Estratégia contra EI precisa mudar

EUA devem abandonar retórica grandiloquente e reforçar pragmatismo para derrotar extremistas na Síria e no Iraque

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2014 | 02h01

Desde o começo, a política do presidente americano, Barack Obama, para a Síria naufragou. O motivo foi uma dissociação entre as palavras e os atos. E ele repetiu a dose. Tendo declarado que o objetivo da política americana era "degradar e, por fim, destruir" o Estado Islâmico (EI), Obama agora se vê pressionado a intensificar a ação militar na Síria. É um plano condenado ao fracasso. O governo devia abandonar sua retórica grandiloquente e deixar claro que está centrado numa estratégia contra o EI realmente factível - a contenção.

Uma escalada militar na Síria não conseguirá alcançar os objetivos americanos e quase certamente produzirá caos e consequências inesperadas . A realidade básica é que Washington não tem parceiros locais sérios no território. É importante compreender que o Exército Sírio Livre (ESL), na verdade, não existe. Um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA assinala que o nome não se refere a nenhum "comando organizado ou estrutura de controle com alcance nacional". O diretor da inteligência nacional atestou que a oposição ao regime de Bashar Assad é formada por 1,5 mil milícias separadas. Nós chamamos um aglomerado dessas milícias de Exército Sírio Livre.

O pesquisador acadêmico Joshua Landis - cujo blog "Syria Comment" é uma fonte fundamental - estima que o regime de Assad controle cerca de metade do território sírio, mas uma proporção muito maior da população. O EI controla cerca de um terço do país, e as outras milícias, pouco menos de 20%. No entanto, os maiores e mais eficazes desses grupos (exceto o EI) são filiados à Al-Qaeda e também inimigos mortais dos EUA. Os grupos não jihadistas controlam coletivamente menos de 5% da Síria, e Landis escreve que, segundo líderes da oposição, Washington está apoiando cerca de 75 desses grupos.

Uma estratégia americana de intensificar ataques aéreos na Síria - mesmo combinada com forças terrestres - tornaria necessário que os grupos mais fracos e mais desorganizados no país, de alguma maneira, se tornassem os mais fortes, primeiro derrotando o EI, depois o regime de Assad, ao mesmo tempo em que afugentassem a Frente al-Nusra e o Khorasan.

A chance de tudo isso ocorrer é remota. É bem mais provável que os bombardeios na Síria produzam caos e instabilidade, destruindo ainda mais o país e promovendo a terra de ninguém onde os grupos jihadistas prosperam.

Os críticos garantem que essa política teria sido fácil três anos atrás, quando a oposição a Assad era mais secular e democrática. Isso é uma fantasia. É fato que as manifestações contra o regime de Assad nos meses iniciais pareciam ser dirigidas por pessoas mais seculares e liberais. Isso também vale para a Líbia e o Egito. No entanto, com o tempo, as forças mais organizadas, passionais e religiosas triunfaram. É um padrão familiar em revoluções - da francesa à russa e à iraniana. Elas são iniciadas por liberais e depois apropriadas por radicais.

Para alguma estratégia funcionar na Síria, ela precisa ter um componente militar e um político. O elemento militar é fraco. O político inexiste.

A razão subjacente crucial para a violência no Iraque e na Síria é uma revolta sunita contra governos em Bagdá e Damasco que eles veem como regimes hostis e apóstatas. Essa revolta, por sua vez, foi alimentada por Arábia Saudita, Emirados Árabes e Catar, cada um apoiando seus grupos preferidos, o que só aumentou a complexidade da situação. Do outro lado, o Irã apoiou os regimes xiita e alauita, garantindo com isso a regionalização do conflito sectário.

A solução política, presumivelmente, é algum tipo de acordo de divisão de poder nessas duas capitais. Mas isso não é algo que os EUA possam costurar na Síria. Eles tentaram no Iraque e, apesar de 170 mil soldados, dezenas de bilhões de dólares e a hábil liderança de David Petraeus, os acordos que ele costurou começaram a se desmanchar poucos meses depois de sua partida, bem antes de as tropas americanas saírem. Essa não é uma parte do mundo onde divisão de poder e pluralismo funcionaram - com a exceção do Líbano, e isso só depois de uma guerra civil sangrenta de 15 anos na qual um em cada 20 habitantes do país foi morto.

A única estratégia contra o EI que tem alguma chance de funcionar é a contenção - fortalecer seus vizinhos, que estão bem mais ameaçados que os EUA. Esses incluem, principalmente, Iraque, Jordânia, Líbano, Turquia e os Estados do Golfo. O maior desafio é conseguir que o governo iraquiano faça concessões sérias aos sunitas para que eles sejam recrutados para a luta, algo que ainda não ocorreu.

Tudo isso deveria ser combinado com o contraterrorismo, o que implica atacar alvos essenciais do EI, além de medidas para rastrear combatentes estrangeiros, barrar sua circulação, interceptar financiamentos e proteger vizinhos e o Ocidente da infiltração jihadista.

O governo Obama está adotando muitos elementos dessa estratégia. Ele deve ser franco sobre seus objetivos e abandonar a retórica grandiloquente que o está condenando a uma intensificação e ao fracasso. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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