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Estratégia 'covid zero' da China começa a provocar cansaço e frustração

Tolerância zero praticada por Pequim tem dificultado a vida de comerciantes e de pessoas que precisam se deslocar pelo país, mas analistas duvidam que estratégia será revisada antes de 2022

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2021 | 15h00

PEQUIM - Há quase dois anos combatendo a pandemia com algumas das medidas mais rigorosas do mundo, a China começa a enfrentar sinais de cansaço e frustração pela política de tolerância zero adotada por Pequim.

Enquanto muitas nações ao redor do mundo - inclusive no cauteloso continente asiático - começam a adotar abordagens mais flexíveis, apostando na imunização para tornar possível a convivência com o vírus, a China segue intransigente. Fronteiras seguem fechadas e a testagem e o confinamento obrigatório para milhares de pessoas são decretadas ao menor sinal do vírus - às vezes, com apenas um caso confirmado.

No começo do mês, autoridades decretaram o fechamento do parque de diversões Shanghai Disneyland após a detecção de um caso de covid-19, fazendo com que cerca de 34 mil pessoas fossem testadas antes de deixar o parque, de acordo com a prefeitura de Xangai. Também na primeira semana de novembro, o governo comunista recomendou que os cidadãos estocassem produtos de primeira necessidade em suas casas para evitar casos de desabastecimento no caso de um novo lockdown ser decretado.

Os custos da estratégia são bem conhecidos pelos 210 mil habitantes de Ruili, uma cidade na fronteira com Mianmar que já passou por três lockdowns e frequentes séries de testes. Um comerciante identificado apenas como Lin afirmou que sua joalheria está à beira da falência sem o movimento de turistas e clientes regulares, afastados pelas restrições sanitárias. "Continuamos operando (...) mas estamos [apenas] sobrevivendo", disse à France-Presse, sem revelar seu nome completo por medo de represálias.

Mesmo com o medo de represálias, cada vez mais relatos e questionamentos surgem no país, principalmente nas redes sociais. A saga desesperada de um homem pelo país provocou comoção nas redes sociais. O empresário saiu de Pequim para uma viagem de negócios e não conseguiu retornar à capital apesar de estar vacinado, de ter apresentado resultado negativo em um teste de covid e de não ter viajado para uma área considerada de risco. Depois que o incidente viralizou nas redes sociais, as autoridades admitiram que algumas pessoas podem ter sido bloqueadas por engano.

Também repercutiu nas redes sociais chinesas quando, na região central do país, funcionários do serviço de saúde mataram um cachorro enquanto os proprietários do animal estavam em quarentena. "Como podemos confiar em um Estado que diz servir ao povo, mas aplica a lei tão brutalmente?", questionou uma pessoa.

"[Pequim] enfrenta uma pressão interna crescente para mudar para uma abordagem mais flexível", explicou o analista Yanzhong Huang, do Council on Foreign Relations, em entrevista à France-Presse.

Mas a maioria dos analistas não acredita que a pressão vá mudar a estratégia do governo comunista antes de 2022 - quando o país sedia os Jogos Olímpicos de Inverno, em fevereiro, e realiza o Congresso do Partido Comunista no final do ano. Funcionários de governos regionais são sumariamente demitidos quando não conseguem controlar surtos de contágios, fazendo-os optar por medidas cada vez mais drásticas.

Em Ruili, por exemplo, a imprensa local noticiou recentemente que um bebê teria sido submetido a mais de 70 testes de covid-19 em meio às exigências do governo.

Com a imprensa estatal tentando impedir qualquer debate sobre a estratégia chinesa, apontada como um sucesso, parte da insatisfação só é visível nas redes sociais chinesas. A frustração com ficou clara em uma publicação do ex-vice-prefeito da cidade, Dai Rongli, no WeChat. Rongli afirmou que as medidas "estão acabando com as últimas gotas de vida [da cidade]". Um morador respondeu à postagem concordando: "Apenas os que estão nesta situação sabem o quanto nos sentimos miseráveis".

Os relatos, porém, não devem ser suficientes para mudar a política de Estado. Para Natasha Kassam, do centro australiano Lowy Institute, as autoridades prosseguirão com sua estratégia e vão desprezar os "cidadãos frustrados como uma minoria".

Enquanto isso, na cidade fronteiriça de Ruili, o produtor de vídeos Lu utilizou todas as economias para pagar o aluguel de seu escritório. "Não posso aguentar muito mais tempo", disse. A falta de renda levou outros moradores da região a deixarem o local. Wen, um comerciante de jade, deixou a cidade após meses tentando se manter: "Não há negócios para fazer em Ruili". / AFP

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