Jim Wilson/The New York Times
Turistas passeiam pelo Pier 39, em São Francisco; recuperação rápida não era garantida nem esperada   Jim Wilson/The New York Times

Estímulos recordes nos EUA devem ajudar a economia de outros países

Ao recuperarem seu poder de compra, os americanos estimularão o comércio e os investimentos e revigorarão a demanda por produtos fabricados no exterior

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2021 | 05h00

WASHINGTON - Os gastos robustos do governo americano em resposta à crise do coronavírus estão ajudando a tirar os Estados Unidos de sua pior crise econômica em décadas, canalizando trilhões de dólares para contas correntes e empresas americanas. Agora, espera-se que o restante do mundo também se beneficie.

Especialistas estão prevendo que os EUA e seus gastos recordes de estímulo poderiam ajudar a tirar uma Europa enfraquecida e os países em desenvolvimento em dificuldades de seu atoleiro econômico.

À medida que os americanos compram mais, eles devem estimular o comércio e os investimentos e revigorar a demanda por carros alemães, vinhos australianos, peças automotivas mexicanas e moda francesa.

A antecipada recuperação econômica nos EUA deve se juntar à recuperação da China, adicionando ímpeto à produção mundial. Prevê-se que a economia da China se expanda rapidamente este ano, com o Fundo Monetário Internacional estimando o crescimento de 8,1%. 

Mas os EUA são particularmente importantes para a economia mundial porque há muito gastam mais do que produzem ou vendem, distribuindo dólares globalmente. A China é um dos principais beneficiários da generosidade de Washington porque muitos americanos gastam seus cheques de estímulo em consoles de videogame, bicicletas ergométricas ou outros produtos fabricados na China.

A recuperação comparativamente rápida dos EUA não era garantida nem esperada: foi o resultado de um pouco de sorte – novas variantes do vírus que se espalharam por outros países começaram a aumentar as infecções nos EUA – e uma grande resposta política, incluindo mais de US $ 5 trilhões em gastos com alívio da pandemia, aprovados em lei nos últimos 12 meses. Essas tendências, combinadas com a disseminação acelerada de vacinações eficazes, parecem provavelmente deixar a economia americana em uma posição mais forte.

“Quando a economia dos EUA está forte, essa força tende a apoiar a atividade global também”, disse Jerome H. Powell, presidente do Federal Reserve (o banco central dos EUA), em recente entrevista.

Há um ano, não havia certeza de que os EUA ganhariam força para ajudar a impulsionar a economia global. O FMI previu em abril de 2020 que a economia dos EUA poderia ter um crescimento de 4,7% este ano, quase em linha com as previsões para o crescimento da Europa, após uma queda esperada de 5,9% em 2020. Mas a contração real nos EUA foi menor e, em janeiro, o FMI elevou a perspectiva de crescimento nos EUA para 5,1% este ano, enquanto o crescimento esperado da área do euro foi reduzido para 4,2%.

Desde então, o governo dos EUA aprovou um pacote de ajuda de US$ 1,9 trilhão e o FMI indicou que as estimativas para o crescimento do país deverão ser maiores nas previsões que serão divulgadas na terça-feira.

Os gastos iniciais de resposta à pandemia dos EUA, um pouco menos de US$ 3 trilhões, foram 50% maiores, como parcela do PIB, do que o Reino Unido lançou, e cerca de três vezes mais do que na França, Itália ou Espanha, com base em uma análise de Christina D. Romer na Universidade da Califórnia, Berkeley.

Na Europa, onde os trabalhadores em muitos países foram protegidos da perda de empregos e da queda na receita por programas de licença dos governos, o ritmo lento da campanha de vacinação da União Europeia provavelmente afetará a economia, disse Ludovic Subran, economista-chefe da gigante de seguros alemã Allianz. Ele também questionou se a UE pode distribuir financiamento de estímulo com rapidez suficiente. O dinheiro de um programa de ajuda de € 750 bilhões acordado pelos governos europeus em julho tem demorado a chegar a empresas e pessoas que precisam dele.

A economia dos EUA recuperou 916 mil empregos em março, o maior aumento desde agosto, provocando uma queda da taxa de desemprego para 6,0%. O presidente Joe Biden saudou os números como fonte “de esperança” para os americanos, ao mesmo tempo que pediu para não baixarem a guarda contra a covid-19. Mesmo com a economia começando a se recuperar das paralisações causadas pela crise sanitária, ainda existem 8,4 milhões de empregos a menos do que antes da pandemia.

