Serviço de impressa da presidência ucraniana/Reuters
Serviço de impressa da presidência ucraniana/Reuters

Estratégia dos EUA é divulgar as próximas ações de Putin; leia análise

Assessores de Joe Biden têm um objetivo de tornar mais difícil para Putin justificar uma invasão com mentiras

Julian Barnes e Helene Cooper*, The New York Times

14 de fevereiro de 2022 | 05h00
Atualizado 14 de fevereiro de 2022 | 05h00

WASHINGTON - Após décadas recebendo aulas de guerra de informação dadas por Vladimir Putin, os EUA estão tentando vencer o mestre em seu próprio jogo. Nas últimas semanas, o governo americano detalhou as ações de forças especiais russas na fronteira da Ucrânia, expôs um plano de criar um vídeo falso como pretexto para uma invasão, divulgou os planos de guerra de Moscou e deu a entender que oficiais russos tinham dúvidas sobre Putin.

Foi uma das mais agressivas difusões de inteligência dos EUA desde a Crise dos Mísseis em Cuba, dizem analistas. A esperança é que a divulgação evite ou atrase uma invasão. Ao mesmo tempo, assessores de Joe Biden têm um objetivo realista: tornar mais difícil para Putin justificar uma invasão com mentiras, minando sua posição e construindo apoio para uma resposta mais dura. Assim, agências de inteligência, estimuladas pela Casa Branca, vêm tornando públicas informações confidenciais. 

É uma aposta. Antes da invasão do Iraque, em 2003, o governo de George W. Bush divulgou informações que justificavam ações preventivas, incluindo interceptações de conversas militares iraquianas e fotos de laboratórios de armas biológicas. Estava tudo errado, baseado em mentiras, interpretações incorretas e funcionários que analisaram o que queriam ver.

Agora é diferente, dizem autoridades americanas. “No Iraque, a inteligência foi usada para iniciar uma guerra”, afirmou Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional dos EUA. “Agora, estamos tentando evitar uma guerra.”

A nova estratégia reflete a influência de Avril Haines, diretora de inteligência nacional, e William Burns, chefe da CIA, que demonstram disposição em liberar informações para frustrar os planos de Moscou. “Aprendemos muito sobre como a Rússia usa a informação como parte de seu aparato militar e de segurança”, disse Emily Horne, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional

O governo ucraniano expressou desconforto, afirmando que as informações sobre uma possível ofensiva russa estavam semeando medo desnecessário. A preocupação mostra como é difícil para qualquer democracia competir com um Estado autocrático, como a Rússia. Sem compromisso com a verdade, o Kremlin é melhor em uma guerra não convencional. “Lembre-se, Putin é um cara da KGB. Ele não pensa como Biden. Putin joga seu próprio jogo, que pode ser um pouco diferentes do nosso”, disse Daniel Hoffman, ex-chefe do escritório da CIA em Moscou. 

Mostrando sua facilidade com a guerra de informações, Moscou respondeu rapidamente. A chancelaria da Rússia acusou os EUA de realizarem um “ataque coordenado de desinformação” para “minar e desacreditar as justas demandas da Rússia por garantias de segurança”.

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O Kremlin está em plena campanha de propaganda desde o ano passado. Moscou já acusou a Ucrânia de planejar um genocídio contra russos étnicos e denunciou os ucranianos como simpatizantes do nazismo. Autoridades russas também acusaram a Ucrânia e os EUA de tramarem planos secretos para justificar a invasão de território controlado pelos separatistas no leste do país.

O perigo da estratégia é expor as técnicas de coleta de inteligência. O Kremlin pode bloquear suas comunicações antes de uma possível invasão. Outros estrategistas acreditam que os EUA poderiam ser mais agressivos e divulgar informações sobre os principais aliados de Putin ou a respeito dos oligarcas que o apoiam. Isso poderia semear dúvidas sobre a lealdade das pessoas.

“As novas regras da guerra favorecem as autocracias, porque elas podem lutar de forma sorrateira e suja”, disse Sean McFate, do Atlantic Council. “A questão é o que arriscamos como democracia lutando dessa maneira? Como uma democracia trava uma guerra secreta sem perder sua alma democrática?” 

* Repórteres no New York Times

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