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Estratégia americana de expor segredos russos pode sair pela culatra

Cada uma das revelações é parte de uma estratégia de se antecipar aos russos numa área em que Moscou mostra excelência há muito tempo: guerra de informação   

David E. Sanger / The New York Times , O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2022 | 05h00

WASHINGTON - Em momentos cruciais desde que a crise ucraniana se incendiou, dois meses atrás, o presidente americano, Joe Biden, e seus conselheiros trabalharam para expor os planos do presidente russo, Vladimir Putin, tornando públicas informações de inteligência sobre seus próximos passos e denunciando-o como um “agressor”. 

O governo americano revelou informações que somente podem ter sido obtidas por espionagem interna, pelo menos até certo grau, nas Forças Armadas ou nos sistemas de inteligência da Rússia. O Pentágono declarou publicamente que o contingente das forças que Putin concentra em três pontos da fronteira da Ucrânia poderá chegar a mais de 175 mil soldados antes do início de uma invasão, um dado impossível de discernir por meio de fotos de satélite. 

Poucas semanas depois, Washington afirmou que Moscou tentaria encenar uma provocação — uma “operação de bandeira falsa” contra suas próprias forças ou contra seus aliados — para criar um pretexto para agir. Então, os americanos encorajaram os britânicos a revelar o plano russo de instaurar um governo fantoche em Kiev. 

Cada uma dessas revelações é parte de uma estratégia de se antecipar aos russos numa área em que Moscou mostra excelência há muito tempo: guerra de informação.   

Mas as revelações também levantaram dúvidas sobre se Washington, ao tentar sabotar as ações de Moscou revelando-as antecipadamente, está dissuadindo a Rússia de agir ou impulsionando sua ação. O objetivo do governo americano é interpelar os russos a cada momento do impasse, expondo seus planos e forçando-os a pensar em estratégias alternativas. Mas essa abordagem poderia insuflar Putin num momento em que oficiais de inteligência americanos acreditam que ele ainda não decidiu se vai invadir ou não. 

Democracias normalmente são péssimas em guerra de informação, e autoridades americanas insistem que há uma diferença entre o que elas estão fazendo e as artes ocultas que Putin tornou famosas.  

A Rússia com frequência inventa narrativas, e suas autoridades não veem problema em mentir escancaradamente, como fizeram quando Putin criou o pretexto para anexar a Crimeia em 2014, ordenou o uso de agentes nervosos contra o opositor russo Alexei Navalni e um ex-espião russo no Reino Unido e lançou uma série de ciberataques contra os Estados Unidos.

Os alertas dos americanos e dos britânicos, insistem autoridades, decorrem do que eles veem como um fluxo crível de informações de inteligência e foram apoiados por fotos de satélites comerciais e posts no Twitter que mostram forças massivas concentrando-se nas fronteiras da Ucrânia. 

Naturalmente, as autoridades recusam-se a contar como conseguiram as informações ocultas sobre os planos da Rússia. Mas várias das revelações desencadearam debates a respeito de os EUA ou seus aliados terem se arriscado a entregar suas fontes e métodos, que são o recurso mais precioso no mundo da inteligência. 

“Independentemente de como a coisa se desenrolar, isso será um grande estudo de caso sobre o uso preventivo da inteligência”, afirmou Paul Kolbe, ex-chefe da Divisão Central para Eurásia da CIA, que trabalhou na Rússia durante a ascensão de Putin e agora dirige o Intelligence Project, em Harvard.

Mas essa estratégia de soar alarmes já provoca indisposições. A liderança da Ucrânia queixou-se a respeito da caracterização americana de que a invasão é “iminente” — ou mesmo provável. “Eles tornam isso tão extremo e ardente quanto possível”, reclamou outro dia o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, transparecendo uma posição que ele expressou mais vividamente para Biden, num telefonema na semana passada. “Na minha opinião, isso é um erro.” 

A fonte da preocupação de Zelensky é compreensível: ele não quer ver a população de seu país em pânico e o mercado de ações arruinado, nem investidores e executivos estrangeiros correndo para o aeroporto. E os assessores de comunicação de Biden diminuíram um pouco o tom, retirando a palavra “iminente" de seus alertas a respeito de uma possível invasão russa. 

