Estratégia de Obama desagrada a democratas

Base do partido critica política do presidente para questões militares

AP, Reuters, NYT e WP, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2009 | 00h00

A opção do presidente dos EUA, Barack Obama, de não liberar cerca de 40 fotos de presos sendo torturados por soldados americanos irritou vários democratas. Assim, com o Partido Republicano em frangalhos depois da desastrosa presidência de George W. Bush, o maior foco de oposição a Obama começa a surgir dentro de seu próprio partido.A liberação das fotos havia sido conseguida na Justiça pela ACLU, um grupo de defesa dos direitos humanos, e deveria ocorrer no dia 28. Obama, que concordava com a divulgação das imagens, mudou de ideia na quarta-feira e orientou os advogados do governo a contestar a decisão judicial. Os principais blogs e sites de notícia democratas criticaram ontem duramente a decisão do presidente. Segundo o Talking Points Memo, "Obama capitulou ao bushismo". Joan McCarter, editor do Daily Kos, descreveu a decisão como uma "reviravolta fútil e indesejada".Jane Hamsher, outra velha militante do partido, acusou Obama de cumplicidade com os "crimes do governo anterior" e de não cumprir a promessa de transparência feita na campanha. "Desde que assumiu, Obama tem demonstrado um firme desejo de manter em segredo os crimes de Bush", disse Jane. Vários congressistas, principalmente a ala esquerda dos democratas, também estão insatisfeitos com Obama, que não estabeleceu data para se retirar do Afeganistão e não sabe o que fazer com os presos de Guantánamo. Muitos já estão duvidando que ele seja de fato um político progressista.A irritação é um sinal de que a vida de Obama não será fácil no Congresso. Mesmo tendo maioria nas duas Casas, um motim em seu próprio quintal pode complicar o governo em votações importantes. O desconforto com a guerra no Afeganistão, por exemplo, é bem maior agora nas fileiras democratas. Vários líderes do partido, incluindo o deputado David Obey, presidente da Comissão Orçamentária da Câmara, disseram que Obama tem mais um ano para resolver a questão militar no Afeganistão antes de eles perderem a paciência. "Sobre Afeganistão e Paquistão, tenho dúvidas de que o governo consiga realizar o que pretende", disse Obey. "O problema não são as metas de Obama. A questão é que não temos as ferramentas necessárias para implementar qualquer política naquela região." Sobre Guantánamo, os senadores democratas aceitaram aprovar uma verba para o fechamento da prisão, mas com restrições. Eles dizem que o dinheiro só sai se o governo submeter ao Congresso um plano sobre como fecharia o campo e o que faria com os prisioneiros. A insatisfação na ala esquerda dos democratas é ainda maior. Muitos já estão se opondo completamente à continuidade das operações no Iraque e no Afeganistão e planejando votar contra o governo quando o tema for a liberação de verba para as guerras. "Não há nenhuma necessidade, em pleno século 21, de fazer isso para nos tornar mais seguros", disse Alan Grayson, democrata da Flórida, sobre a continuidade das duas guerras. "É uma estratégia do século 19 sendo jogada às custas de muito dinheiro e sangue no momento errado e no lugar errado." John Murtha, deputado democrata que preside a Subcomissão de Orçamento de Defesa da Câmara, reclamou que o governo ainda não apresentou um plano claro para tranquilizar o Congresso sobre as operações no Afeganistão. "Mas continuamos pedindo", disse Murtha. "Acho que os democratas estão nervosos porque ainda não viram um plano." Segundo Tad Devine, consultor político dos democratas, a decepção de alguns democratas não significa um rompimento da ala esquerda do partido com o presidente. Embora estejam irritados com a decisão de não divulgar as fotos, é difícil imaginar que eles se alinhem aos republicanos. "A decisão de não divulgar as fotos, politicamente, foi a menos pior que ele poderia tomar", disse.

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