Órgão americano  libera viagens para os vacinados

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA anunciou na sexta-feira que pessoas totalmente vacinadas – mais de 100 milhões – podem viajar com segurança e riscos baixos. O anúncio, que revoga a orientação de que todos os americanos deveriam evitar deslocamentos não essenciais, será uma injeção de ânimo à indústria de viagens dos EUA, que sofre desde que o início da pandemia.

As novas orientações do Centro especificamente liberam avós vacinados para pegarem aviões para visitarem seus netos. Um grupo representando grandes companhias aéreas dos EUA, como American Airlines, Delta Air Lines, United Airlines e outros, pediu, no dia 22, que o Centro atualizasse sua orientação para dizer que "pessoas vacinadas podem viajar com segurança"./ NYT e W.POST AFP

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Biden tem a chance de turbinar a economia americana; leia a análise

Presidente deve ter sucesso por tempo suficiente para que essa versão antidemocrática do Partido Republicano trumpista se extinga e seja substituída por um novo Partido Republicano de centro-direita

Thomas L. Friedman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2021 | 20h33

Depois da eleição presidencial, escrevi que o que acabara de acontecer me parecia uma cena em que a Estátua da Liberdade atravessava a Quinta Avenida quando, do nada, um maluco dirigindo um ônibus furasse o sinal vermelho. Felizmente, a “Dona Liberdade pulou para a calçada no último segundo. Agora, ela está sentada no meio-fio, com o coração batendo forte, feliz por estar viva”. Ela sabe que escapou por pouco.

Minha esperança era que, assim que Joe Biden assumisse o controle, a ansiedade diante dessa quase morte de nossa democracia desaparecesse de uma vez. Não foi o que aconteceu. Basta ouvir Donald Trump ou o senador Ron Johnson ou a Fox News minimizando a invasão do Capitólio como um piquenique de meninos brancos e republicanos que acabou ficando um pouco turbulento.

Basta ouvir a ex-advogada de Trump, Sidney Powell, tentando escapar de um processo argumentando que nenhuma pessoa séria teria acreditado em suas afirmações de que as máquinas dos sistemas de votação da Dominion haviam fraudado a eleição.

Basta assistir à legislatura da Geórgia aprovando uma medida supostamente destinada a evitar a mesma fraude que Powell agora diz nunca ter acontecido criando obstáculos para os eleitores negros – até mesmo tornando crime alguém servir água para as pessoas que esperavam horas e horas em uma fila de votação.

Sim, o motorista de ônibus maluco ainda está lá fora e a Estátua da Liberdade ainda corre o risco de ser atropelada.

Em vez de o Partido Republicano se sentar após a eleição e resolver: “Vamos fazer uma ponte para os votos de uma América do século 21 diversificada – onde a mensagem republicana de reforma da imigração e políticas pró-negócios, pró-lei-e-ordem e pró-estado-mínimo possa vencer” – o partido decidiu queimar qualquer pedaço dessa ponte e competir apenas por uma América do século 20, dominada pelos brancos.

Como Michael Gerson, ex-redator dos discursos de George W. Bush e agora colunista do Washington Post, disse outro dia: “Um dos veneráveis e poderosos partidos políticos dos Estados Unidos foi tomado por pessoas que fazem do ressentimento contra os outros o elemento central de suas reivindicações (...). Os republicanos eleitos que não são intolerantes geralmente são covardes diante da intolerância. E isto é uma coisa chocante e horrível”.

É por isso que este Partido Republicano trumpista nunca mais deve ter a possibilidade de voltar à Casa Branca. Não se pode sequer confiar que venha a ceder o poder. Quase não o fez em janeiro e já não mostra qualquer sinal de ter se arrependido de seu comportamento. É por isso que, se quisermos preservar nossa democracia, ainda temos de lutar a grande batalha de nossas vidas.

Coisas concretas

A chave para vencer essa batalha é Biden ter sucesso o suficiente e por tempo suficiente para que essa versão antidemocrática do Partido Republicano trumpista se extinga e seja substituída por um novo Partido Republicano de centro-direita, que tenha princípios e esteja pronto para disputar a América do século 21 (precisamos de um partido conservador saudável para manter alguns dos excessos dos democratas liberais sob controle, como a cultura do cancelamento).

