Estradas que ligam Argentina e Uruguai continuam bloqueadas

Ambientalistas e moradores da cidade argentina de Gualeguaychú, na Argentina, decidiram em assembléia na noite de terça-feira manter fechados dois dos três principais acessos ao Uruguai "por tempo indeterminado". Cerca de 500 pessoas estão acampadas em duas pontes que dão acesso ao Uruguai há 19 dias para protestar contra a construção de duas fábricas de pasta de celulose (matéria-prima para fazer papel), na cidade uruguaia de Fray Bentos. Nos fins-de-semana, o protesto chega a reunir 2.000 pessoas.Desde o início da manifestação, cerca de 200 caminhões vindos da Argentina (70% do transporte rodoviário em direção ao Uruguai) têm sido impedidos de cruzar a fronteira diariamente. Entre eles, há veículos saídos do Brasil com produtos brasileiros que seguem para o Uruguai.Os manifestantes do lado argentino ameaçam fechar ainda uma terceira ponte de acesso ao país vizinho, caso a assembléia de moradores da cidade argentina de Concórdia vote, nesta quarta-feira, pela adesão ao protesto.Disputa diplomáticaA manifestação criou uma crise diplomática entre os governos argentino e uruguaio. A ministra do Exterior do Uruguai, Belela Herrera, disse que o país recorrerá à Organização dos Estados Americanos (OEA) para pedir a liberação do tráfego nos pontos bloqueados da fronteira.O ministro dos transportes do Uruguai, Víctor Rossi, afirmou que o bloqueio está afetando a economia do país, com queixas de empresários de diferentes setores.As disputas entre os dois países vizinhos, ligados pelos rios Uruguai e da Prata, começaram no final do ano passado, quando o governo argentino passou a protestar contra as construções das fábricas de celulose das empresas finlandesa Botnia e da espanhola Ence. O governo do presidente Nestor Kirchner argumentou que o governo uruguaio não respondeu a todas as perguntas sobre a possível poluição do rio Uruguai após a construção das indústrias. O ministro do Exterior argentino, Jorge Taiana, argumenta que os dois países possuem acordo, feito nos anos 60, de responsabilidade mútua sobre a preservação daquelas águas.Mas o ex-presidente do Uruguai Julio Maria Sanguinetti, que apóia a decisão do atual presidente Tabaré Vázquez de manter as obras, diz que um acordo mais recente permite a instalação das indústrias.PoluiçãoA Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA) convidou o espanhol Antonio Masa, da Associação de Defesa de Pontevedra, na Galícia (Espanha), para participar das manifestações na fronteira. Masa comandou protestos semelhantes contra a empresa Ence na Espanha. "Essa não é uma briga entre argentinos e uruguaios, mas dos cidadãos contra as fábricas de pasta de papel que poluem várias partes do mundo", disse Masa durante a assembléia de terça-feira. Os manifestantes, adultos, crianças e adolescentes que vivem na cidade de Gualeguaychú, acreditam que podem convencer os uruguaios a aderir ao protesto contra as fábricas.É o caso de Alfredo de Angeli, de 49 anos, da Federação Agrária Argentina. "Elas vão poluir nosso ar, prejudicar a agricultura, o gado e o turismo. Os especialistas já explicaram que, cada vez que chover, as terras serão contaminadas pelo que for lançado no rio Uruguai. E não podemos permitir isso", disse Angeli. Nesta quarta-feira, Angeli acompanha em Buenos Aires, juntamente com outros moradores de Gualeguaychú, a votação no Congresso Nacional do projeto do presidente Kirchner para que pedir a intervenção do Tribunal Internacional de Haia na disputa.O presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, disse em uma carta ao colega argentino que prefere resolver dentro do Mercosul. Krichner preferiu não respondê-la, alegando, segundo um importante assessor da Presidência da República, que as obras precisam ser suspensas antes de qualquer negociação.Os manifestantes argentinos têm a simpatia de Kirschner e o apoio do governo da província de Entre Rios e das principais entidades de Gualeguaychú, desde a rede hoteleira até os bombeiros.No Uruguai, partidos tanto de esquerda como de direita têm apoiado a posição de Tabaré Vázquez. O analista do jornal argentino La Nación, Joaquín Morales Solá, escreveu que a crise "deixa a imagem de um Mercosul fraco e indefeso, que não sabe resolver seus próprios problemas".

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