Estratégia de Obama é isolar Putin

Num eco da Guerra Fria, presidente dos EUA está concentrado em sufocar a Rússia, cortando seus laços políticos e econômicos

PETER, BAKER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2014 | 02h08

A despeito de ainda não haver uma solução fácil para a crise na Ucrânia, o presidente Barack Obama e seu staff de segurança nacional estão olhando para além do conflito imediato. Querem forjar uma atitude de longo prazo para a Rússia, que aplica uma versão atualizada da estratégia de contenção da Guerra Fria.

Do mesmo modo como os EUA resolveram, logo depois da 2ª Guerra, conter a União Soviética e suas ambições globais, Obama está concentrado em isolar a Rússia do presidente Vladimir Putin, cortando seus laços econômicos e políticos com o mundo exterior, limitando suas ambições expansionistas e tornando-a efetivamente um Estado pária.

Obama concluiu que, mesmo que haja uma solução para o atual impasse sobre a Crimeia e o leste da Ucrânia, ele jamais terá um relacionamento construtivo com Putin, segundo assessores. Por isso, gastará seus dois anos e meio restantes na presidência reduzindo ao mínimo as rupturas que Putin pode causar, preservando qualquer cooperação marginal que possa ser salva e ignorando o chefe do Kremlin em favor de outras áreas de política externa com progresso possível.

"Se você aguentar, for confiante e aumentar gradualmente o custo para a Rússia, isso não resolverá seu problema da Crimeia e provavelmente não resolverá seu problema da Ucrânia oriental. Mas poderá resolver seu problema com a Rússia", diz Ivo H. Daalder, ex-embaixador de Obama na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e presidente do Council on Global Affairs em Chicago.

A manifestação desse pensamento pode ser vista na escolha do próximo embaixador americano em Moscou por Obama. Embora não seja definitivo em termos oficiais, a Casa Branca se prepara para nomear John F. Tefft, um diplomata que serviu como embaixador na Ucrânia, Geórgia e Lituânia. Quando a busca começou meses atrás, funcionários do governo estavam em dúvida sobre enviar Tefft, temendo que sua experiência em antigas repúblicas soviéticas que escaparam da influência de Moscou pudesse irritar a Rússia. Agora, esses funcionários dizem que não há nenhuma relutância em ofender o Kremlin.

Aliás, Obama está readaptando uma atitude diante de Moscou estabelecida pelo diplomata George F. Keenan, em 1947, e dominou a estratégia americana até a queda da União Soviética. A prioridade do governo é formar um consenso internacional contra a Rússia, incluindo até a China, sua aliada no Conselho de Segurança da ONU.

Curto prazo. Enquanto a atitude de longo prazo de Obama toma forma, um debate perturba seu governo sobre até onde ir no curto prazo. Por enquanto, conselheiros econômicos e assessores da Casa Branca que insistem numa abordagem comedida venceram. A Casa Branca preparou outra lista de figuras e instituições russas para sancionar nos próximos dias caso Moscou não cumpra o acordo firmado em Genebra na quinta-feira para desarmar a crise. Mas o presidente não estenderá as medidas punitivas a setores inteiros da economia russa.

Os integrantes linha-dura dos departamentos americanos de Estado e Defesa têm se mostrado frustrados. Sugerem que Obama tem sido fraco e enviou involuntariamente a mensagem de que descartou a Crimeia depois da sua anexação pela Rússia. Eles têm pressionado por sanções mais rápidas e abrangentes.

A visão dominante na Casa Branca é a de que, apesar de Putin parecer estar se regozijando com o brilho do sucesso, ele descobrirá quantos danos econômicos trouxe ao seu país. Os assessores de Obama observaram a queda do mercado acionário russo e do rublo, a fuga de capitais do país e a crescente relutância de investidores estrangeiros em expandir seus negócios na Rússia. Eles argumentam que, apesar de as ações americanas e europeias ainda não terem afetado amplamente a economia russa, enviaram uma mensagem às empresas internacionais. E a simples ameaça de medidas mais abrangentes produziu um efeito congelante.

Se a economia russa sofrer no longo prazo, o pacto implícito de Putin com o público russo prometendo crescimento em troca de controle político poderá se romper.

Isso pode não ocorrer rapidamente e Obama parece decidido a não deixar que a Rússia domine sua presidência. Porém, apesar de o presidente gastar bastante tempo com a crise ucraniana, ela não parece absorvê-lo. Desde que voltou de uma viagem à Europa, no mês passado, ele concentrou seu cronograma público em questões como treinamento profissionalizante e salário mínimo. Jornalistas perguntaram sobre a Ucrânia e ele manifestou ceticismo sobre as perspectivas do acordo de Genebra que seu secretário de Estado, John Kerry, havia costurado.

Isso representa uma virada em relação ao começo da presidência de Obama, quando ele acalentava sonhos de forjar uma nova parceria com a Rússia. Agora, a questão é quanto da relação pode ser salvo. Obama ajudou a Rússia a ser admitida na Organização Mundial do Comércio (OMC). Agora, trabalha para limitar seu acesso a mercados financeiros internacionais.

Mas os dois lados não cortaram totalmente os laços. Os EUA não agiram para tentar expulsar a Rússia da OMC. E o governo Obama continua trabalhando com a Rússia no desarmamento de armas químicas da Síria e na negociação de um acordo com o Irã para este reduzir seu programa nuclear. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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