E a chave para isso é Biden entregar coisas concretas, que permitam que todos os americanos realizem todo o seu potencial. E a chave para isso é garantir que o estímulo de US$ 1,9 trilhão e sua proposta verde e de infraestrutura de US$ 3 trilhões realmente sejam realizados conforme prometido. E a chave para isso é que Biden não apenas dê vazão a seu Franklin Delano Roosevelt, mas também tenha um pouco de Ronald Reagan.

Os democratas estão todos maravilhados com o fato de Biden ter conseguido aprovar mais dólares de estímulo do que Barack Obama. O que fará uma diferença sustentável, porém, é se o estímulo Biden não apenas socorrer os pobres, mas também impulsionar o setor privado a abrir novas empresas e criar mais empregos que melhorem a produtividade e aumentem de forma sustentável os padrões de vida, para que possamos não apenas repartir o bolo, mas também fazer o bolo crescer.

Apesar das preocupações de que US $ 1,9 trilhão possam elevar as taxas de juros a níveis que afundem o mercado de ações e prejudique os empréstimos e gastos discricionários do governo no futuro, há muitos sinais de que podemos estar caminhando para uma explosão de empreendedorismo.

Vejamos essa reportagem do Wall Street Journal na sexta-feira: “Depois de um ano de paralisações econômicas e outras mudanças provocadas pela covid-19, os aluguéis de lojas, apartamentos e espaços de trabalho em Manhattan caíram aos preços mais baixos em anos. Isso já está atraindo novos pequenos negócios e residentes e tem o potencial de mudar a cara do bairro mais exclusivo da cidade (...). No ano passado, o Estado de Nova York lançou seu maior número de novos negócios desde 2007”.

Se fizermos tudo certo, o pacote de estímulo de Biden irá alimentar e turbinar uma economia já em reestruturação. Com tanto dinheiro barato disponível, tanto acesso barato a computação de alta potência, tantos novos serviços sendo digitalizados e tantos novos problemas para resolver, temos todos os ingredientes para uma explosão de inovação, startups e destruição criativa.

O que Trump faria se presidisse tal boom? Ele colocaria seu nome em cima. É exatamente o que Biden precisa fazer. Se acontecer, vamos chamar de “Biden Boom” e celebrar os empresários, investidores, criadores de empregos, agricultores e todos aqueles que trabalham com as mãos. Vamos deixar claro que todos eles têm espaço no Partido Democrata, não apenas as elites educadas de esquerda. É assim que você ganha as eleições de meio de mandato.

Biden também precisa maximizar suas aspirações verdes. Não se trata apenas de liberar gastos. É preciso liberar o capitalismo. A chave para uma revolução verde é a escala. Precisamos de muito de tudo – eólica, solar, hidrelétrica, nuclear, baterias, materiais eficientes. E a única maneira de obter esse tipo de escala é alavancando o mercado – incentivando todos os tipos de parcerias público-privadas que possam reduzir o carbono e aumentar os lucros.

O governo pode catalisar esse processo de duas maneiras. A primeira é usar seu poder de compra para reduzir custos. Por exemplo, “a energia eólica offshore costumava ser muito mais cara do que a eólica onshore”, explicou Hal Harvey, CEO da Energy Innovation, “mas aí os governos britânico e dinamarquês intervieram para subsidiá-la e movê-la para baixo na curva custo-volume. Agora é um recurso gigantesco e eficiente em termos de custo-benefício”.

A equipe de Biden acaba de anunciar US$ 3 bilhões em garantias de empréstimos para fazer exatamente o mesmo aqui. Parabéns!

Então, quando essas tecnologias verdes são acessíveis, disse Harvey, “você estimula o setor privado para torná-las cada vez mais baratas e mais eficientes, fazendo com que o governo defina padrões de desempenho aprimorados a cada ano” – como fez a Califórnia recentemente, exigindo o fim dos motores de combustão interna em carros até 2035, e como Obama fez em 2012, quando exigiu que as montadoras americanas quase dobrassem a economia média de combustível de novos carros e caminhões até 2025.

