Shamil Zhumatov/REUTERS
Shamil Zhumatov/REUTERS

Estratégia de 'voto inteligente' de Navalni pode sacudir as eleições na Rússia?

Cinco dos aliados de oposição exilados pelo presidente estão planejando uma campanha eleitoral que quer colocar nos parlamentos dezenas de oponentes do Kremlin

Anton Troianovski e Ivan Nechepurenko, The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2021 | 10h00

MOSCOU - Em um local não revelado fora da Rússia, cinco pessoas vêm se reunindo regularmente há meses para planejar como desferir um improvável golpe contra o presidente Vladimir Putin nas eleições russas deste fim de semana.

Os cinco são aliados de Alexei Navalni, líder oposicionista preso, todos eles exilados por causa de ameaças de longas sentenças de prisão. Sua estratégia é usar a eleição parlamentar que ocorre de sexta a domingo para minar o partido Rússia Unida, de Putin – embora as autoridades tenham impedido quase todos os apoiadores da Navalni e outras figuras conhecidas da oposição de entrar nas cédulas de votação.

A ideia, que Navalni chama de voto inteligente, é unir eleitores com mentalidade oposicionista em torno de um único candidato que concorra contra o Rússia Unida em cada um dos 225 distritos eleitorais do país. Esse candidato pode ser progressista, nacionalista ou stalinista. Antes de os russos irem às urnas, eles podem digitar seus endereços no aplicativo para smartphone “Navalni” para obterem os nomes dos candidatos em quem eles devem votar – quer os eleitores concordem ou não com as opiniões dessas pessoas.

“Queremos que o máximo possível de políticos não aprovados pelo Kremlin chegue aos parlamentos, até mesmo nas câmaras regionais”, disse Ruslan Shaveddinov, um dos aliados de Navalni que trabalha na campanha do “voto inteligente”, em entrevista por telefone. “Tudo isso, de algum jeito, cria turbulência no sistema, o que é muito, muito importante para nós”.

A estratégia de votação inteligente mostra como um movimento de oposição que o Kremlin conseguiu esmagar dentro da Rússia nos últimos meses ainda é capaz de influenciar eventos políticos de fora do país. É também um motivo pelo qual as eleições deste fim de semana chegam com certo suspense, embora uma vitória geral do Rússia Unida esteja garantida.

“Se você pega o nome de um candidato por meio do voto inteligente e vai às urnas, você fica mil por cento mais influente e poderoso do que aquela versão sua que reclama e não faz nada”, escreveu Navalni em uma carta da prisão, publicada na quarta-feira, implorando aos seus apoiadores que votem. “Você não quer tentar?”, ele perguntou. “E também se tornar uma versão melhor de si mesmo?”.

Uma estratégia de votação tática semelhante já foi tentada antes, nem sempre com sucesso. Os oponentes do Brexit a empregaram nas eleições parlamentares britânicas de 2019, mas fracassaram, pois o Partido Trabalhista sofreu diante dos Conservadores a pior derrota em décadas.

No entanto, a Rússia é um caso muito diferente. Sua democracia nominal não é livre e justa, mas o Kremlin ainda busca o verniz da legitimidade popular realizando eleições nas quais um grupo de partidos enfadonhos normalmente divide o voto da oposição. A estratégia de Navalni, implantada pela primeira vez regionalmente em 2019, está tentando virar esse sistema de “democracia administrada” contra Putin.

Embora o índice de aprovação pessoal de Navalni permaneça baixo na Rússia – o instituto independente Levada avaliou em 14% no mês de junho – as autoridades parecem assustadas com o impulso de sua equipe.

O órgão regulador da internet na Rússia bloqueou o acesso ao site do “voto inteligente” e exigiu que o Google e a Apple removessem o “Navalni” de suas lojas de aplicativos. As empresas não o fizeram, gerando novas alegações de interferência americana nas eleições russas. Maria V. Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, afirmou, sem apresentar evidências, que o “voto inteligente” tinha relações com o Pentágono.

Grigorii Golosov, cientista político da Universidade Europeia de São Petersburgo que estudou o “voto inteligente”, diz que o Kremlin tem bons motivos para estar nervoso. Até mesmo um instituto de pesquisa estatal, o VTsIOM, coloca o atual nível de apoio ao Rússia Unida em 29% – bem abaixo dos cerca de 40% que o partido tinha antes da última eleição, em 2016.

Como a vitória nos distritos de mandato único exige apenas uma maioria simples, disse ele, alguns pontos percentuais adicionais gerados pelo “voto inteligente” poderiam ser suficientes para empurrar um adversário para a frente do Rússia Unida em um cenário competitivo.

