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Estrada para Damasco passa por Moscou

Posição russa sobre Síria usa argumentos hipócritas, que mal ocultam seus interesses de manter um pé militar, econômico e político no Oriente Médio

TIMOTHY GARTON ASH, ESPECIAL PARA O ESTADO,

18 de junho de 2012 | 10h22

DAMASCO - Espero que algum dia o presidente Bashar Assad compareça diante do Tribunal Penal Internacional encarregado de julgar crimes contra a humanidade. Nenhuma violência que esteja sendo praticada por outras forças no que já se tornou uma guerra civil na Síria pode diminuir sua responsabilidade primeira.

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É preciso lembrar que isso tudo começou como uma onda de manifestações não violentas no melhor estilo da Primavera Árabe original. Assad tinha a opção de responder com reformas significativas, com as quais ele se divertiu, de abrir negociações, ou de permitir uma transição pacífica com uma saída honrosa e confortável para si e sua família. Em vez disso, ele optou por conservar o poder pela repressão brutal, como seu pai fez antes dele, incluindo o bombardeio indiscriminado de civis.

Enquanto sua elegante esposa Asma, educada na Grã-Bretanha, perambulava por pisos de mármore em sapatos de salto alto Christian Louboutin, seus soldados e os truculentos milicianos shabiha espancavam mulheres e crianças inocentes.

Ante a repressão extrema, a oposição popular da Síria manteve uma disciplina não violenta durante algum tempo. Depois, ela a perdeu. Com defecções do Exército e armas chegadas de fora do país, a situação se transformou primeiramente num levante armado e depois numa guerra civil, com um regime conflagrado, oposição dividida, alauitas, sunitas e seus apoiadores externos, todos participando de um conflito complexo e, por vezes, confuso.

Além dos massacres de civis, agora ficamos sabendo, enojados, que o Exército e a milícia usaram crianças como escudos humanos. Alguns rebeldes também teriam recrutado soldados menores de idade. Mas como Assad em pessoa disse numa entrevista na televisão antes disso tudo começar, a responsabilidade pelo que ocorre na Síria recai sobre ele.

Se não houvesse escolhido o caminho da repressão, seu país não precisaria ter descido a uma guerra civil. Talvez ele tenha lamentado isso em privado, nos ombros perfumados de Asma – ele lembra um homem fraco tentando ser forte. Mas como escreveu um dia o poeta W. H. Auden, invertendo uma frase famosa: "Enquanto ele chorava, as criancinhas morriam nas ruas".

Compreensivelmente, ouvimos clamores cada vez mais insistentes por uma intervenção para sustar o derramamento de sangue na Síria. Falando no Museu do Holocausto em Washington, em abril, o sobrevivente do Holocausto, Elie Wiesel, perguntou se alguma coisa havia sido aprendida com a história, acrescentando que "se foi assim, como é que Assad continua no poder?" Promovendo seu novo filme sobre a intervenção líbia no festival de cinema de Cannes, o filósofo e ativista francês Bernard-Henri Lévy disse: "Fiz este filme pela Síria. Já é hora de intervirmos". O chanceler britânico William Hague a comparou recentemente à Bósnia.

Se a escala de mortos e feridos de civis inocentes fosse a única condição necessária para uma intervenção humanitária, a Síria já atingiu essa condição. Mas a doutrina da responsabilidade de proteger aprovada pela ONU, que é a maneira mais rigorosa e imparcial que temos para pensar nesses desafios no mundo de hoje, também requer a ação para ter uma perspectiva razoável de sucesso. Num julgamento informado de probabilidades, uma intervenção factível precisa ser mais propícia a melhorar do que a piorar as coisas no país em questão.

Essa condição infelizmente não foi preenchida na Síria. Bernard-Henri Levy pode declarar irresponsavelmente que "ela é viável e factível", mas o que sabemos? Há complicações em toda intervenção, mas a maioria dos especialistas na Síria apontam para dificuldades significativamente maiores do que na Bósnia, Kosovo, Serra Leoa ou Líbia.

Não se trata apenas de tamanho, equipamento e treinamento das forças da repressão à disposição de Assad, e das divisões regionais e sectárias dentro do país. Há também o envolvimento direto de potências regionais e globais que, aberta ou discretamente, apoiam lados diferentes na guerra civil. Mais obviamente, o Irã xiita e a Rússia "putinita" estão apoiando diretamente o regime de Assad, com sua base de poder alauita, enquanto países sunitas como Arábia Saudita e Catar estariam financiando armas para os rebeldes. O chanceler iraniano disse recentemente que Teerã e Moscou estão "muito próximos" na questão síria.

Enquanto isso, os apelos a uma intervenção militar se tornam cada vez mais intensos no Congresso e na mídia americanos, mas não no Pentágono, que faz uma avaliação sóbria do que isso envolveria. Na Turquia, vizinha da Síria, ocorre uma discussão animada sobre zonas de exclusão aérea e refúgios humanitários, mas os líderes turcos também se tonaram mais cautelosos ao avaliar o que isso significaria. O que começou com uma intervenção humanitária mínima poderia se transformar numa ocupação parcial confusa e arrastada, ou mesmo numa espécie de guerra por procuração.

Ao mesmo tempo, as opções puramente políticas que estão sendo esboçadas parecem frágeis ou impossíveis. O plano de paz de Kofi Annan está comprometido. Sanções mais duras à família Assad e seus apoiadores podem significar uma forte queda nas encomendas online de sapatos Christian Louboutin, mas não pararão um ditador acuado, lutando para evitar a morte por linchamento de Muamar Kadafi. Alguns sugerem uma frente popular internacional para a paz na Síria, com Estados Unidos e Arábia Saudita trabalhando em estreita cooperação com Irã e Rússia.

Isso é tão provável quanto o papa anunciar seu casamento iminente com Madonna. Uma oposição síria mais unida, comprometida com uma transição negociada, não violenta, é uma grande ideia para ontem e amanhã, mas não uma solução para hoje, no meio de uma guerra civil.

A posição russa sobre a Síria é chocante, mentirosa e indefensável. Os russos bloquearam repetidamente os esforços para conferir uma autoridade mais forte a medidas pacificadores da ONU, usando argumentos hipócritas que mal conseguem ocultar seus próprios interesses nacionais de manter um pé militar, econômico e político no Oriente Médio. Eles treinaram o Exército sírio que está matando civis e agora – a se acreditar em Clinton – estão fornecendo helicópteros de ataque para ajudar os homens de Assad.

Não terão vergonha? No caso da Rússia de Putin, essa pergunta se responde por si mesma. Não terão outros interesses nacionais que poderiam eventualmente sobrepujar os primeiros? Essa é uma pergunta que merece ser respondida. Se formos realmente sérios sobre nosso compromisso em parar o massacre na Síria, nós no Ocidente precisamos considerar atrativos maiores que ainda possamos mostrar à Rússia, mesmo com algum custo para nós, para que ela mude de posição. A estrada para Damasco passa por Moscou, e a conversão de Putin não será oficiada por algum Deus. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD, BOLSISTA SÊNIOR NA HOOVER INSTITUTION E AUTOR DE ‘FACTS ARE SUBVERSIVE: POLITICAL WRITING FROM A DECADE WITHOUT A NAME’ 

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