É assim que se obtém escala, acrescentou Harvey: “Você permite que o setor privado forneça bens públicos” – com lucro. O governo deixa as novas tecnologias mais econômicas, e o setor privado, impulsionado por padrões cada vez mais rígidos, “faz com que elas se tornem onipresentes”.

Isto é capitalismo inteligente. E é a maneira mais segura de garantir o sucesso das duas gigantescas contas de despesas de Biden e desferir um golpe mortal nesse patético incêndio no lixo chamado Partido Republicano trumpista. Seria um presente tanto para os liberais quanto para os conservadores que têm princípios – e também para a Estátua da Liberdade./TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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Artigo: Biden quer provar que o governo pode fazer mais

Presidente aposta que seu plano de US$ 2 trilhões fará a economia girar de modo mais eficiente do que as forças de mercado

David E. Sanger*, The New York Times

02 de abril de 2021 | 05h00

Há 40 anos, em seu discurso de posse, o presidente Ronald Reagan afirmou que “o governo não é a solução para nossos problemas, o governo é o problema”. O plano de infraestrutura apresentado na quarta-feira pelo presidente Joe Biden – US$ 2 trilhões de investimento federal a serem aplicados em estações de recarga de carros elétricos, inteligência artificial e engenharia social – é uma aposta de que o governo pode fazer coisas colossais que o setor privado não consegue.

De fato, quando a tão aguardada “semana da infraestrutura” finalmente chegou a Washington, ela acabou abarcando muito mais do que apenas a construção de novas estradas e a substituição das antigas tubulações de chumbo. Impelido pela ala esquerda do seu Partido Democrata, e lembrado pelos historiadores que os presidentes Franklin D. Roosevelt e Lyndon Johnson procuraram fazer coisas em grande escala, Biden usa seu novo programa de reconstrução de rodovias e pontes que estão desmoronando para reformar a economia americana e se concentrar mais em problemas de longo alcance como a mudança climática e a desigualdade.

Serão necessários anos para saber se a proposta de Biden terá o poder duradouro de iniciativas como o New Deal ou a Great Society, ou se conseguirá “mudar o paradigma”, como ele afirmou há algumas semanas.

Mas já está claro que seu plano tem como base uma aposta de que o país está disposto a renunciar a um dos principais pilares da revolução Reagan, e mostrar que, no caso de algumas incumbências, o governo conseguirá fazer girar a economia de modo mais eficiente do que as forças de mercado. Biden também aposta que o trauma da pandemia do coronavírus e as desigualdades sociais e raciais que ela acentuou mudaram o centro de gravidade político do país.

Democracia

O plano apresentado por ele se ajusta à sua declaração feita na semana passada de que “temos de provar que a democracia funciona”, um reconhecimento de que a decisão do governo chinês de subsidiar “campeões nacionais” como a gigante das telecomunicações Huawei e injetar bilhões de dólares em tecnologias-chave como a inteligência artificial, está atraindo imitadores. Biden, segundo seus assessores, sente que é preciso haver competição para provar que o capitalismo democrático funciona.

Na semana passada, ele definiu a competição como “uma batalha entre a utilidade das democracias no século 21 e as autocracias”, frase que repetiu num discurso em Pittsburgh na quarta-feira. Mas aí foi mais longe, dizendo que “existem muitos autocratas no mundo” – referindo-se claramente aos presidentes Xi Jinping, da China, e Vladimir Putin, da Rússia – “que acham que a razão pela qual eles vencerão é porque as democracias não conseguem mais chegar a um consenso”.

É uma afirmação que tem ecos da Guerra Fria, desta vez com a China assumindo o papel de principal adversário que outrora pertenceu à União Soviética. E Biden, sentindo que este pode ser seu melhor argumento para alcançar um consenso bipartidário, citou também o investimento feito pelo ex-presidente Dwight Eisenhower no sistema rodoviário do país e o empenho do ex-presidente John Kennedy na corrida espacial.

“Isso é crucial para entender o que o presidente pensa com relação ao seu plano de infraestrutura”, afirmou Brian C. Deese, diretor do Conselho Econômico Nacional e um dos principais arquitetos da proposta. “O mundo vem observando como a maior superpotência do mundo foi devastada por um vírus, e foi incapaz de criar uma resposta durante quase um ano”, acrescentou. “Agora aguarda para ver se os EUA conseguem realizar grandes coisas internamente, que indicarão se o país recuperará seu lugar de líder da ordem internacional.”

