Philippe Wojazer/Reuters
Philippe Wojazer/Reuters

Estratégia diplomática de Paris incomoda Itália

Ex-metrópole colonial da Líbia, Roma apoia governo de Fayez Sarraj e evita dialogar com Khalifa Haftar

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2017 | 20h00

PARIS - A iniciativa do governo da França de tentar estabilizar a Líbia ficou clara nesta semana, quando presidente Emmanuel Macron agiu sozinho para costurar um acordo entre as partes em conflito na guerra civil líbia. Macron volta à carga seis anos depois que o ex-presidente Nicolas Sarkozy liderou a intervenção contra Muamar Kadafi.

Depois de se lançarem à guerra, França, EUA e Reino Unido não fizeram nenhum esforço para garantir o funcionamento das instituições na Líbia. O resultado foi o conflito civil e a luta pelo poder na qual o país está mergulhado. Macron deseja reparar esse erro, tomando a iniciativa depois que a União Europeia (UE) e a Itália não conseguiram pacificar o país. Por isso, o governo francês não convidou Bruxelas, Roma ou Londres para o diálogo de paz, o que irritou os italianos.

Mesmo tendo sido consultado sobre a iniciativa, o chanceler italiano reclamou de forma velada. "Há muitos formatos abertos na Líbia, muitos mediadores, muitas iniciativas", afirmou Angelino Alfano ao jornal La Stampa. "A francesa não será a primeira e temo que não será a última."

Para Mattia Toaldo, pesquisador do Conselho Europeu de Relações Exteriores, Macron legitima o marechal Khalifa Haftar, em lugar de reforçar o papel do premiê Fayez Sarraj. "O provável resultado é a legitimação internacional de Haftar sem que ele tenha de fazer nenhuma concessão", disse Toaldo ao jornal The Guardian. "Isso tornará o objetivo italiano de estabilizar a Líbia ainda mais difícil."

O desentendimento ficou claro na quinta-feira 27, quando Macron anunciou a criação de um local de triagem de refugiados na Líbia, antes da travessia. A iniciativa foi criticada na UE, mas Macron não deu importância.

Mas o principal foco de divergência entre Paris e Roma foi o convite a Haftar para sentar à mesa de negociações. Até aqui, a Itália evitava convidá-lo. Paris decidiu reconhecer a relevância militar do comandante do Exército Nacional da Líbia e considerá-lo um dos atores determinantes para o fim do conflito – assim como queriam Rússia, Egito e Emirados Árabes.

A decisão foi criticada, pois Haftar é acusado de crimes de guerra. Recentemente, um vídeo mostrando execuções em Benghazi foi atribuído ao Exército do comandante. Algumas ONGs, como Human Rights Watch, se disseram preocupadas com a eventual responsabilidade do militar na ação. 

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