“Paramos de usá-la porque considero que ela mandou uma mensagem que não tínhamos intenção de transmitir, de que sabíamos que o presidente Putin havia tomado uma decisão”, reconheceu a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, durante entrevista.

Outras autoridades do governo, porém, afirmaram pensar que viram sinais de que o próprio Putin ficou um pouco mais atirado por causa da abordagem agressiva dos EUA. Durante uma conferência de imprensa, na terça-feira, o líder russo acusou a Casa Branca de reviver a estratégia de contenção da Guerra Fria — e depois disse pensar que o governo Biden estava tentando impeli-lo ao ataque, como justificativa para aplicar sanções.    

“Nesse sentido, a própria Ucrânia não passa de um instrumento para alcançar esse objetivo”, afirmou ele. “Isso pode ser feito de diferentes maneiras, ao atrair-nos para algum tipo de conflito armado e, com a ajuda de seus aliados na Europa, forçando a introdução contra nós dessas duras sanções das quais eles estão falando agora nos EUA.” 

Mas para muitos em Washington, o que Putin omitiu é mais importante do que ele afirmou. Não houve nenhuma menção para que os EUA e a Otan atendam às demandas para que suas tropas deixem os países do antigo bloco soviético que agora integram a Otan, nem de que todas as armas nucleares sejam removidas da Europa — ou ele seria forçado a adotar o que qualificou anteriormente e misteriosamente como “meios técnico-militares”. Pode ter sido uma omissão temporária.  

E Putin afirmou que nenhuma das respostas dos americanos e da Otan — cujos textos vazaram para um jornal espanhol — atendeu às suas preocupações centrais. Mas o líder russo sugeriu que ainda há tempo para diplomacia, expressando um tom muito diferente de sua exigência de semanas atrás, quando disse que precisava de “garantias por escrito” — e imediatamente.  

Pessoas que entram em disputas com Putin já há anos viram um homem em busca de uma escapatória. William Taylor Jr., diplomata veterano que serviu como embaixador dos EUA na Ucrânia, afirmou na quarta-feira considerar que a posição mais agressiva de Biden — uma mudança “de dissuasão passiva para dissuasão ativa”, como ele chama — está funcionando. 

“Acho que Putin já pestanejou, em certo sentido”, afirmou em entrevista Taylor, que ficou famoso ao testemunhar nas audiências de impeachment do ex-presidente Donald Trump. “Ele se mostrou desafiador e agora busca uma escapatória. Ele blefou em sua aposta e pode, por enquanto, contentar-se com negociações em uma série de tópicos.” Outros não têm tanta certeza. 

Alguns especialistas em Rússia dentro e fora do governo afirmam que, ainda que Putin busque respeito pela Rússia enquanto grande potência e uma atenção real às suas necessidades de segurança — queixas que o Ocidente em grande parte ignorou — extensas negociações sobre controles de novos armamentos ou limites recíprocos sobre movimentos de tropas e exercícios militares não deverão satisfazê-lo. Putin deverá exigir concessões concretas, segundo sua visão, e imediatas antes de retirar suas forças das fronteiras.  

Várias autoridades de Washington afirmam pensar que o interesse de Putin em diplomacia é puramente tático — e temporário. Suspeitam que Putin ainda não reuniu todas as suas forças e não quer irritar o presidente chinês, Xi Jinping, invadindo a Ucrânia justamente durante a Olimpíada de Inverno em Pequim. Putin emerge de um longo isolamento relacionado à covid-19 para juntar-se à celebração esta semana e aproveitará o momento para se encontrar com Xi, com quem forma um tipo de aliança por conveniência. 

A Olimpíada encerra-se em torno de 20 de fevereiro, e os encarregados de Washington para lidar com a Rússia afirmam que essa será a hora de avaliar se eles surtiram algum impacto. Talvez, afirmam eles, Putin teste Biden tentando tomar mais território no leste e no sul da Ucrânia, onde fala-se russo. Talvez ele tente minar o governo de Zelensky cortando a energia ou as telecomunicações de seu país. 

Mas muitos ecoaram a declaração de Biden de duas semanas atrás, numa entrevista coletiva, quando o americano afirmou: “Acho que ele invadirá. Ele tem de fazer algo”. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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