Estratégia de enclave no Iraque

Estabilidade é possível no Curdistão e no sul xiita, mas levante sunita tem de ser contido

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2014 | 02h04

O Iraque conseguirá se manter unido? Vale a pena examinar o que está ocorrendo nesse país por um prisma mais amplo. Quem observou o Oriente Médio 15 anos atrás terá visto uma série de regimes notavelmente semelhantes - da Líbia e da Tunísia, a oeste, até Síria e Iraque, no leste. Todos eram ditaduras. Todos eram seculares, no sentido de que não derivavam sua legitimidade de uma identidade religiosa. Historicamente, todos haviam sido sustentados por potências externas - primeiro por britânicos e franceses, depois pelas superpotências -, significando com isso que esses governantes se preocupavam mais em agradar seus patronos no exterior do que em angariar apoio em casa. E eles tinham fronteiras seguras.

Hoje, por toda a região, da Líbia à Síria, essa estrutura de autoridade implodiu e os povos estão buscando suas antigas identidades. Grupos sectários como sunitas, xiitas, curdos - com frequência de natureza islamista - preencheram o vazio de poder, espalhando-se sem se importar com fronteiras e disseminando a violência. No Iraque e outras partes nenhuma quantidade de poder militar americano conseguirá reconstruir o vaso quebrado.

Há exceções. A Argélia continua sendo uma ditadura secular à moda antiga. O Egito - talvez o Estado de funcionamento mais prolongado do mundo - reafirmou a velha ordem pelo uso da força. As monarquias do Golfo - Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes - suportaram a instabilidade, em parte, por terem maior legitimidade e, sobretudo, por sistemas enormes de clientelismo. E Marrocos, Jordânia e Tunísia se reformaram o suficiente, talvez, para manter os revolucionários sob controle.

A velha ordem era provavelmente insustentável. Repousava sobre uma repressão extrema, que estava produzindo movimentos de oposição extremos, e o patrocínio de superpotências, que não poderia durar para sempre. Os países com divisões sectárias importantes nos quais grupos minoritários governavam - Iraque e Síria - se tornaram os mais vulneráveis.

Sejamos claros. A Guerra do Iraque foi o gatilho crucial e a ocupação americana exacerbou desnecessariamente identidades sectárias em vez de construir identidades nacionais. Mas uma vez quebrada a velha ordem, era pouco provável que os xiitas do Iraque, que haviam sido constrangidos por décadas, em alguns casos brutalmente, concordariam em dividir o poder facilmente com seus antigos perseguidores.

É bem verdade que durante e imediatamente após o reforço das tropas americanas - entre 2007 e 2008 - o premiê Nuri al-Maliki se comportou de maneira diferente. Mas se foi preciso o perigo de uma guerra civil, a presença de cerca de 200 mil soldados estrangeiros, um general americano particularmente habilidoso (David Petraeus) e bilhões de dólares para obrigá-lo a agir da maneira conciliatória por um breve momento, era pouco provável que isso fosse um acordo de longo prazo.

É duvidosa a possibilidade de um governo xiita em Bagdá - usando um Exército cada vez mais xiita para se defender - recuperar algum dia plenamente a lealdade dos sunitas. Os sunitas, por sua vez, fizeram matanças suficientes durante décadas para deixar os xiitas cautelosos.

Washington insistiu para o governo de Bagdá ser inclusivo. Sugeriu que o melhor resultado seria um novo governo iraquiano com uma coalizão ampla. Isso é verdade, mas também improvável. Washington precisa de um plano b. O plano b seria uma estratégia de enclave. Os EUA deveriam reconhecer que o Iraque está se tornando um país de enclaves e trabalhar para garantir que essas regiões permaneçam tão estáveis, livres de terroristas e abertas quanto possível. O enclave curdo - agora fortalecido por ter capturado a cidade vital de Kirkuk - já é uma história de sucesso. A região xiita do sul pode ser estável. Será possível trabalhar com países como Arábia Saudita e Jordânia para influenciar grupos sunitas no meio do país, expurgando terroristas e dando poder aos sunitas moderados.

Uma estratégia comparável na Síria seria permitir que grupos como curdos e sunitas protejam suas próprias áreas da brutalidade de Bashar Assad. Mas reconheceria que eles não conseguirão derrubar o regime. Haverá lugares onde o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil, na sigla em inglês) e grupos similares ganharão força. Nesses locais, Washington teria de usar drones, contrainteligência e ataques esporádicos de forças especiais - como no Afeganistão, no Paquistão, no Iêmen e na Somália. O mundo de enclaves já existe. Washington simplesmente precisa perceber quais partes do Iraque já estão nele.

O Oriente Médio poliglota já estava moribundo havia algum tempo, mas agora está nos últimos suspiros. Países ricos em minorias - como o Iraque - viram suas populações cristãs fugirem ou serem massacradas. Onde as minorias permanecem, as comunidades estão se segregando. Os EUA não podem deter essa tendência, mas podem tentar limitar suas repercussões, fortalecer países e zonas estáveis, apoiar os que acreditam em reconciliação e proteger a si mesmos e seus amigos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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