Contestação

Não é a primeira vez que a confiança nos mercados para consertar o país é contestada, mas nenhuma iniciativa anterior nas últimas décadas teve a escala do plano apresentado por Biden. O próprio Reagan insistia num aumento de impostos. Os presidentes George H. Bush e Bill Clinton tentaram alguns experimentos modestos conhecidos como “política industrial”, com medidas para impulsionar a indústria de semicondutores. 

Mas o plano de Biden envolve um investimento público gigantesco equivalente a 1% do PIB para cada um dos próximos oito anos. Os republicanos que tradicionalmente privilegiam grandes projetos de infraestrutura, já vêm contestando o seu porte, especialmente após a aprovação do programa de auxílio na pandemia, no valor de US$ 1,9 trilhão. Eles também contestam a maneira que Biden propõe pagar por seu plano: um aumento nos impostos das empresas durante os próximos 15 anos, no caso de um programa que durará oito.

Mas o argumento a ser apresentado pelo governo nos próximos dias é que o programa simplesmente vai retomar o status quo de cinco décadas atrás, quando o investimento público em pesquisa e desenvolvimento, infraestrutura e comercialização de tecnologia era, como uma porcentagem da economia, significativamente maior que hoje. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É JORNALISTA

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Cinco principais conclusões sobre o plano de infraestrutura de US $2 trilhões de Biden

A proposta de Biden inclui muito mais do que estradas e pontes, e a matemática da Casa Branca é confusa sobre como irá custear a alta cifra

Heather Long, The Washington Post

01 de abril de 2021 | 12h01

WASHINGTON- O presidente Joe Biden está começando uma campanha para que sua segunda grande iniciativa no governo - um enorme pacote de infraestrutura - seja implementada até o verão (do Hemisfério Norte).

Atualizar a infraestrutura do país estava na lista de desejos do presidente Donald Trump, mas ele não foi capaz de fazê-lo. Biden está ansioso para mostrar que pode entregar algo em que o último presidente falhou. Recuperar a infraestrutura do país tem amplo apoio em toda arena política porque cria empregos e alavanca de forma tangível quase todas as comunidades do país. O impasse no Congresso americano sempre foi como pagar por essas reformas estruturais: aumentar impostos e pedágios, cortar outros programas ou endividar-se mais?

O que está no plano de infraestrutura e empregos de US $ 2 trilhões de Biden?

Biden está optando, majoritariamente, pela opção de aumento de impostos. Ele está propondo aumento de impostos para empresas. Já existe resistência de líderes empresariais que afirmam que isso prejudicará a competitividade dos Estados Unidos. E há um coro sonoro questionando a matemática da Casa Branca que diz que oito anos de gastos com infraestrutura seriam pagos por 15 anos de impostos mais altos sobre as empresas.

Enquanto Biden faz sua apresentação inicial de seu plano de infraestrutura, aqui estão as principais conclusões.

1. Existe um consenso geral de que há muito tempo não se faz reformas.

A Sociedade Americana de Engenharia Civil dá aos EUA a nota “C-” para a infraestrutura do país, ao sublinhar que quase quatro em cada 10 pontes têm mais de meio século de idade e que uma tubulação de água se rompe a cada dois minutos. Na maioria das cidades em todo país, as pessoas podem apontar rapidamente para estradas, pontes, canos, portos e aeroportos que parecem antiquados - e perigosos.

E também há a falta de internet eficaz em algumas partes dos Estados Unidos. As consequências de não haver internet de alta velocidade adequada ficaram evidentes durante a pandemia, quando os alunos de baixa renda abandonaram as escolas e as universidades porque não tinham acesso suficiente à internet para assistirem às aulas online.

A Casa Branca está apresentando um plano de empregos como uma forma de os Estados Unidos acompanharem outras nações que estão investindo pesadamente em todos os diferentes tipos de infraestrutura, especialmente a China.

2. O plano inclui mais do que estradas e pontes, uma questão polêmica.

Cerca de metade do plano de Biden vai para a infraestrutura tradicional. Ele pede cerca de US $ 620 bilhões para estradas, portos e pontes, incluindo cerca de US $ 100 bilhões para levar internet de alta velocidade a todos os americanos. Há outros US $ 111 bilhões para substituir canos de chumbo velhos, tornando a água potável mais segura, e US $ 100 bilhões para recapacitação para que os trabalhadores americanos possam conseguir empregos mais qualificados.