Com certeza, a noção de sucesso é relativa. É quase certo que o Rússia Unida manterá sua maioria na câmara baixa do Parlamento, a Duma, porque metade dos 450 assentos são distribuídos por lista partidária. O partido no poder com certeza obterá a maioria dos votos, e as eleições russas estão repletas de fraudes.

Mas os aliados de Navalni dizem que eleger algumas dezenas de novos membros do Parlamento que se oponham ao Rússia Unida já seria significativo, porque complicaria as negociações do Kremlin com o que nos últimos anos tem sido pouco mais que uma legislatura chapa branca. E eles insistem que em grande parte do país, o processo de contagem de votos é transparente o suficiente para tentar destituir os parlamentares do Rússia Unida por meios democráticos.

Por enquanto, os principais partidos da oposição no Parlamento, os comunistas e nacionalistas, têm sido, em grande medida, leais a Putin. Mas isso pode mudar.

“Se surgirem complicações políticas mais sérias, por algum motivo, o controle do Parlamento ficará complicado”, disse Golosov. “Se o Kremlin enfraquecer aos olhos dos partidos de oposição, eles começarão a agir em prol de seus próprios interesses”.

Os membros da equipe de Navalni dizem que passaram meses analisando todos os distritos eleitorais federais, bem como as eleições regionais e municipais que também ocorrem neste fim de semana. A equipe de cinco analistas que lidera o projeto – Shaveddinov; Leonid Volkov, chefe de gabinete de longa data de Navalni; e três outros – vêm se reunindo para reuniões de muitas horas várias vezes por semana. Shaveddinov disse ter consultado dados de pesquisas, dezenas de especialistas regionais e relatórios locais para determinar a pessoa mais bem posicionada para derrotar o candidato do Rússia Unida em cada competição.

Eles também mencionam as eleições de 2019 para a Duma de Moscou, nas quais 20 candidatos escolhidos pela equipe de Navalni venceram, diluindo o número de membros do Rússia Unida na legislatura de 38 para 25 dos 45 assentos.

“O Kremlin está tentando cobrir toda a política com concreto”, disse Shaveddinov. “Mas, ainda assim, várias flores desabrocham”.

Shaveddinov, de 25 anos, fugiu da Rússia no início deste ano. Ele passou 2020 no que descreve como o exílio moderno, detido e enviado para um ano de serviço militar obrigatório em um remoto posto avançado em uma ilha no Oceano Ártico. Agora ele está no exterior, apresentando com Volkov programas semanais no YouTube que buscam mobilizar apoio para a estratégia do voto inteligente.

Navalni, a figura de oposição mais conhecida da Rússia, foi envenenado por um agente de nível militar no ano passado e preso em janeiro, quando retornou a Moscou do tratamento na Alemanha. Protestos em todo o país se seguiram a seu retorno, mas a Rússia proibiu o movimento e forçou seus principais aliados a fugir.

Na quarta-feira, a equipe Navalni publicou 1.234 recomendações de votos federais e regionais, esperando até dois dias antes do início da eleição para evitar que suas escolhas fossem retiradas das cédulas. Para quem instalou “Navalni” em seus smartphones, a novidade chegou por push de notificação: “Seus candidatos já estão no aplicativo. Abra, veja e vote!”.

Mais da metade dos candidatos à Duma que a equipe endossou eram comunistas – embora o líder do partido, Gennadi A. Zyuganov, este ano tenha chamado Navalni de “traidor que chegou para incendiar o país”.

A estratégia gerou certo descontentamento entre os críticos do Kremlin, especialmente em lugares como Moscou e São Petersburgo, onde vários candidatos da oposição estão concorrendo no mesmo distrito. O risco é que a equipe de Navalni se equivoque no cálculo de qual candidato tem mais apoio e acabe dividindo ao invés de consolidar o voto da oposição.

No Distrito 198, em Moscou, a equipe Navalni escolheu Anastasiya Bryukhanova, uma gerente de 28 anos que trabalha em projetos de melhoria urbana. Outra candidata da oposição concorrendo no mesmo distrito, Marina Litvinovich, acessou o Twitter e o Facebook para chamar a decisão de “um grande erro” e quase não endossou Bryukhanova.

Em entrevista, Bryukhanova estimou que o endosso do voto inteligente poderia acrescentar pelo menos sete pontos percentuais ao seu resultado.

“Isso aumenta significativamente nossas chances de vitória”, disse ela.

O objetivo do voto inteligente é motivar pessoas como Azalia Idrisova, de 33 anos, empresária da área de saúde mental em Moscou que disse estar impressionada com o número de candidatos e partidos políticos nas urnas. Ela disse que seguiria as recomendações do voto inteligente, mesmo imaginando que os resultados das eleições serão fraudados.

“Tudo o que posso fazer é votar”, disse ela. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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