Estratégia de Sarkozy irrita seus partidários

Discurso do presidente com acenos à extrema direita causa mal-estar na UMP

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2012 | 03h08

Obrigado a buscar votos do partido de extrema direita Frente Nacional, a União por um Movimento Popular (UMP), de Nicolas Sarkozy, mostra fissuras. Desde a derrota no primeiro turno, personalidades conservadoras vêm reprovando a radicalização da campanha na França. Ontem, o chanceler Alain Juppé projetou o futuro no caso da não reeleição do presidente, já preocupado com as eleições legislativas após a votação presidencial.

Indiferente à crise entre os adversários, o candidato socialista François Hollande também buscou ontem o voto dos extremistas, mas disse não querer o apoio dos xenófobos.

A insatisfação com os rumos da UMP começou a ser exposta ainda no domingo, logo após o triunfo de Hollande no primeiro turno - por 28,6% a 27,1%. O primeiro a revelar descontentamento foi Patrick Devedjian, presidente do Conselho-Geral (equivalente a governador) de Haut-de-Seine e ex-conselheiro de Sarkozy. Preocupado com a "perda dos valores" do partido, ele advertiu que a radicalização do discurso só tinha ajudado a candidata extremista Marine Le Pen, que conquistou 17,9% dos votos. "A extrema direita só é forte quando a direita é fraca, quando ela não tem seu próprio ideário e sua visão de mundo", alertou, reclamando das críticas do presidente à imigração.

As queixas foram seguidas por outros caciques do partido, como Jean-Pierre Raffarin, ex-primeiro-ministro de Jacques Chirac. Para ele, a curva à extrema direita de Sarkozy será um erro. "Não se ganha sem o centro", disse ele à rede de iTele, lamentando a perda de valores "humanistas" da agremiação.

Ontem, dois ex-ministros de Meio Ambiente de Sarkozy, Jean-Louis Borloo e Chantal Jouanno, também se juntaram ao coro dos descontentes. Para Borloo, é um erro abrir mão da linha centrista. Chantal Jouanno, hoje senadora da UMP, foi mais incisiva, chamando a radicalização de "uma miragem dolorosa" em entrevista à revista Le Point. "A direita deve portar os valores do mérito, do trabalho, da autoridade, do respeito, da competitividade e do crescimento sustentável."

Além dos inconformados, Juppé - que apoia a nova linha do partido - demonstrou que a UMP já pensa na derrota: "Se Sarkozy perdesse, nós seríamos muitos a fazer de tudo para que a UMP preserve sua coesão".

A preocupação dos líderes do partido é que, caso a ofensiva sobre os 6,4 milhões de eleitores de Marine Le Pen fracasse e Hollande seja eleito, o partido venha a ser esmagado nas eleições parlamentares de junho, perdendo vagas para candidatos da FN, graças à "propaganda" da extrema direita feita por Sarkozy.

Em resposta, o atual primeiro-ministro francês, François Fillon, classificou as críticas de "estúpidas" e "contraproducentes" e cutucou Juppé. "Devemos nos recusar a aceitar a hipótese de derrota e toda a questão sobre o pós-eleição", afirmou.

Alheio ao conflito interno, Sarkozy elogiou Marine em campanha nos arredores de Paris, chamando-a de "republicana", e disse que enfrentará a "descontrolada" entrada de estrangeiros no país reduzindo a imigração legal em 50%: "Não queremos uma França em que as mulheres ficam presas atrás de véus".

Favorito para o segundo turno do dia 6, Hollande também vem buscando eleitores de Marine, mas sem abrir mão das bandeiras socialistas. Ontem, ele reiterou que vai autorizar o voto de estrangeiros radicados na França - uma das grandes críticas da extrema direita.

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