A outra metade do projeto de lei faz investimentos para reduzir as mudanças climáticas e modernizar escolas, centros de manufatura e instalações de atendimento ao idoso. A Casa Branca argumenta que isso também deve ser visto como uma infraestrutura sensível, mas outros a enxergam como uma prioridade partidária dos democratas.

 Este segundo US $ 1 trilhão do plano seria destinado onde grande parte do debate se concentra. Biden terá que escolher, como fez no pacote de estímulos, se vai tirar parte de seu orçamento para tentar ganhar votos do Partido Republicano ou se o manterá em seu plano e aprovar o projeto com apenas votos dos democratas.

Por exemplo, a proposta pede US $ 400 bilhões para habitação para idosos e deficientes, mais de US $ 200 bilhões para modernizar moradias públicas, residências de baixa renda e US $ 100 bilhões para reformar escolas. Há também US $ 300 bilhões para reviver a manufatura nos Estados Unidos, incluindo um grande investimento em energia limpa e pesquisas sobre mudanças climáticas e US $ 50 bilhões na manufatura de semicondutores nos Estados Unidos. Biden também deseja incluir a Lei de Proteção ao Direito de Organização, que tornaria mais fácil para os trabalhadores se organizarem em sindicatos.

3. Biden quer aumentar os impostos sobre as empresas.

Para financiar seu plano de mais de US $ 2 trilhões, Biden está pedindo às empresas que paguem por ele. Trump decretou o maior corte de imposto corporativo da história dos Estados Unidos, reduzindo a taxa de imposto empresarial de 35% para 21%. Biden quer aumentá-lo para 28%. O plano também prevê que as empresas assumam ao menos alguns impostos, com a imposição de um imposto mínimo de 15% sobre a renda e a tributação de parte da renda estrangeira de grandes corporações globais para desencorajá-las de transferir suas operações a paraísos fiscais.

A teoria econômica clássica diz que um aumento de impostos terá alguns efeitos negativos, como menos investimentos ou contratações. Mas muitos economistas democratas dizem que os aspectos positivos superam os negativos e que as empresas podem lidar com esse novo nível de tributação. Eles apontam que este é um grande investimento que facilitará os negócios nos Estados Unidos.

Mas grupos empresariais como a Câmara de Comércio dos EUA já estão contra-atacando, dizendo que isso pode tornar mais difícil para as empresas americanas competirem com as estrangeiras que têm taxas de impostos mais baixas. Eles dizem que essas grandes melhorias deveriam ser pagas por um grupo mais amplo de pessoas que as usam, como pedágios nas estradas ou aumento do imposto sobre o gás.

4. Biden está usando matemática difusa para dizer que o plano está pago.

A Casa Branca já está sendo criticada por retratar isso como um plano que é “pago” por aumentos de impostos, quando os números não batem.

A proposta prevê gastos de cerca de US $ 2,3 trilhões em oito anos, mas levaria 15 anos para que os aumentos de impostos propostos gerassem essa quantia. Não é assim que o orçamento normalmente funciona.

“Dito de outra forma, cerca de metade dos gastos serão pagos”, disse Shai Akabas, diretor de política econômica do Centro de Política Bipartidária.

A maneira padrão de ver os gastos dessa maneira é somar quanto custam em uma década e quanto desse custo é pago ao longo da mesma janela de 10 anos. Os aumentos de impostos propostos geram apenas cerca de US $ 1,5 trilhão ao longo de uma década, o que significa que este plano adicionaria cerca de US $ 1 trilhão à dívida dos EUA.

5. É provável que isso traga empregos com boa remuneração.

Os Estados Unidos ainda têm quase 10 milhões de desempregados – cifra maior do que os piores dias da Grande Recessão. Embora muitos economistas prevejam um boom neste verão, à medida que a maioria dos americanos se vacinar, começar a viajar e a jantar fora novamente, ainda é provável que haja pessoas deixadas para trás. Espera-se que essa conta de infraestrutura crie muitos empregos bem remunerados. O salário típico de uma remuneração na construção é de cerca de US $ 30 por hora, de acordo com o Departamento do Trabalho, o que é significativamente um valor mais alto do que o salário médio de US $ 19 por hora para todos os empregos nos Estados Unidos.

