Luis Acosta/AFP
Luis Acosta/AFP

‘Estou comprometido em proteger as Farc'

Para general colombiano que combateu guerrilha por 33 anos, vítimas diretas têm maior capacidade de perdão

Entrevista com

Álvaro Pico Malaver, general e negociador do Exército da Colômbia

Jamil Chade,  CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2017 | 05h00

A quatro dias do cessar-fogo entre o governo da Colômbia e o Exército de Libertação Nacional (ELN) – a última guerrilha em ação no país – militares colombianos veem a trégua com um teste para uma paz completa com os grupos armados do país. Entre esses militares está o general Álvaro Pico Malaver, que durante 33 anos combateu as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), foi um dos negociadores do acordo de paz, e hoje tem a missão de proteger os líderes da guerrilha. 

Com o acordo de paz, como é a relação do sr. com as Farc?

É curioso, pois é a minha divisão das Forças Armadas que ficou responsável por prestar proteção a eles e à cúpula das Farc, que estão comprometidos com o processo de paz e terminaram de entregar as armas. Foi um processo paulatino e produto de uma aproximação também pessoal. 

Quais são os desafios agora de manter a paz?

Existem muitos riscos para a paz. A negociação foi muito difícil. Mas já superamos. Foi difícil a implementação do cessar-fogo durante seis meses, até a entrega das armas. Mas os verdadeiros desafios começam agora. Isso sabemos e temos de assumir. 

De que forma?

A reinserção desse grupo à vida civil é um enorme desafio. Alguns deles estavam com armas nas mãos desde crianças. Isso nos preocupa. Outro risco real é a ameaça feita por outros grupos armados ilegais. Há outros grupos armados com propósitos específicos que podem afetar a paz. 

O ELN seria um dos obstáculos? 

Estamos em negociações com o ELN. Com essa guerrilha fui eu que iniciei esse processo. No dia 1.º de outubro, vamos iniciar o cessar-fogo, que vai durar até o dia 12. Será um cessar-fogo temporário. Será a primeira oportunidade e um primeiro teste. 

De que forma o sr. conseguiu que eles também chegassem a esse entendimento inicial?

Ainda não podemos dar muitos detalhes, pois estamos no meio do processo. Mas minha mensagem a eles foi simples: não há outra alternativa que não seja a paz. 

Nesta nova fase, a ameaça do crime organizado é uma realidade?

Sim, principalmente com grupos de narcotraficantes. Mas, no fundo, isso também é uma questão da reinserção, que é também um tema político.

Pessoalmente, o sr. perdoou aos guerrilheiros? 

Lutei 33 anos contra eles. Muitos de meus companheiros morreram nas mãos desse grupo. Alguns mutilados. Muitas famílias sofreram. Mas eu os perdoei. Eu descobri que o perdão é um assunto pessoal. Quanto mais demorássemos para fechar um acordo, mais gente morreria. 

E até que ponto essa visão é compartilhada pelos demais colombianos?

Será um desafio muito grande conseguir que a população como um todo os perdoe. O perdão será um dos maiores desafios para garantir paz. O papa Francisco, em sua visita ao país, insistiu muito nesse ponto também. 

Quem mais mostra resistência em aceitar a normalidade civil dos ex-guerrilheiros?

O que eu vi é que as vítimas diretas têm maior capacidade de perdão que aqueles que não viveram o conflito diretamente. O tema político também joga um papel. Há uma polarização no país que não tem nenhuma relação com a paz, mas com estratégias políticas que estão fazendo um dano importante. Se não houvesse uma polarização política, teria sido mais fácil. Vi nos pequenos agricultores que estavam na linha de frente do conflito a felicidade que o acordo de paz gerou. 

 

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