21, quando se saberá se a promessa de pedir a punição de Caracas era concreta ou um blefe para pressionar por uma votação limpa no dia 6, o que tende a enfraquecer o chavismo.

Valentino, de 49 anos, gostou do estilo de seu candidato na primeira semana após eleição. “Ele pôs gente profissional, não há improvisos. Mas não adianta levar os melhores do mundo se não o deixarem governar.”


Tudo o que sabemos sobre:
ArgentinaMauricio Macri

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.