Biden é assombrado pela retomada econômica sem empregos que ocorreu após a Grande Recessão, quando demorou quase uma década para que todos voltassem ao trabalho. É por isso que ele almejava o grande pacote de ajuda à covid-19, aprovado no início de março. Este pacote de infraestrutura é outro esforço para garantir que os empregos retornem rapidamente.

Embora grande parte do dinheiro do plano de alívio à covid-19 de US $ 1,9 trilhão de Biden deva ser gasto nos próximos seis meses, este pacote de infraestrutura de US $ 2 trilhões da primeira rodada injetaria dinheiro na economia americana nos próximos anos, ajudando a dar um impulso extra nos empregos e na economia do país ao longo do primeiro mandato de Biden.

 

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Biden quer gastar US$ 2 trilhões em obras e meio ambiente com aumento de imposto sobre corporações

Para viabilizar a medida, o presidente pretende aumentar impostos de corporações, atacando diretamente medidas do antecessor Donald Trump e acirrando a divisão entre progressistas e conservadores

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2021 | 17h40
Atualizado 01 de abril de 2021 | 11h22

PITTSBURGH, EUA - O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, apresentou em um discurso nesta quarta-feira, 31, um plano para gastar US$ 2 trilhões em infraestrutura. Para viabilizar a medida, o presidente pretende aumentar impostos de milionários e corporações, revertendo a reforma fiscal de Donald Trump e acirrando a divisão entre progressistas e conservadores no Congresso. 

A proposta apresentada nesta tarde é a primeira metade do que será uma liberação em duas etapas da ambiciosa agenda do presidente para reformar a economia e refazer o capitalismo americano, que poderia ter um custo total de até US$ 4 trilhões ao longo de uma década, uma medida que ele deseja transformar em símbolo de sua gestão. 

A administração Biden o nomeou de Plano de Emprego Americano, ecoando o projeto de lei de alívio da pandemia de US$ 1,9 trilhão que Biden sancionou este mês, chamado Plano de Resgate Americano. O Plano de Emprego Americano, disse Biden, “vai investir na América de uma forma que não investimos desde que construímos as rodovias interestaduais e vencemos a Corrida Espacial”.

"Hoje, estou propondo um plano para a nação que recompensa o trabalho, não apenas recompensa a riqueza. Isso constrói uma economia justa que dá a todos uma chance de sucesso ", disse Biden, em seu discurso em Pittsburgh (Pensilvânia).  

Biden disse que priorizará o investimento em empresas, produtos e trabalhadores que estão nos EUA. "Quando fizermos todos esses investimentos, vamos garantir, conforme a ordem executiva que assinei, que compraremos (produtos) 'americanos'", disse, acrescentando que os investimentos de seu governo atingirão as comunidades minoritárias que historicamente também foram deixadas de fora. 

Na primeira fase do plano, Biden visa enfrentar alguns dos problemas mais urgentes do país - desde a mudança climática até os sistemas de água decadentes e a infraestrutura do país. As promessas são vastas e podem ser difíceis de cumprir, mesmo que consiga obter total apoio da maioria estreita dos democratas no Congresso.

Essa etapa prevê a construção e reforma de ao menos 2 milhões de unidades habitacionais em todo o país, acesso à banda larga de alta velocidade até o fim da década e a multiplicação de estações de recarga elétrica para veículos nas estradas americanas. Ela se traduz ainda em 32 mil km de estradas reconstruídas, reparos nas 10 pontes mais importantes economicamente do país, eliminação de tubos de chumbo e uma longa lista de outros projetos destinados a criar milhões de empregos no curto prazo e fortalecer a competitividade americana no longo prazo.

Biden divulgou o plano de gastos com uma série de aumentos de impostos sobre empresas que provavelmente serão a parte mais controversa de sua proposta. A Casa Branca diz que a proposta se pagaria em 15 anos porque muitos dos aumentos de impostos permaneceriam, mesmo que as propostas de gastos durem apenas oito anos. A legislação em Washington é normalmente avaliada em uma janela de orçamento de 10 anos, e não está claro exatamente quanto custaria o plano em uma década.

Do lado tributário, o plano de Biden inclui o aumento da alíquota do imposto corporativo de 21% para 28%; prevê a elevação do imposto mínimo global pago de cerca de 13% para 21% e o fim de incentivos fiscais federais para empresas de combustíveis fósseis. Também pretende intensificar a execução fiscal contra as empresas.

