Estilo K no dia D argentino

Outro dia, dois milhões de argentinos tomaram as ruas para protestar contra o governo de Cristina Fernández de Kirchner. Além do tradicional e ensurdecedor panelaço, os manifestantes exibiram cartões vermelhos, símbolo da censura máxima nesse país de futebol. Segundo o governo, os manifestantes foram incentivados por nefastos interesses estrangeiros e seus números, inflados. Quem sabe com ajuda de Photoshop, aquele programa de computador que melhora as fotos, resmungavam os palacianos.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h05

O motivo imediato do mau humor argentino é a economia. Da mesma forma que a robustez dos mercados no ano passado empurrou Cristina Kirchner para o segundo mandato, a queda da economia global a puxa para baixo. Há um ano, seu índice de aprovação era de 64%. Hoje, patina em 37%. E a cada tombo nas pesquisas, a Casa Rosada puxa mais sua rédea. O próximo aperto já está anunciado. No dia 7, entra em vigor a nova lei de imprensa, um garrote ao estilo Kirchner, que forçará a "desconcentração" de grandes empresas de mídia, como o Grupo Clarín. Presumivelmente, as mesmas que teriam exagerado nos protestos anti-Kirchner. O governo, patrocinador da medida, a justifica com um argumento conhecido, de que apoia a democratização da mídia. Rima com intimidação.

Não se sabe quem levará o melhor na queda de braço, mas ninguém duvida que o atrito cresça entre a presidente cadente e a inquieta classe média, que em boa parte votou por sua reeleição. Há razões para o desgaste. Com a economia em marcha lenta, o governo reage, erguendo muralhas. O país é campeão de medidas protecionistas no ano. Para fazer caixa, taxa as exportações, arrochando justamente o setor mais produtivo da economia. Na política ao estilo K, a galinha de ouro nasceu para a parrilla.

Para estancar a saída de dólares, o governo aperta o controle de capitais. E quando, em consequência, o câmbio dispara, pau nos doleiros. Quem vive de vender seu trabalho ou bens, sabe que a inflação ronda os 25% ao ano. Mas para o Indec, instituto oficial de estatísticas, não chega a 10%. Quem ouse contradizê-la arrisca-se a ganhar processo e multa, a mordaça da imprensa democratizada.

Quem sente mais é a classe mais dinâmica do país. É a ironia do continente. Nos últimos anos diversos países da região - entre eles, Brasil, Colômbia, Chile, México e Peru - cantam a ascensão das novas classes de consumidores. Já na Argentina a classe média está sendo "dizimada", segundo Walter Molano, do banco BCP Securities. O mesmo destino tem o mundaréu de pequenas e médias empresas que tanto alavancaram o crescimento e agora sofrem asfixia por tributos, burocracia e controles de capitais em excesso.

Como todos os países da região, a Argentina carece de capital. Sua infraestrutura está decadente e o setor elétrico vulnerável a panes. Mas o governo K não perde a oportunidade de alfinetar os investidores, que lhe deram as costas, e ainda arranca aplausos da sua base quando nacionaliza empresas estrangeiras, como a espanhola YPF.

Aí está, na política, o problema maior. Cristina Kirchner pode estar mal, mas a oposição argentina está pior. Não se entende no Congresso, onde ela tem maioria cômoda, nem nas ruas, onde reina a cacofonia partidária. Melhor para a Dama K, que pretende seguir caminho com uma emenda constitucional que lhe dará direito a reeleição. Com a popularidade e a economia em declive, seu caminho não é fácil. Mas pode acabar levando o melhor. Não pela agressiva estatização, nem tampouco por seu bullying à imprensa. Seu trunfo maior foi a desorganização de seus rivais políticos, cuja mensagem se perde no panelaço.  

 

* MAC MARGOLIS  É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.