Economistas, no entanto, dizem que a conta não fecha. Seriam necessários, de acordo com cálculos independentes, 15 anos para que o aumento de impostos proposto por Biden gerasse essa quantidade de dinheiro. “Dito de outra forma, cerca de metade dos gastos do pacote seriam pagos”, afirmou Shai Akabas, diretor de política econômica do Centro de Política Bipartidária. A nova carga tributária arrecadaria, portanto, cerca de US$ 1,5 trilhão ao longo de uma década, o que significa que este plano de Biden acrescentaria aproximadamente US$ 1 trilhão à dívida do país. 

A Casa Branca também está propondo até US$ 400 bilhões em créditos de energia limpa para empresas. As medidas fiscais ajudam Biden a lidar com as preocupações de que seu pacote de gastos aumentaria um já grande déficit federal, mas é provável que elas sejam alvo da oposição de lobistas e grupos empresariais que celebraram os cortes de impostos de Trump em 2017. 

A proposta, no entanto, precisa de passar pelo Congresso. Entre os deputados, o caminho parece mais fácil. A presidente da Câmara, Nancy Pelosi, disse que espera aprovar o pacote até o dia 4 de julho. Mas, no Senado, Biden deve enfrentar uma oposição intensa dos republicanos.

Para ser aprovado, o plano precisa do voto de 60 dos 100 senadores – e os democratas têm apenas 50. Uma alternativa analisada pelo governo é adotar um procedimento parlamentar chamado “reconciliação”, usado para acelerar a aprovação de leis orçamentárias, que exige apenas maioria simples – uma gambiarra legislativa que deve enfurecer os republicanos. 

Mitch McConnell, líder da oposição no Senado, conversou com Biden, mas saiu da reunião dizendo que é “improvável” que os senadores do partido apoiem o projeto. “O plano prevê um aumento de impostos e acrescentará trilhões à dívida americana”, afirmou.

Os congressistas republicanos consideraram os aumentos de impostos prejudiciais ao investimento e à competitividade dos EUA e já ameaçavam se opor a eles.  Grupos empresariais, como a poderosa Câmara de Comércio dos EUA, também apresentaram o mesmo argumento. 

Entre os democratas, o plano foi recebido com algumas objeções dos que dizem ser insuficiente para enfrentar a escala da ameaça representada pela mudança climática.  Já os democratas de centro estão recusando outro grande pacote de gastos. Três democratas da Câmara já prometeram se opor ao pacote porque ele não reverte o limite para as deduções fiscais estaduais e locais da lei tributária de Trump.

E uma série de prioridades críticas para os democratas no Congresso, incluindo uma extensão do crédito infantil expandido, está sendo deixada pela Casa Branca para um segundo pacote, estimado em cerca de US$ 1 trilhão, cujo destino e momento permanecem obscuros. 

O presidente disse acreditar ter apoio do Congresso para aprovar seu plano e que nunca conheceu nenhum republicano que não apoiasse um investimento em infraestrutura. "As divisões (políticas) do momento não podem nos impedir de fazer o que é certo para o futuro."  Ele citou como, no passado, presidentes republicanos executaram grandes planos de infraestrutura dentro de um contexto bipartidário, de Abraham Lincoln a Dwight Eisenhower

 

Clima e veículos elétricos

Investir em veículos elétricos é uma das principais prioridades de gastos climáticos de Biden, com US$ 174 bilhões destinados apenas a esse mercado. Funcionários da Casa Branca previram que os incentivos federais, juntamente com os gastos dos governos estaduais e locais e empresas privadas, estabeleceriam uma rede nacional de 500 mil estações de recarga até 2030, ao mesmo tempo em que estimularia uma cadeia de suprimentos doméstica que apoiaria os empregos na indústria de carros e caminhões fabricados nos Estados Unidos. 

O plano também substituirá 50 mil veículos de trânsito a diesel, enquanto eletrificaria pelo menos 20% da frota de ônibus que transportam crianças para a escola todos os dias. Montadoras, sindicatos e ambientalistas têm pressionado a Casa Branca para fornecer suporte para veículos elétricos, que representam apenas 2% das novas vendas no mercado automotivo dos EUA./W. POST, NYT e AFP

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